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22 de Março de 2010

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A gestão do lixo de praia

Limpar as praias? Ou prevenir para o lixo não chegue a estes ambientes? No mês de março, na coluna Lixo Marinho do EcoD, tive o privilégio de conversar com o Prof. Walter Widmer, da Universidade Federal do Paraná. Em uma linguagem simples e sincera, o Prof. Walter responde a estas e outras perguntas relacionadas à gestão do lixo em praias, enfatizando a importância das ações de cidadãos ambientalmente corretos.

Juliana A. Ivar do Sul*



Esse texto explora as maneiras como o ser humano vem buscando resolver o problema do lixo nas praias. Em outras palavras, as linhas abaixo abordam a gestão do problema do lixo praial.

De maneira bastante ampla, as iniciativas gerenciais para reduzir esse problema podem ser divididas em duas estratégias fundamentais: (a) retirar periodicamente o lixo que já se encontra na areia; e (b) evitar que o lixo venha a se depositar na areia.

A retirada periódica do lixo é a abordagem mais convencional. Inclui a prática freqüente das prefeituras dos nossos municípios costeiros em deslocar equipes de trabalhadores para limpar algumas praias. Em países onde a mão-de-obra é relativamente barata, como no Brasil, essa atividade ainda é pouco mecanizada, com o uso intensivo de trabalhadores, que utilizam carrinhos-de-mão, pás, rastelos, ancinhos e outras ferramentas similares. Essa atividade é mais freqüentemente praticada nos meses de verão, quando a quantidade de lixo costuma ser maior e é vista por um número maior de pessoas. É comum que tais atividades sejam reduzidas ou até mesmo interrompidas no inverno. A lógica das nossas prefeituras parece ser a de que o custo de limpeza da praia só se justifica quando essa ação ganha bastante visibilidade, o que tipicamente ocorre nos meses quentes, quando a praia é bastante visitada, quer por moradores do município (gerando um benefício político para o administrador público), quer por turistas (gerando um benefício econômico para esse setor). Em outras praias, a ausência da ação da prefeitura faz com que a iniciativa privada interessada (hotéis, restaurantes, bares de praia, entre outros) tome para si a responsabilidade de retirar o lixo da praia. Em países desenvolvidos, onde a mão-de-obra é mais cara, o uso de maquinário específico para esse fim, tais como tratores especiais (Figura 1), é mais vantajoso economicamente.

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Figura 1: Trator especial utilizado na limpeza de praias/Foto: BeachTech (divulgação)

A promoção de mutirões de limpeza, além do caráter educativo, também retira quantidades significativas de lixo das praias, embora de forma menos regular no tempo do que as equipes municipais de limpeza. Mecanizada ou não, essa primeira estratégia gera resultados positivos no curto prazo, embora seja, intrinsecamente, apenas paliativa. Se quisermos praias com pouco lixo, a estratégia mais inteligente deve ser a de evitarmos que o lixo venha a ser depositado na praia, em primeiro lugar.

Para essa segunda estratégia, diversas ações são possíveis. Uma ação muito coerente é tentar reduzir a quantidade de lixo nos oceanos, de forma que haja um estoque menor de lixo que possa ser lançado nas praias pelo mar. Pensando estritamente no ambiente praial, a instalação de lixeiras é uma das ações mais elementares. Mas é preciso lembrar que essa é a parte “fácil” da empreitada, envolvendo, fundamentalmente, a compra e a instalação das mesmas. Mesmo uma praia com lixeiras instaladas pode continuar com grande quantidade de lixo na areia se não for feito um estudo criterioso para definir a quantidade e a localização adequada das lixeiras, bem como pesquisas que indiquem a periodicidade para a limpeza desses equipamentos.

Tampinhas de garrafa, bitucas de cigarro e pequenos fragmentos de plásticos, por exemplo, constituem um problema à parte, devido à sua pequena dimensão. A instalação de lixeiras tradicionais, o envio de equipes de limpeza municipais e a prática de mutirões de limpeza visam reduzir a quantidade de itens maiores, dando pouca atenção aos itens pequenos. Para esse tipo de objetos, existem os cinzeiros portáteis, individuais (Figura 2), em cujo interior o frequentador da praia pode lançar a bituca do cigarro, assim como um papel de bala ou um sachê usado de protetor solar, por exemplo.

