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15 de Julho de 2009

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O bote e o lixo

A professora Jacqueline Santos Silva-Cavalcanti, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, é a colaboradora da coluna Lixo Marinho em Julho. Conheça a opinião da professora sobre o lixo marinho e a importância da educação ambiental na mudança de atitude de cada um.

Juliana Ivar do Sul*


Estava lendo quando minha filha, de cinco anos, se aproximou para ver o que me deixava tão concentrada. Ao voltar seu olhar para a revista, viu a foto de uma tartaruga morta e um monte de plástico do lado. Ela me perguntou: mamãe, a tartaruga morreu? Respondi que sim. Morreu de quê? Morreu porque estava com muito plástico no estômago. Sem saber a relação entre as duas coisas, ela fez mais uma pergunta: Mas, como esse lixo foi parar no estômago da tartaruga? E falei que era porque as pessoas jogavam lixo na praia e que as tartarugas o confundiam com seu alimento natural. Então ela retrucou: mas por que as pessoas jogam o lixo na praia?

Mike Nelson/EPA
Foto: Mike Nelson/EPA

Para começar a responder, não só para minha filha, mas para os interessados em saber o porquê, nada melhor do que um dito popular: “costume de casa, leva à PRAIA!”. Geralmente, quando uma pessoa vai à praia, ela não se sente responsável pelo lixo ali gerado e abandonado, considerando-a como um espaço público, cuja limpeza é de responsabilidade do serviço público e não sua. No entanto, as pessoas esquecem que esse lixo depositado no ambiente de praia tem um destino certo: o ambiente marinho adjacente. Neste ambiente, torna-se um risco eminente às embarcações e principalmente aos animais. Muitos morrem ao ingerir esses resíduos, ou ficam presos até a morte em redes à deriva. Mas qual seria a solução para este problema? EDUCAÇÃO!

Todo mundo, algum dia na vida, já escutou: a educação é a base de tudo. Isso também pode e deve ser aplicado quando falamos em lixo marinho. A educação ambiental pode ser definida como o processo por meio do qual o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente. Sem essa construção de valores pela sociedade, as praias continuarão poluídas e vários animais vão continuar morrendo por ingestão de plástico. O mesmo plástico que ALGUÉM, que pode ter sido você, deixou largado na praia. Apesar de se falar em construção de valores, não vamos esperar que todas as pessoas do mundo, em um único momento, comecem a agir de forma diferente. Pois, para que esses valores MUDEM, alguém precisa dar o primeiro passo.

Quando falamos em educar, vemos que a educação passa a ser o agente transformador da sociedade. Mas antes que haja a transformação, o cidadão passa por diferentes fases para alcançar o estágio de “cidadão verde” ou ecologicamente correto. Esse processo pode ser longo, no entanto, compreenderá sempre quatro fases contínuas.

O cidadão primeiramente é sensibilizado, é chamado a ver o ambiente sob uma nova ótica, a redescobri-lo e perceber com atenção a o problema da poluição. Após a sensibilização, o sujeito passa a ter compreensão ambiental. Isto é, ele começa a entender o funcionamento do ecossistema e como suas atividades podem interferir na qualidade do ambiente (se ele deixa a sacola plástica na praia, a praia fica poluída). Quando ele compreende a importância desses ecossistemas, ele alcança o terceiro estágio: responsabilidade ambiental.

A responsabilidade ambiental é um processo de reflexão, fazendo com que o sujeito sinta-se como membro constituinte do ecossistema e protagonista da sua transformação, organização, manutenção, preservação, seja em nível de micro ou de macro abrangência (Se EU sujei a praia, então o lixo poderá ser ingerido por alguma tartaruga, por minha causa). A partir desse estágio, pode-se esperar que o sujeito seja considerado um “cidadão verde”, ou que apresente cidadania ambiental, através do seu envolvimento em ações de efetiva participação e mobilização, com outras pessoas, na busca de soluções aos problemas da relação pessoa/ambiente (ele pede aos amigos que destinem corretamente o lixo que eles geraram).

A educação ambiental continua sendo um paradigma para sociedade atual. Em 1999, o Governo Federal, através da lei n° 9.795, tornou a educação ambiental um componente essencial e permanente da educação brasileira, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo. Infelizmente, apesar dessa iniciativa, pouca ênfase é dada aos impactos das ações humana sobre os ecossistemas costeiros, sendo estes muitas vezes ignorados nas atividades de ensino nas escolas da área litorânea.

Várias campanhas de educação nas áreas costeiras são mal articuladas e não passam de ações de marketing de empresas que tentam vender a ideia de ecologicamente corretas. Quando eu monitorei a praia da Boa Viagem, em Recife, era comum, em dias de campanhas educativas, encontrar várias sacolas plásticas abandonadas na areia da praia ou até mesmo sendo levadas pela maré. Mas qual seria o problema dessas campanhas? O grande problema é que essas não passam de uma sensibilização relâmpago, que apenas distribui sacolas que ao final do dia acabam aumentando o lixo na praia. Os passos seguintes do processo de criação de um “cidadão verde” não são realizados, deixando os ambientes costeiros ainda mais vulneráveis.

