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14 de Setembro de 2009

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Nosso lixo de cada dia – de casa para o mar

Na coluna sobre Lixo Marinho de Setembro conversei com a doutora Maria Christina Araújo. Conheça a opinião dela sobre o Lixo Marinho, com destaque a ocorrência de “microlixo” nos ecossistemas costeiros e a necessidade de soluções mais consistentes para este problema.

Juliana Ivar do Sul*


O lixo variado e colorido que se espalha sobre a areia das praias é o reflexo mais visível de nosso cotidiano, de nossos hábitos, de nosso apego à comodidade. Como tão bem expresso no livro Marine Debris: sources, impacts and solutions (Coe & Rogers, 2000), “nenhuma outra forma de poluição é tão universalmente familiar”.

A maioria da população é extremamente dependente da praticidade oferecida pelos plásticos, mas na mesma proporção, despreocupada com as consequências de seu descarte no ambiente. Frequentadores de praias estão quase sempre habituados à presença de lixo na areia e, na maioria das vezes, ignoram-no completamente. É comum as pessoas caminharem naturalmente entre os resíduos, como se eles fossem parte dos atributos da paisagem.

Esse comportamento coletivo de abstenção, quase um pacto de silêncio, é fruto do desânimo em relação à grandiosidade do problema e da pouca disposição para mobilização, tão comum na maioria das pessoas. A impressão de que, quanto mais a praia é limpa, mais lixo reaparece a cada dia, cria uma sensação de impotência frente ao problema.

Nossos resíduos plásticos, na forma de uma infinidade de recipientes e objetos regularmente recolhidos pelos serviços de limpeza, ou despretensiosamente largados por aí em lixeiras públicas, se espalham para muito além de nossas residências, bairros e cidades. Mas afinal de contas, por que iríamos nos preocupar com o destino de uma garrafa plástica que foi corretamente colocada em uma lixeira pública?

A resposta está estampada nas vias públicas, nos rios, em nossas praias. Basta um deslize, no recolhimento ou no descarte, para que os resíduos se distribuam indistintamente pelos mais diversos locais. São inúmeros os caminhos, mas todos levam ao cenário que nos é tão familiar: galerias, canais e rios servindo de vias interligadas, através das quais os resíduos chegam ao mar. 

O lixo marinho não tem dono; uma vez na água, fronteiras se desfazem e independentemente da origem (fluvial, marítima ou dos próprios usuários das praias), uma série de fatores permite que o mesmo atinja até locais remotos e inabitados, fato constantemente comprovado por vários pesquisadores.

A natureza “conspira” a favor da dispersão de poluentes. São inúmeros os mecanismos naturais que convergem nesse sentido. No caso dos plásticos, características como flutuabilidade e longevidade se completam, favorecendo a dispersão e a permanência desses materiais nos mais diversos ambientes.

Embora o lixo seja onipresente nos ambientes costeiros e marinhos, só percebemos uma ínfima parcela da situação real e, com toda certeza, estamos perdendo a guerra contra esse tipo de poluição. É surpreendente a similaridade que existe entre praias distantes entre si milhares de quilômetros, com relação à presença de lixo marinho. O problema tem se tornado universal e generalizado. 

Um fato agrava ainda mais a situação: o lixo marinho que está visível na superfície da areia, na maioria das vezes, é somente a “ponta do iceberg”. Uma enorme quantidade de lixo, principalmente sob a forma de fragmentos, provavelmente deve encontrar-se enterrada sob metros de areia, tornando-se inacessível para remoção natural ou através da limpeza pública. Mesmo a dinâmica costeira não deve ser suficientemente eficiente para remobilizar esse lixo e, mesmo que o fosse, só seria capaz de levá-lo para outros locais. 

Ao longo de tantos anos de envolvimento direto com o problema do lixo marinho, minha preocupação, antes concentrada na identificação das principais fontes dos inúmeros itens plásticos que compõem o macrolixo presente nos ambientes costeiros, hoje se volta principalmente para outros aspectos, que considero de significativa importância: os fragmentos e os pellets, mas principalmente o microlixo.

Plásticos são feitos para durar. A adição de cargas reforçantes, compostas de vários tipos de aditivos com finalidades específicas, tais como estabilizantes térmicos contra a ação da radiação ultravioleta, dificultam sua degradação. Mesmo após uma longa permanência em exposição nos ambientes, os polímeros comuns são inertes à biodegradação, ou seja, são reduzidos a pedaços cada vez menores, porém, permanecem como material plástico, desafiando o tempo.

