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Empreendedorismo Sustentável

O empreendedor

Sempre que alguém fala sobre empreendedorismo, a imagem na cabeça de muitos é de pessoas que criam suas próprias empresas. Embora o conceito possa acomodar parcialmente essa imagem, prefiro trabalhar com um significado diferente. Para mim, empreendedorismo nada mais é do que a força do fazer acontecer. O empreendedor seria, nessa concepção, a pessoa capaz de gerar resultados efetivos em qualquer área da atividade humana.

  • Nessa definição, muitas donas de casa são empreendedoras: não obstante grandes desafios e muitas dificuldades, fazem tudo funcionar e a família evolui. Há porém donas de casa incapazes de fazer acontecer. E os resultados obviamente são ruins;
  • Há funcionários empreendedores. E outros que não são. Há até chefes e executivos empreendedores e outros não. Isso tanto nas empresas como em governos e até nas organizações da sociedade civil;
  • Há cidadãos empreendedores. Outros, não;
  • Há crianças e jovens que fazem acontecer nos estudos e até nos esportes e nas brincadeiras. E há também os que não conseguem;
  • Há ainda as pessoas idosas que até os últimos dias fazem acontecer. Outras, não;

É interessante contrastar a figura do empreendedor com uma outra – muito comum em nossa sociedade: a das pessoas que falam muito, criticam, têm idéias, boas até, mas param por aí. Sequer parecem preocupadas com a efetiva implantação das idéias que têm ou com a solução do que criticam. Às vezes até têm essa preocupação, mas parecem considerar que esse é um detalhe que cabe a outros cuidar. Como se fosse algo de “outro departamento”.

Por outro lado, há empreendedores que fazem acontecer. Com grande força. Mas fazem sem pensar. Sem pensar se há outras coisas mais essenciais a fazer. Coisas que talvez sejam mais úteis à sociedade e às futuras gerações. São pessoas que, se pensassem melhor sobre como o todo funciona, não fariam o que fazem. Estariam contribuindo de forma diferente. Talvez até de forma muito diferente.

Há ainda empreendedores de grande talento que não só trabalham em atividades pouco relevantes à sociedade mas até prejudiciais a ela. São os que usam suas competências, por exemplo, em ramos altamente poluentes ou fabricando produtos que afetam a saúde das pessoas etc. O extremo desse espectro está nas pessoas que atuam em ramos sérios, mas de forma não-ética ou que até vêem no crime um “negócio” altamente lucrativo.

Sustentabilidade

A sustentabilidade, por seu lado, tem na sua base um jeito de viver capaz de assegurar continuidade da vida para todos. Sustentabilidade pressupõe solidariedade, uma forte consciência do coletivo e ética em seu sentido mais elevado: a busca do bem comum.

Sustentabilidade significa – em essência – um jeito de viver em seu todo que permite as melhores condições de vida para todos (sem exceção, sem qualquer tipo de exclusão) a cada momento.

Sustentabilidade significa vida equilibrada hoje. Um modo de viver saudável em que ninguém viva às expensas da vida de outros (sem situações em que alguns têm, por exemplo, excesso de comida e outros nada têm). Para os que nada têm, a vida não é sustentável.

Sustentabilidade significa também um modo de vida no todo da sociedade que leve em conta as futuras gerações.

De um lado, um modo de vida, que já não seja sustentável no curto prazo, só leva à deterioração a longo prazo (a não ser que seja algo estratégico, muito bem planejado, que exija sacrifícios hoje para colheita de benefícios para todos amanhã – algo dificílimo de ser feito, porque os que têm muito hoje resistirão em abrir mão de suas vantagens quando chegar a hora da colheita, no futuro).

Por outro lado, mesmo que o modo de vida seja equilibrado hoje (o que não é o caso, obviamente) pode-se estar “sacando contra o futuro” para assegurar esse equilíbrio no curto prazo. E não teríamos sustentabilidade a longo prazo…

O que significa então “empreendedorismo sustentável”?

De forma muito simples, significa um fazer acontecer que leve em conta o todo a curto, médio e longo prazos. Por um ângulo, a expressão se contrapõe ao conceito de “empreendedorismo egoísta”, dos que buscam vantagens só para si e muitas vezes a qualquer custo. De outro, a expressão se contrapõe ao conceito de “empreendedorismo não-consciente”, aquele que produz um modo de vida não-sustentável, um jeito de viver destrutivo que gera desequilíbrios de toda natureza.

Neste ponto da reflexão, a questão-chave parece óbvia: de que forma o empreendedorismo sustentável pode ajudar a desenvolver o Brasil? Até que ponto esse conceito é algo fundamental à “gestão estratégica” de nosso país e das comunidades que o compõem?