Para que algum programa de educação ambiental seja efetivo, é necessário que se conheça quais grupos são responsáveis pelo lixo marinho e como esses grupos interagem com o ambiente. Dessa forma, todos os atores, sejam eles governamentais ou não, que apresentam interesse pelo ambiente, deverão ser incluídos. O processo educacional tem que se dar em todos os níveis para que ações sejam articuladas e se tornem efetivas, criando programas educacionais voltados para o público-alvo identificado.
No entanto, algumas atitudes individuais e coletivas podem ser adotadas com a finalidade de minimizar a contaminação por lixo plástico na praia e consequentemente no oceano. De caráter individual posso citar:

1. Evitar o uso de descartáveis - Isso porque, caso não haja destinação adequada dos descartáveis (como copos, pratos, canudos), eles serão facilmente propagados pelas ondas e pelo vento devido ao seu baixo peso e alta flutuabilidade.

2. Caso o uso de descartáveis seja inevitável, não brinque com o lixo - É comum entre os adultos e crianças, brincar com lixo descartável. Brincar?! Você deve estar se perguntando. Sim, brincar. Quantos de nós pegamos o copinho que bebemos o refrigerante e o decompomos em flor, e depois em pequenos fragmentos que são jogados na areia e geralmente negligenciados pelos serviços de limpeza por serem pequenos. O que acontece então? Esse lixo é acumulado na areia, levado pelas ondas, podendo ser ingerido por vários animais marinhos.

3. Destinação adequada do resíduo - Para que você faça bom uso da praia, sem comprometer a qualidade desse ambiente, três passos deverão ser seguidos: RECOLHER, DEPOSITAR e DESTINAR. Recolher todo o lixo gerado ao longo de sua permanência na praia; depositar temporariamente este resíduo em embalagens para transporte ou sacolas; e ao final de sua estada, pegue a sacolinha cheia de lixo e leve-a para fora do ambiente de praia. Com esse simples ato, você assegurará que o lixo produzido será bem destinado.

De caráter coletivo, priorizando atitudes governamentais:

1. Desenvolvimento da “responsabilidade do cidadão” – Ela pode ser trabalhada constantemente em diferentes grupos-alvo, em particular as crianças. Em escolas, é interessante que os projetos pedagógicos sejam voltados para trabalhar os quatro passos do processo transformador. No caso de empresas e organizações não-governamentais, é necessário que esses programas sejam realizados através de projetos de médio e longo prazo, priorizando sempre o reconhecimento do cidadão como agente transformador do meio, podendo incluir campanhas educativas práticas.

2. Desenvolvimento de manuais para monitoramento do lixo marinho - através do monitoramento é possível determinar os padrões e tendências dessa contaminação através do tempo em diferentes locais do globo. Um manual de monitoramento ajudará a padronizar a metodologia utilizada em diversas partes do mundo, possibilitando a formulação de uma escala de contaminação desses ambientes. Esse manual também deverá contemplar ações de monitoramento do lixo abandonado nos locais próximo à linha de costa ou a caminho do mar.

3. Desenvolvimento de manuais de conduta - o lixo marinho pode ter origem em diferentes usuários da praia (banhistas, mergulhadores, pescadores). Diferentes tipos de usuários tem diferentes condutas e consequentemente, geram diferentes tipos de lixo. A elaboração de manuais direcionados para cada público tem como objetivo o bom uso do ambiente, sem que sua atividade deixe resíduo, além de minimizar os impactos da atividade no ambiente.

4. Inclusão do lixo marinho na avaliação ambiental regional e global - A partir do momento que uma classificação é imposta, padronizada e noticiada, seja ela mundial ou local, existirá uma preocupação entre os atores governamentais em se manter em uma escala adequada de classificação. Dessa forma, esses ambientes estariam mais “protegidos” deste tipo de contaminação.

Dias depois da explicação no episódio da tartaruga morta, quando minha filha retornou à praia, alugamos um bote inflável para que ela pudesse brincar. Ao passar alguns minutos dentro da água, ela começou a reparar a quantidade de lixo que boiava ao seu redor. Nesse instante, ela pediu para que eu empurrasse o bote e ela pudesse recolher o lixo que estava flutuando, pois ela seria a “caçadora do lixo marinho”, como ela se autodenominou.

Achei que logo ela fosse cansar, mas ela persistiu em limpar “toda” a água da praia. Curiosa em saber por que ela estava limpando a praia com tanto afinco, perguntei: filha porque você está “caçando” todo lixo? E ela respondeu: Para que nenhuma tartaruga morra, mamãe! Ao final do dia, saímos da praia puxando o bote cheio de lixo que não mais ameaçaria nenhuma tartaruga. Pequenas atitudes podem fazer grandes transformações, sejam elas em casa, na praia, no oceano ou no mundo!

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