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10 de Maio de 2010

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O mar está para peixe ou para o lixo?

Nos dias de hoje, constantemente ouvimos as pessoas falarem “como o tempo passa rápido!”. E passa mesmo. Por isso, nosso tempo deve ser aproveitado de forma ecologicamente sustentável, promovendo a preservação e conservação do ambiente em que vivemos. Este é o recado que o Portal EcoDesenvolvimento passa todos dias pra muitos leitores em todo Brasil. Neste mês de maio, junto com a equipe do EcoD, comemoramos UM ANO desta coluna mensal que aborda os problemas, soluções, novas e boas idéias relacionados ao lixo marinho. A décima terceira coluna não encerra um ciclo, e sim, inicia outro. Este mês conversei com o Biólogo Gustavo Souza, que vive em Salvador, Bahia. Para a equipe da Global Garbage, é como estar em casa, pois foi lá que tudo começou... Conheça um pouco do trabalho do Gustavo e da atual situação da Baía de Todos os Santos em relação à poluição por lixo marinho.

Juliana Ivar do Sul*


A alusão frente a esta questão reflete a forma como nós, humanos, estamos conduzindo nossas ações em decorrência da atual condição em que vivemos. Nunca antes na história se produziu e se consumiu tantos materiais descartáveis e muitos destes resíduos infelizmente não passam pela famosa política dos 4 R’s (Reduzir, Reciclar, Reutilizar e Reintegrar). E onde será o destino final destes materiais?

O mesmo mar no qual artistas, poetas, músicos, adoradores e apaixonados, instauram seus momentos de contemplação, é o mar que recebe o nosso lixo. Isso mesmo, o LIXO MARINHO! Uma tremenda contradição. Todos os animais no mundo vivem para a manutenção do equilíbrio de seus ecossistemas e porque o homem, Homo sapiens, do latim “homem sábio”, presa pelo contrário? A cada momento em atividades de sensibilização envolvendo a poluição marinha me recordo da pergunta da pequena filha da Profa. Jacqueline Santos (UFRPE) sobre as pessoas jogarem lixo nas praias (Coluna EcoD de Julho de 2009). E também me pergunto: porque mesmo sabendo, elas continuam?

Desde criança frequento as praias da Barra (Salvador – BA) (Figura 1) em atividades recreativas, como mergulhador e mais recentemente em pesquisas, sendo esta uma área muito conhecida, contemplada e utilizada pelos baianos e turistas, além de ser palco de diversas promoções culturais.

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Figura1: A Bahia é linda! Vista da praia do Farol da Barra, Porto da Barra e Yacht Clube / Fotos: G. F. Carvalho-Souza e R. Maia-Nogueira

Ao ingressar na academia comecei a enxergar este local e as zonas costeira e marinha com olhos mais criteriosos e há alguns anos estamos desenvolvendo atividades de sensibilização como o Dia de Limpeza de Praias (Clean up Day) nestes ambientes. No ano de 2009 decidi, com o apoio de uma equipe, realizar um estudo para avaliar o estado de contaminação destas áreas no âmbito subaquático, além de possíveis associações nas assembléias de três costões rochosos localizados na entrada da Baía de Todos-os-Santos, o segundo maior acidente geográfico da costa do Brasil.

Através de censos visuais subaquáticos amostramos os resíduos sólidos e a fauna associada utilizando dois métodos adaptados, o protocolo AGRRA (Atlantic Gulf Reef Rapid Assessment) e o RDC (Rover Diving Census), vista a eficiência comprovada destes métodos em amostragens da biodiversidade marinha. No primeiro método, uma linha é traҫada sobre o fundo, e um mergulhador percorre a área realizando as aferições em diversidade e quantidade. No segundo método determina-se um tempo e realiza-se uma busca intensiva em área delimitada. Identificou-se que estes ambientes recifais costeiros da Baía de Todos-os-Santos encontram-se contaminados por resíduos sólidos, em maior ou menor grau de impacto, sendo o Porto da Barra o local mais afetado. Este resultado pode, possivelmente, ser extrapolado para outros ambientes recifais urbanos, evidenciando a situação destes ecossistemas.

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Figura 2. Uma Bahia não tão linda debaixo d’água. Resíduos sólidos submersos encontrados nos costões rochosos da Barra/Fotos: G. F. Carvalho-Souza

O lixo marinho amostrado está intimamente associado ao descarte intencional, aos resíduos da pesca e às perdas acidentais, todos com origem local, e evidenciam um completo descuido por parte da população que freqüenta, trabalha e habita estas localidades. Além disto, verificou-se constantemente a presença de materiais advindos de festejos populares e culturais como o Carnaval, festa de Yemanjá, festividades de final de ano e de verão, que contribuem com uma série de resíduos como cestas, abadás, frascos de perfume, espelho e afins. Alternativas mais ecológicas para estes itens se fazem necessárias, e são eminentes trabalhos específicos que proporcionem uma integração da cultura aliada à conservação do ambiente como um todo. Em relação à fauna marinha, foram observados diversos casos de associações negativas de organismos com os resíduos sólidos, sendo registradas interaҫões inéditas entre resíduos sólidos bentônicos e organismos recifais (Figura 3).

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Figura 3: Organismos recifais e os resíduos sólidos submersos / Fotos: G. F. Carvalho-Souza

Estes estudos demonstram que o lixo marinho está causando efeitos deletérios diretamente ao ambiente, a biota, paisagem submarina, as atividades recreativas, o comércio e com isso podendo acarretar a perdas ecossocioculturais e econômicas para o estado. Os resultados deste trabalho foram apresentados em meu trabalho de conclusão de curso na Universidade Católica do Salvador (UCSal) e estão em processo de veiculação a comunidade científica, órgãos públicos e sociedade como um todo.

Assim o conjunto de informações aqui expostas e que vem sendo divulgado nos meios de comunicação servem como base pretérita acerca desta problemática e a futuros planos de gerenciamento e manejo destas zonas costeiras de importância biogeomorfológica, turística, histórica e econômica. No entanto, estas medidas somente obterão êxito com a integração dos diferentes atores direta ou indiretamente responsáveis (poder público e privado, frequentadores, banhistas, barraqueiros e trabalhadores em geral, esportistas, pesquisadores e afins) como também os interessados na conservação.

Por fim deixamos uma mensagem para a geração atual a refletir sobre quais seres humanos ou filhos deixaremos para o mundo: Afinal, até quando os mares e oceanos serão a lixeira do mundo?

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