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16 de Junho de 2009

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O lixo marinho & eu

Esse mês na coluna Lixo Marinho do EcoD, conversei com a professora Monica Ferreira da Costa, do Departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco. Conheça a opinião da professora sobre o lixo marinho e o papel das universidades nesse contexto.

Juliana Ivar do Sul*


Nos idos de 1999, uma então aluna de Especialização em Gestão de Ambientes Costeiros Tropicais (Departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco) me procurou para orientá-la em uma monografia sobre lixo em praias. Na época eu praticamente só trabalhava com poluição marinha por metais traço, e depois de muito hesitar, aceitei. Aos 41 anos de idade eu conto nos dedos, de uma das mãos, outras decisões profissionais tão acertadas como essa.

Hoje, quatro monografias, quatro dissertações de mestrado em oceanografia, 17 trabalhos publicados em revistas científicas (inclusive de alto impacto), capítulos de livros e inúmeras participações em congressos depois, agradeço à doutora Christina Araújo (M.C.B.Araújo, para os íntimos da literatura cientifica sobre lixo marinho) por ter contribuído decisivamente na abertura de uma nova área de pesquisa para o grupo na UFPE e, de certa forma, no Brasil. As possibilidades de pesquisa científica e qualificação de pessoal nessa área são vastas. Do ponto de vista do professor-orientador-pesquisador parece maravilhoso, mas do ponto de vista geral da Monica é péssimo, pois isso quer dizer que tem muito lixo no mar!

Global Garbage

Bem, então, qual é o papel das universidades na amenização e tentativas de solução desse problema? Posso listar e comentar os três aspectos mais importantes:

1. Qualificação de pessoal:
O professor universitário tem, dentre as suas inúmeras obrigações contratuais, a de formar alunos em nível de graduação e pós-graduação. A formação passa por dois processos diferentes, às vezes complementares: aulas e orientação científica. Esses processos, no entanto compartilham algo em comum. Devem ser feitos sempre com a melhor informação disponível naquele momento, ou seja, temos que estar sempre atualizados e a par do que está sendo pesquisado e descoberto no mundo. Isso não é possível de ser feito apenas através de leitura, é preciso engajamento na pesquisa científica. E é trazendo alunos das salas para o laboratório para fazerem seus TCCs, dissertações e teses que mais contribuímos na formação de pessoal, chamando atenção para um assunto super atual e extremamente importante como esse. Não é fácil, dar uma boa aula, cativar os alunos, sensibiliza-los com o problema, convence-los de que é uma oportunidade diferenciada de pesquisa. É preciso ser muito firme e seguro para vencer o preconceito dos colegas (professores e alunos), e mostrar que trabalhar com lixo marinho não é só “catar lixo na praia”. O lixo marinho é um problema que todo mundo vê durante seus trabalhos de campo e momentos de lazer, mas nem todos nas universidades aproveitam a oportunidade de contribuir no esclarecimento do assunto. Os poucos que se lançaram na aventura do conhecimento científico nessa área estão sendo recompensados, com reconhecimento internacional. Chamo a atenção de que a situação melhorou muito em dez anos e estamos vivendo, nesta segunda metade dos anos 2000, um florescimento da literatura sobe o assunto. Ensino em nível de graduação e pós-graduação baseado em dados científicos de boa qualidade gera, necessariamente, boa publicação científica, o segundo ponto importante de contribuição do meio acadêmico para solução do problema.

2. Geração de informação nova, e de qualidade, seguida da publicação científica:
A publicação científica é registro escrito que resulta da pesquisa, que por sua vez é realizada de acordo com metodologias próprias. A principal recompensa de um acadêmico (além da felicidade de ver seus ex-alunos bem colocados no mercado de trabalho e amplamente reconhecidos) é a publicação científica em revistas de alto impacto na nossa comunidade. Sabe-se de registros de trabalhos científicos sobre lixo marinho há mais de 60 anos. No entanto, com o crescimento da massa crítica de pesquisadores no mundo todo, assim como a revolução dos meios de publicação e divulgação da pesquisa científica (leia-se internet), o número de registros publicados aos quais se tem fácil acesso vem crescendo em um espiral assombroso. As revistas especializadas em poluição marinha já não são mais os únicos veículos de divulgação do problema, e periódicos das diversas áreas correlatas como a pesca, o gerenciamento costeiro, a toxicologia, a química marinha, as políticas públicas marinhas, a conservação marinha, o turismo, a ecologia e biologia de espécies animais atingidas etc. também estão publicando contribuições importantes. São muitos os desdobramentos do problema e devemos estar sempre atentos para as novas consequências da poluição marinha, sobretudo por plásticos. Recentemente precisei organizar uma lista*, com nomes e e-mails de pesquisadores de todo o mundo envolvidos no assunto. Comecei achando que seria uma tarefa para uma ou, no máximo, duas xícaras de café. Ilusão! A lista não parava de crescer e terminei com pelo menos 50 nomes no Brasil e mais uns 100 ao redor do mundo. Mas isso não quer dizer que se estuda mais lixo marinho no Brasil do que eu outros paises, a (des)proporção dessa minha lista reflete, lógico, uma questão de acesso à informação. O acesso à informação nos traz justamente ao último tópico que eu gostaria de expor para vocês como sendo papel das universidades em relação ao problema do lixo marinho.