O que mais precisamos em nosso país é da força do fazer acontecer. Mas de um fazer acontecer consciente. Para isso, primeiro precisamos transmutar a energia desperdiçada (em críticas/análises/diagnósticos, em atividades meio que burocratizam tudo ao nosso redor, em processos para burlar as leis e buscar vantagens para poucos) em energia que leve à sustentabilidade e ao bem comum. Em segundo lugar, precisamos focar toda essa energia nas coisas “certas”.

Em que aplicar essa força empreendedora?

Apenas parar de usar a força do fazer acontecer em atividades não-éticas e em atividades predatórias já seria um grande progresso. Mas é preciso muito mais do que isso. É preciso assegurar que a força empreendedora da sociedade seja muito bem utilizada em prol do bem comum.

Mas como os empreendedores que estão a fim de trabalhar para si e para o todo deveriam atuar?

Em essência. toda a força empreendedora deveria ser aplicada para atender às necessidades da sociedade. A melhor imagem aqui é a de todas as pessoas da sociedade estarem aplicando sua força de fazer acontecer para ajudar a atender o conjunto de necessidades que existem na própria sociedade. E já vimos que a força do fazer acontecer está presente em todos, da dona de casa ao trabalhador, aos funcionários e executivos de empresas, dos governos e da sociedade civil.

Atender necessidades sociais? Não. Não somente. Necessidades num sentido amplo. No sentido de todas as necessidades. Daí a expressão “necessidades da sociedade”.

Ao pensarmos sobre as necessidades totais da sociedade (que são muitas) imediatamente deparamos com um enorme paradoxo. É o paradoxo de termos de um lado muitas necessidades e de outro desemprego (ou seja, pessoas sem o que fazer). A existência desse paradoxo é também um atestado de ineficácia em gestão. Ineficácia de quem? De um lado, dos governos; de outro, dos empresários que não criam empresas voltadas ao atendimento das necessidades existentes (e preferem até trabalhar com o supérfluo em mercados altamente congestionados). De outro, ainda, de todas as pessoas que têm competência em fazer acontecer e decidem não usá-la para o atendimento das necessidades da sociedade (por achar que são de responsabilidade do governo, de outras empresas e instituições, enfim, “dos outros”).

Mas como, então, eliminar esse paradoxo? O fundamental para eliminá-lo é colocar uma megaequação para a sociedade como um todo:

"Como assegurar processos criativos de gestão altamente integrativa (capaz de incluir todos os membros da sociedade, sem qualquer tipo de exclusão) que façam com que todas as necessidades da sociedade sejam atendidas de forma altamente eficaz, contando com o trabalho de todos os seus membros (ou seja, todos ajudando a atender às necessidades, portanto, com zero de ‘desemprego’)?"

Na medida em que a sociedade como um todo, em conjunto, buscar resolver essa equação de forma inovadora/criativa estaremos dando verdadeiros saltos de patamar em todos os campos (no social, no econômico etc.)

Gestão eficaz da sociedade, portanto, significa a criação de um contexto em que todos na sociedade estão sendo úteis para garantir o básico para todos na sociedade, ou seja, que todas as necessidades estejam sendo atendidas, o tempo todo, de forma sustentável.

E como resolver essa megaequação?

Primeiro, ousar colocar essa equação na mesa para que a sociedade como um todo possa usar sua capacidade criativa na busca de soluções pragmáticas, inovadoras, de forma natural, contínua, sustentável. Isso traria foco ao processo como um todo.

Segundo, fazer – com a participação da sociedade – um “mapeamento” completo das necessidades da sociedade (das meganecessidades às menores).

Terceiro, criar um tipo de “câmara de compensação” em que, coletivamente (e criativamente), busca-se fazer com que a cada conjunto de necessidades haja uma adequada alocação de energia humana. A premissa aqui é que, se fizermos um bom trabalho nesta câmara de compensação, não teremos ninguém parado (zero de desemprego, zero de empreendedores/empresas fazendo coisas inúteis, ou seja, não- vinculadas às necessidades que queremos atender) e a sociedade como um todo estará evoluindo de forma saudável em todos os setores e em todas as áreas. E assim por diante.

Essa é a idéia central de um tipo de gestão – pública e privada – muito diferente do que vemos nas sociedades em geral.

No próximo artigo, estarei refletindo sobre duas outras questões relacionadas à essência desse novo tipo de gestão em relação àquele – já há muito superado – que ainda prevalece hoje: 1) as causas prováveis das distorções do sistema de gestão em uso hoje; 2) os novos papéis que as várias instituições da sociedade – governo, empresas, sociedade civil – deverão ter nesse novo tipo de democracia participativa que precisamos urgentemente implantar em nosso país.

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