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21 de Janeiro de 2010

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Tudo é uma questão de percepção

Na primeira coluna sobre Lixo Marinho de 2010, conversei com a oceanógrafa Ângela Spengler, que vem desenvolvendo estudos sobre lixo marinho submerso em praias do litoral de Pernambuco. O problema pode ser imperceptível para a maioria das pessoas, mas é preciso disseminar este conhecimento, modificando a atitude de cada um.

Juliana Ivar do Sul*


É preciso conhecer para perceber, afinal só observamos aquilo que nos é familiar. Basta alguém quebrar um braço para perceber o grande número de pessoas com o braço engessado nas ruas. Não houve um “surto” de braços quebrados, mas sim uma mudança de percepção ao problema. E é essa mudança que vem acontecendo com o lixo marinho nas últimas décadas.

Os primeiros estudos sobre lixo marinho são da década de 1970, mas foi a partir da década de 1990 que o tema ganhou maior relevância nas publicações científicas. Mas o que provocou essa mudança? O aumento de lixo gerado pelas pessoas? A grande utilização de produtos plásticos que tornaram o lixo marinho mais resistente à degradação? O aumento do número de usuários de praias? Ou uma mudança de consciência ambiental? Talvez a melhor resposta seja “todas as alternativas anteriores”.

Com certeza hoje geramos muito mais resíduos que há algumas décadas atrás, e infelizmente a maior parte ainda não possui um destino final adequado. Resíduos descartados de forma errada mesmo em cidades distantes do litoral podem impactar as praias e os oceanos ao serem carreados pelos rios. Resíduos plásticos são mais facilmente transportados pelos rios por serem resistentes e permanecerem mais tempo na coluna de água. Além disso, duram mais tempo no ambiente, fazendo com que aumente a possibilidade de serem observados antes de degradarem.

O aumento da população mundial também fez com que houvesse mais pessoas indo à praia. Logo, além de haver maior possibilidade de geração de lixo in loco, também aumentou o número de observadores de lixo. As pessoas que antes podiam desviar do lixo na praia, agora passaram a conviver mais diretamente com esse problema, devido ao menor espaço disponível na areia.

A percepção das pessoas frente ao lixo marinho foi aumentando, e passou a haver um consequente aumento de conscientização ambiental. Os relatos dos problemas gerados pelo lixo marinho cresceram, não só aqueles que afetam os animais marinhos, mas também os que causam problemas para as pessoas. Assim, ficou claro que o problema do lixo marinho deveria ganhar maior atenção.
Mas ainda existe um lugar onde o lixo pode passar despercebido, embora presente em grande quantidade: o fundo do mar. Por estar fora do alcance da visão da maioria das pessoas, o problema do lixo marinho submerso é ignorado. E mesmo para pessoas que costumam observar o ambiente marinho submerso, alguns resíduos podem passar despercebidos (Figuras 1 e 2).

foto: monica costa (ufpe)
Figura 1: Garrafa de vidro submersa na Praia de Boa Viagem, Recife-PE / Foto: Monica Costa (UFPE)


foto: david armstrong/marine photobank
Figura 2: Fragmento plástico mimetizado ao ambiente marinho / Foto: David Armstrong/Marine Photobank

Um exemplo disso ocorreu em Fernando de Noronha. O arquipélago é um dos principais destinos de mergulho do Brasil e atrai um grande número de mergulhadores daqui e de outros países. Quem mergulha lá está a procura de peixes coloridos, corais saudáveis e, sendo um lugar preservado, sem lixo marinho, pelo menos em teoria. No entanto, isso depende também de como a pessoa observa o meio, e do que ela considera como lixo.

Telhas, tijolos antigos, da época da II Guerra Mundial, cobertos (mesmo que parcialmente) foram observados em um ponto de mergulho de Fernando de Noronha durante um trabalho sobre lixo marinho submerso. Instrutores de mergulho foram questionados sobre esse antigo material, mas, mesmo depois de vários mergulhos na área, muitos nem haviam percebido os resíduos já cobertos por corais e algas. Esse material pode ser considerado como parte integrante do meio, ou pode ser qualificado como lixo, afinal não é natural.

O problema do lixo marinho é real e está presente mesmo nos lugares mais remotos, mesmo que em pouca quantidade. Se considerarmos a pequena parcela da população mundial que mergulha ou realiza trabalhos no fundo do mar, imagine a quantidade de lixo que seria necessário para formar montanhas de 4 km de altura (profundidade média dos oceanos) para que o problema se tornasse visível para todos! O problema não deixa de existir apenas porque não o vemos. Mas é preciso disseminar o conhecimento e modificar percepções.

Os oceanos não são infinitos, muito menos é a sua capacidade de esconder os nossos rejeitos.

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