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Figura 2: Exemplo de um cinzeiro portátil/Foto: Ecobyn (divulgação)

Independentemente do tamanho dos recipientes (lixeira convencional ou cinzeiro portátil), é fundamental que se promova a participação dos frequentadores da praia no sentido de que estes passem a usá-los efetivamente, isto é, passem a jogar o lixo não mais na areia e sim no interior das lixeiras ou dos cinzeiros portáteis. Esse aspecto é muito importante para o sucesso da segunda estratégia e envolve, essencialmente, a alteração do comportamento dos frequentadores da praia.

Tradicionalmente, o comportamento humano é “enquadrado” pela coerção, em um padrão que é socialmente aceito naquele momento histórico. Poucas pessoas questionam a validade da prática de se aplicar uma multa em dinheiro para o motorista que cruza o sinal vermelho, de forma a puni-lo por esse comportamento e, mais importante, de forma a desencorajar outros motoristas a agir de forma socialmente indesejável. De maneira similar, se queremos praias sem lixo e acreditamos que é o frequentador da praia quem joga lixo na areia, podemos pensar em punir quem assim se comporta. Alguns países multam os frequentadores de praia que jogam lixo na areia, embora essa fiscalização seja bastante difícil, do ponto de vista logístico.

Devido a essas dificuldades logísticas, muitas iniciativas buscam educar o usuário da praia, fazendo com que ele pare de jogar lixo na areia por iniciativa própria, sem a necessidade da coerção. Acredita-se que muitas pessoas deixarão de jogar lixo na praia quando elas compreenderem que esse comportamento é prejudicial a elas próprias, aos outros e ao meio ambiente. A educação ambiental pode fazer com que o ato de jogar lixo na praia se torne um comportamento mais e mais reprovável socialmente, desestimulando as pessoas ainda não sensibilizadas por esse tema a sujarem a areia com lixo e terem suas imagens depreciadas perante as outras pessoas.

Ao invés de punir quem faz algo errado, existe também a estratégia inversa: premiar quem faz a coisa certa. Em um nível individual, muitas pessoas acabam por auferir um benefício na sua imagem social quando são vistas agindo de maneira ecologicamente correta, como quando se levantam da areia para caminhar até uma lixeira (que pode não estar tão perto assim) para jogar o lixo que foi gerado por aquela pessoa. Do ponto de vista institucional, existem alguns programas de certificação da qualidade de praias, tais como o programa Bandeira Azul e o programa Seaside Award, que dão um prêmio (uma espécie de certificado de excelência) para aquelas poucas praias onde as pessoas envolvidas (físicas e/ou jurídicas) desenvolveram planos e ações que fazem com que elas apresentem alta qualidade. Entre diversos outros requisitos de qualidade, os dois programas citados acima exigem que, nas praias certificadas, a ocorrência de lixo seja mínima.

Por último, vale lembrar que muitas vezes o lixo que vemos na areia não foi deixado lá pelo usuário da praia, mas sim foi originalmente lançado nas ruas e sarjetas mais afastadas, tendo sido carregado até a praia pela água da chuva, através de canais de drenagem, córregos urbanos ou mesmo rios. Assim, algumas localidades optaram por colocar redes ou grades metálicas nas desembocaduras desses cursos d’água, de forma a reter o lixo, evitando que ele chegue até a praia (Figura 3). Mais uma vez, a limpeza periódica dessas grades ou redes é fundamental para que essa técnica dê resultado.

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Figura 3: Exemplo de redes e grades utilizadas para a contenção do lixo provenientes de rios e outros cursos d’água/Foto: Stormwater Systems

Essas são, em linhas gerais, as estratégias que as pessoas utilizam para tentar manter as areias limpas. Cada praia costuma ter um conjunto de características próprias, como os hábitos culturais dos seus visitantes e o nível de envolvimento do governo municipal, entre outros aspectos, fazendo com que uma estratégia acabe sendo mais adequada do que outra. É também interessante notar que as ações apresentadas acima não representam, felizmente, uma listagem exaustiva, pois graças à imensa criatividade humana, sempre estarão sendo criadas novas maneiras de se tentar reduzir o problema do lixo nas nossas praias.

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