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Biodiversidade

03 de Dezembro de 2009

 

E da maricultura fez-se desenvolvimento

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Por meio de parcerias e muita disposição, Ademir dos Santos é destaque quando o assunto é a maricultura/Foto: Murilo Gitel/EcoD

O pescador catarinense Ademir Dario dos Santos conversava com outros pescadores perto do mar de Ribeirão da Ilha, em Florianópolis, em uma tarde aparentemente comum do ano de 1994. O assunto? A quase extinção dos frutos do mar da região, consequência do excesso de poluição e da exploração indevida dos recursos naturais.

Foi então que ele foi abordado por um grupo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) interessado em fazer uma proposta: a tentativa de implantação da prática da maricultura, com o objetivo de propiciar o renascimento da atividade socioeconômica na comunidade local.

A proposta foi aceita, e Ademir ganhou a capacitação de produtores franceses, além do apoio da Fundação Avina (da qual é líder-parceiro) para tocar em frente um projeto inovador, capaz de gerar renda, contribuir com o meio ambiente e a sociedade como um todo. Conheça essa trajetória de sucesso nesta entrevista que o pescador florianopolitano concedeu ao portal EcoDesenvolvimento.org.

EcoD: Como começou este projeto voltado para a maricultura?

Ademir Dario dos Santos: Foi na década de 1990, quando a Universidade Federal de Santa Catarina nos procurou para ajudar a implantar a tal da maricultura, atividade esta que veio gerar emprego e renda para a comunidade local. É bom observar que a maricultura não está só no que diz respeito à área de mariscos e ostras. Agora, com uma parceria junto a UFSC, Epagri [Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina] e prefeitura de Florianópolis, nós também vamos implantar a criação de algas, o que significa um grande avanço. Também devo dizer que o fato de ser um líder Avina me ajudou e ainda me ajuda muito, porque possibilitou levar a tecnologia que nós implantamos aqui no projeto da maricultura para outros estados brasileiros e para o exterior também.

EcoD: De que forma a maricultura pode ser sustentável?

Ademir Dario dos Santos: De diversas formas. Quando se fala em maricultura, se fala também em biodiversidade marinha, em meio ambiente, turismo, enfim. Ela é muito mais do que um conjunto de bóias jogadas no mar. A forma como as tecnologias e as próprias técnicas são implantadas não podem agredir a natureza. Depois de tomado esse cuidado, posso dizer que hoje, com a maricultura, tem peixe de tudo quanto é jeito. O próprio ribeirinho [expressão que também é usada para designar quem vive no Ribeirão da Ilha], o próprio pescador começou a se preocupar com o meio ambiente. Ele não joga lixo na água porque vê a maricultura lá. Gera emprego e renda. Possibilita a volta dos peixes. E também fez com que os órgãos governamentais se preocupassem mais com a qualidade da água. O pessoal da Univale também faz um trabalho importante de monitoramento da qualidade da água por lá, o que dá mais credibilidade para os frutos do mar que são cultivados.

EcoD: E a ideia de reaproveitamento do óleo de cozinha?

O óleo reciclado é uma das principais ações desse projeto. Nós sabemos que Florianópolis é uma cidade-ilha, e ela estava cada vez mais sufocada pela grande quantidade de óleo despejado, até em decorrência da concentração de restaurantes. Esse óleo estava sendo jogado no meio ambiente, no mar, prejudicando a própria maricultura. Então eu comecei a recolher os dejetos do óleo dos restaurantes e passei a transformar parte dele em combustível para embarcações, outra parte em sabão e a outra em compostagem. Veja só: hoje esse óleo ajuda a mover os barcos de Florianópolis. No início, as pessoas achavam que não daria certo, mas a resposta positiva veio logo em seguida.

EcoD: O que também tem estimulado a consciência das empresas...

Ademir Dario dos Santos: Eu costumo dizer o seguinte: eu plantei uma semente, mas a semente germinou de tal forma que hoje as empresas estão fazendo o recolhimento desse óleo, o que me dá uma grande satisfação. Agora comecei a ensinar os detentos da penitenciária de Florianópolis, mais uma vez em parceria com a UFSC. São cerca de 70 presos que hoje utilizam esse óleo para fazer sabão, em oficinas. Havia uma dificuldade de eles adquirirem sabão e sabonete. O reaproveitamento do óleo veio como uma solução para eles, porque além de reciclá-lo, eles teriam o sabão para uso pessoal, lavar as celas, dar aos familiares, e agora já estão até comercializando. Funciona assim: você recolhe o óleo nos restaurantes e submete os resíduos a uma limpeza, que é feita com água doce e substâncias que vão acabar com o sal e a sujeira. Logo, o óleo fica limpo e viável para ser reutilizado de diversas formas.

EcoD: E no que consiste o projeto Balsa Escola?

Ademir Dario dos Santos: A ideia é impulsionar o turismo na região, mas ao mesmo tempo atender as crianças em idade escolar. Ensinar a importância da maricultura para elas é muito importante, e as palestras propiciam isso. Elas ficam fascinadas quando conhecem o funcionamento do sistema da maricultura. Também ficam estimuladas a preservarem o meio ambiente. Os turistas também gostam muito.

O Balsa Escola foi criado há um ano e meio, e como o nome já diz, ele propicia que os estudantes fiquem mais próximos da maricultura. Atualmente, o projeto está parado devido a alguns entraves que já estão sendo solucionados. Tanto é que a minha previsão é a de que ele retorne a todo vapor em março de 2010. Quando o projeto operar novamente, a primeira iniciativa dele será a instalação de coletores artificiais de sementes (embriões) de mexilhões, já que a captura desenfreada dessas larvas tem sido um problema e tanto em Florianópolis. Em parceria com a UFSC, vamos implantar as larvas molhadas de mexilhões, na tentativa de resolver essa questão. 

EcoD: Dá para se viver da maricultura em Florianópolis?

Ademir Dario dos Santos: Dá sim. A maricultura é nova ainda no Brasil - tem cerca de 20 anos, mas Santa Catarina sempre teve um papel de destaque, tanto que é a maior produtora de ostras do país. Antes desse projeto, as famílias de pescadores tinham que deixar o Ribeirão da Ilha para trabalhar. Hoje elas não precisam mais sair do próprio local onde vivem. Antes, os turistas que chegavam em Florianópolis só queriam saber de comer camarão. Hoje, quando chegam nos restaurantes, eles querem conhecer a ostra, o marisco, e acabam fascinados. É uma experiência muito positiva, e que gera desenvolvimento.

EcoD: Ademir, parabéns pelo projeto e vida longa a maricultura! Obrigado pela entrevista!

Ademir Dario dos Santos: Obrigado a vocês do portal! Um grande abraço!


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