3. Extensão universitária:
Fechando esse ciclo, a extensão universitária e divulgação pública dos resultados é também uma tarefa das universidades. Essa divulgação contribui na formação de todos os cidadãos, e em longo prazo, recruta novos cientistas (fechando assim um círculo virtuoso!!!). Esse processo de extensão se dá através da decomposição em linguagem (escrita, falada e/ou visual) acessível, as informações de ponta geradas pelas universidades. Isso geralmente é feito direta e pessoalmente junto às comunidades onde os trabalhos foram desenvolvidos, ou indiretamente através da imprensa de grande circulação. Nosso grupo, por exemplo, teve um trabalho financiado pela Fundação O Boticário de Proteção à Natureza que foi desenvolvido no litoral Norte de Pernambuco e Sul da Paraíba. Os resultados do projeto foram veiculados nas comunidades pesqueiras locais e escolas. Para isso foi produzido todo um material específico, consistentemente baseado nos dados científicos gerados pelo projeto: havia quantidades significativas de lixo plástico nos manguezais locais, esse lixo estava vindo das próprias comunidades ribeirinhas e sendo exportado para o mar, onde sua presença trazia uma grande quantidade de conseqüências para os animais e, por extensão, também para os próprios pescadores. Tudo isso foi mostrado à comunidade através dos resultados de experimentos controlados que geraram padrões e números caracterizando e quantificando o problema.

Existem papéis importantes para cada ator ou grupo de atores sociais na prevenção e combate a poluição marinha por lixo. Universidade, governo, setor privado, sociedade civil organizada, e os cidadãos. Tentei da forma mais sucinta possível dar um sobrevôo pelo papel das universidades. O setor privado, ou seja as empresas que visam lucro, está lentamente despertando para as consequências de seus atos, dentre eles a geração e destinação de resíduos sólidos. Exemplos de iniciativas que visam reduzir os impactos são muitas, algumas particulares de cada setor da economia, outras que podem ser generalizadas como redução e reciclagem de papel de escritório e embalagens, só para citar a mais banal de todas. A maioria das empresas hoje em dia tem algum tipo de política de sustentabilidade que envolvem, de uma forma ou de outra, abordagens sobre resíduos sólidos.

Acho importante dizer que governo é uma palavra muito pequena para falar de uma coisa muito grande. Mas temos sim que chamar a atenção de que cada parte do governo federal, estadual e municipal poderia agir em diferentes frentes. O Congresso Federal poderia finalmente discutir seriamente e votar o Projeto de Lei no. 203 (de 1991) que trata da Política Nacional de Resíduos Sólidos; as autoridades portuárias poderiam fazer cumprir as diretrizes básicas do anexo V da MARPOL**; os governos estaduais e municipais poderiam agir em nível de secretarias de educação, limpeza urbana, saneamento básico; o IBAMA e o ICMBio poderiam tomar providencias especiais em processos de licenciamento ambiental e em Unidades de Conservação. Enfim, essa lista de possibilidades é enorme e acho que merece uma coluna só dela.

A sociedade civil organizada (as ONGs, por exemplo) tem um papel especial, e fundamental, de mobilização social em torno do problema do lixo marinho. Ele difere em muito dos outros que eu citei acima, mas precisa estar sempre aliado a eles. Por último, mas de forma alguma menos importante, tem você. O bombardeio de informação pública e gratuita sobre o problema do lixo marinho e suas consequências para os ecossistemas costeiros e marinhos, e para nós mesmos, já dura alguns anos. Não há mais como ninguém se declarar desinformado sobre a existência desse problema. Acabaram-se as desculpas e precisamos sacudir para longe essa preguiça de reduzir o uso de itens plásticos, reutilizar ao máximo os itens que possuímos e, sempre que possível, reciclar objetos e idéias! Agora gente é força de vontade de mudar a situação, mudando só um pouco seus hábitos de vida, consumindo menos e aproveitando melhor o que temos por perto. Se você está paralisado, sem saber o que fazer, comece lendo e estudando sobre o assunto. Esta coluna é um bom começo. Se quiserem mais, as universidades brasileiras estão aqui para ajudar.

*essa lista será utilizada para divulgar o lançamento de um número da Revista de Gestão Costeira Integrada – Journal of Integrated Coastal Zone Management (http://www.aprh.pt/rgci/index.html) dedicado ao tema do lixo marinho, a ser publicado no segundo semestre do ano que vem.

** MARPOL 1973/1978: é a convenção internacional sobre poluição marinha que, desde os anos 1970, norteia ações de prevenção e combate a esse problema. O Anexo V dessa convenção trata justamente do lixo marinho, sobretudo dos plásticos. O Brasil é signatário.

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