Dessa forma, a degradação mecânica que atua sobre esses materiais torna-se o principal fator responsável pela dificuldade de remoção do lixo marinho presente em praias, manguezais e mar. Quanto menor o fragmento, mais ele se mistura e se camufla no ambiente. Não fosse pelo colorido de muitos itens, os fragmentos poderiam facilmente ser confundidos com o próprio sedimento. O tamanho também está diretamente relacionado ao perigo para a biota. São vários os relatos de invertebrados nos quais o conteúdo do tubo digestivo continha fragmentos plásticos.

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Fonte: Laboratório de Ecologia e Gerenciamento de Ecossistemas Costeiros e Estuarinos – LEGECE / UFPE

Pellets são reconhecidamente um perigo para a biota. Essas pequenas bolinhas, quase sempre transparentes e com aproximadamente 0,5cm de diâmetro, embora passem despercebidas na areia das praias para a maioria das pessoas, estão cada vez mais presentes, desafiando nossa capacidade de controle.

Embora demandando um esforço muito grande, fragmentos maiores e pellets, ambos presentes nos ambientes costeiros ou no mar, podem ser coletados caso seja utilizado um equipamento adequado, como peneiras de malha reduzida por exemplo. Já o microlixo, classe composta por itens com tamanho menor que 1mm, desafia qualquer tentativa de remoção porque está além da nossa visão cotidiana de macroescala. Esses minúsculos itens plásticos provavelmente já se encontram difundidos de tal forma que nem podemos imaginar, mas infelizmente, graças ao reduzido tamanho, não temos como quantificá-los de forma consistente.

Qual a origem desses itens? Certamente no passado eles teriam origem apenas na degradação de itens maiores, mas atualmente incluem também microesferas de polietileno (plástico) com cerca de 600 microns, empregadas em uma infinidade de produtos com propriedades esfoliantes, que vão desde sabonetes e cremes para pele até cremes dentais.

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Fonte: Laboratório de Ecologia e Gerenciamento de Ecossistemas Costeiros e Estuarinos – LEGECE / UFPE

A poderosa indústria de cosméticos, que investe milhões de dólares no desenvolvimento de produtos de beleza, resolveu substituir a pasta de areia, largamente utilizada no passado em cremes esfoliantes, pelas microesferas de polietileno, alegando como justificativa o conforto para a pele, já que a pasta de areia era incômoda. Essa decisão foi determinante no incremento de microplásticos para o meio ambiente.

Cada vez que usamos um desses produtos esfoliantes nos tornamos uma fonte potencial para os esgotos, e destes para o ambiente, de uma infinidade de partículas resistentes à degradação e, portanto, com um poder de longevidade difícil de determinar. A questão é: qual de nós deixaria de usar cremes esfoliantes simplesmente pelo fato de possuírem plástico em sua constituição e serem, portanto, danosos ao meio ambiente? Acaso deixamos de consumir refrigerantes envasados em garrafas PET?

Talvez o caminho seja uma nova substituição, da microesfera de polietileno por um produto similar, mais natural; da garrafa PET pelo vidro do passado; da sacola de plástico pela ecobag. Tantas substituições quantas forem necessárias, ou até que nossa consciência nos obrigue a mudar de hábitos.

Finalmente, com relação à questão do lixo marinho, seja ele macro ou micro, cada vez mais me convenço de que temos avançado muito nas pesquisas, mas pouco nas soluções. A meu ver a única opção seria então o óbvio: se o que está flutuando no mar é praticamente impossível de ser recolhido, teríamos de concentrar esforços na redução em terra. Mas é difícil mobilizar a opinião pública acerca de problemas que não são claramente visíveis, como aqueles advindos da presença do microlixo nos ambientes. Enquanto no mundo inteiro tem se difundido uma campanha consistente para redução das sacolas plásticas, o mesmo não tem ocorrido com relação a outros itens, especialmente aqueles que passam despercebidos.

O ideal seria então, que a pesquisa se aproximasse mais da sociedade de forma geral e que os dados mais significativos e com maior poder de sensibilização, como os danos à biota, fossem divulgados na mídia de forma a desenvolver em longo prazo, uma nova mentalidade com relação à nossa responsabilidade ambiental. 

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