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22 de Outubro de 2009

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Pellets plásticos e as praias

Na coluna sobre Lixo Marinho de outubro, conversei com o dr. Alexander Turra e sua aluna de mestrado Aruanã Manzano, que vem desenvolvendo estudos sobre a presença de pellets plásticos nas praia do litoral de São Paulo. Conheça alguns dos resultados destes estudos e as soluções propostas para este problema.
Juliana Ivar do Sul*


Dentre as inúmeras causas de problemas ambientais nos oceanos está a grande quantidade de resíduos gerados pela atividade humana, como os resíduos sólidos. Uma das preocupações está relacionada com a quantidade e tipos destes resíduos nas praias e oceanos, problema que ganhou ampla preocupação pública nas últimas décadas.

Outra preocupação diz respeito aos impactos econômicos, estéticos e ecológicos gerados por eles. Esses materiais podem ter origem tanto terrestre, através de descartes em locais impróprios por turistas e de sistemas de drenagem de rios e águas pluviais, quanto marinha, por despejos diretos nos oceanos e mares principalmente por embarcações e atividades portuárias.

Um dos itens de particular preocupação são os plásticos, com diversos registros demonstrando sua dominância dentre os resíduos sólidos presentes nos ambientes marinho e costeiro. Em função de suas características físicas e químicas, seu uso tem crescido no mundo todo e, com ele, o descarte da matéria-prima (pellets) e dos produtos industrializados para o ambiente, incluindo o ambiente marinho.

Os “plastic pellets” são grânulos de plásticos que correspondem à forma principal com que as resinas plásticas são produzidas e comercializadas e estão entre os resíduos mais abundantes em praias no mundo. Os pellets podem ser produzidos de várias formas (esféricas, ovóides e cilíndricas), tamanhos (de 1 a 5mm) e cores (geralmente claras, brancas ou transparentes), dependendo de sua composição química e de seu propósito final. Eles são pequenos e geralmente imperceptíveis na areia da praia, mas podem causar sérios danos à fauna marinha, como contaminação química. De fato, os pellets concentram compostos químicos como DDTs (DicloroDifenilTricloroetano) e PCBs (Bifenis policlorados) que podem causar disfunções fisiológicas ou alterações hormonais nos animais que os ingerem.

fonte: laborat�io de manejo, ecologia e conserva��o marinha
Pellets plásticos / Fonte: Laboratório de Manejo, Ecologia e Conservação Marinha

Mas quantos pellets estão hoje presentes nas praias? Essa pergunta está longe de uma resposta, principalmente pela escassez de estudos, pela falta de padronização do método de coleta dos pellets e pelo fato das amostras serem coletadas na superfície do sedimento (até 5cm de profundidade). Dados recentemente levantados nas praias da Enseada de Santos (SP) revelaram que os pellets se distribuem ao longo da coluna de sedimento até 2 metros de profundidade. Isso indica, caso essa situação possa ser extrapolada para outras áreas, que os cálculos existentes sub-estimam enormemente a quantidade presente nas praias. Com base nesses dados, estimou-se uma quantidade de cerca de 2,4 bilhões de pellets para os 7,5 km de praia da Enseada de Santos.

Mas de onde vem esses pellets? Segundo dados da literatura, os pellets podem ser perdidos, nas atividades de produção, transporte e uso, para o ambiente estuarino/marinho ou para os sistemas de drenagem urbana e, na sequência, para os rios, os quais acabam desaguando no mar. Na Baixada Santista, não há indústrias de transformação, que utilizam os pellets para confecção de produtos plásticos, de forma que restam duas possibilidades: a região portuária e três indústrias produtoras desses materiais que se localizam na região estuarina. Dados de modelagem de dispersão dos pellets confirmam que a principal fonte é a região estuarina, mas que grânulos liberados ao largo da enseada também podem chegar às praias. De fato, depoimentos coletados durante o trabalho indicam que essas partículas também são utilizados para lavagem de porões e tanques de navios, sendo depois descartadas em mar aberto.

fonte: laborat�io de manejo, ecologia e conserva��o marinha
Pellets plásticos na Enseada de Santos, SP / Fonte: Laboratório de Manejo, Ecologia e Conservação Marinha

E como resolver esse problema?

Para tanto, três medidas podem ser propostas:

1. Realizar estudos em campo para dimensionar e monitorar adequadamente esse problema em outras localidades, considerando uma maior abrangência geográfica;

2. Conduzir um processo transparente e participativo envolvendo os diferentes atores relacionados a essa questão (órgãos governamentais, setor produtivo, sociedade em geral e pesquisadores) para o estabelecimento de medidas concretas para a redução das perdas para o ambiente. Para tanto são necessários um programa de longo prazo de monitoramento de emissões, o estabelecimento e aplicação de instrumentos legais e políticas de incentivo e o desenvolvimento de melhorias tecnológicas para realização de operações rotineiras pelas empresas como práticas de gestão de qualidade e de meio ambiente e sistemas de contenção de efluentes. Há três experiências concretas nesse sentido e que poderiam ser adaptadas e aplicado no Brasil.

O Conselho Americano de Plásticos, em parceria com a Sociedade das Indústrias Plásticas americana, está promovendo um programa visando a ‘perda zero’ de pellets pelas indústrias de produção e processamento de resinas na Califórnia, através da revisão do manual Operation Clean Sweep (OCS) e desenvolvimento de materiais de treinamento para os empregados. Essas organizações estão educando os produtores, processadores, transportadores e embaladores de resinas sobre os possíveis impactos que o manuseio inadequado desse material pode acarretar no ambiente marinho e informando sobre as BPMs (Best Managment Practices) para se alcançar ‘perda zero’ de pellets.

A CFECA (California Film Extruders and Converters Association) lançou um programa de certificação, o EPR (Environmentally Preferred Rating), que consiste em um programa independente de auditoria para verificar, com respeito à contaminação por pellets, se as indústrias plásticas estão adotando o manual OCS e se estão de acordo com as melhores práticas de manejo.

Na Escócia, o grupo de avaliação da qualidade dos efluentes industriais liberados na água, juntamente com a Agência de Proteção Ambiental escocesa, estão trabalhando com as indústrias plásticas para a tomada de medidas na redução da perda de pellets ao ambiente, como a instalação de interceptores que previnam o despejo das partículas no sistema de drenagem e ainda a inspeção regular de veículos que os transportam.

3. Promover uma significativa mudança nas formas de produção e consumo de materiais considerando novas tecnologias (materiais biodegradáveis e/ou não mais baseados em combustíveis fósseis) e a efetiva e generalizada reciclagem de produtos. Essa mudança passa necessariamente por uma mudança de paradigma considerando de fato os princípios do desenvolvimento sustentável e é dependente de um processo lento, porém estruturante, de educação formal e informal no nosso país.
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