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Bill "exemplar" Gates

Bill Gates acaba de dar ao mundo mais um grande exemplo na direção dos chamados "negócios responsáveis". Segundo matéria publicada nesta semana, na Bloomberg News, a multibilionária Fundação Bill e Melinda Gates, criada por Bill Gates e sua esposa Melinda, encerrou sua participação acionária de US$ 1 bilhão no McDonald’s, além de outras carteiras de centenas de milhões na Coca-Cola e na Exxon.

A justificativa para o abandono? A Fundação Gates anunciou que prefere investir em empresas cujos objetivos vão além do lucro. A filosofia da entidade será centrada em empresas com valores que orientam o seu trabalho. "O objetivo da fundação é ajudar a todas as pessoas, não importa onde eles vivam, para que tenham a chance de viver uma vida saudável e produtiva”, argumenta o casal de filantropos. 

A decisão de deixar as ações do McDonald’s veio após várias notícias nos últimos meses sobre as pressões contra o teor calórico das refeições da empresa e também as disputas com trabalhadores envolvendo questões salariais. Vale lembrar que, com resultados em queda, a rede de fast food trocou o presidente em dezembro do ano passado.

Por sua vez, a Coca-Cola já luta há algum tempo com as tendências negativas, dadas as preocupações dos consumidores sobre as bebidas açucaradas, o que tem levado muitos a buscar bebidas saudáveis.

Em vez de concentrar os investimentos de sua fundação em empresas cujos produtos oferecem uma gama de malefícios à sociedade, Bill Gates dá um recado importante ao mundo: há outros valores em jogo.

Outra multinacional a sofrer um duro golpe, recentemente, foi a Exxon Mobil, que foi abandonada pelo megainvestidor Warren Buffett, do fundo Berkshire Hathaway - ele vendeu a participação que possuía em meio à queda dos preços do petróleo.

O que tudo isso implica? Que uma nova ordem mundial ganha cada vez mais força: a dos negócios sociais, capazes de direcionar investimentos a projetos que acrescentem qualidade de vida ao maior número possível de pessoas, ao meio ambiente e que, sobretudo, não almejem apenas o lucro.

Os negócios sociais não são mais nenhuma novidade. É verdade. Nos últimos anos, organizações como a NESsT, Artemísia e Yunus (apenas para citar alguns exemplos) trabalham pelo desenvolvimento capazes de aliar impacto social com geração de lucro. São dignas de aplausos. O que dizer, então, quando o exemplo parte de um dos homens mais poderosos do mundo?

Em vez de concentrar os investimentos de sua Fundação em empresas cujos produtos oferecem uma gama de malefícios à sociedade, Bill Gates dá um recado importante ao mundo: há outros valores em jogo. Vamos a alguns exemplos já demonstrados pelo próprio filantropo. Há cerca de dois anos, o fundador da Microsoft passava a apoiar a Hampton Creek Foods, startup que produz "ovos" à base de plantas de maionese saudável. 

O ovo de origem vegetal custa 18% menos que os convencionais e elimina a necessidade de crescimento de alimentação ou o tratamento de resíduos associada a exploração de animais. A empresa inovadora, que conta com recursos da Fundação Bill e Melinda Gates, trabalha com dois cientistas de São Francisco para desenvolver suas pesquisas, e está sediada no Vale do Silício. Seus produtos fazem um verdadeiro sucesso nos mercados Whole Foods - até porque o número de consumidores conscientes cresce cada vez mais.

Estão no tempo certo, porém, foram capazes de vislumbrar o que outros tantos não percebem ou carecem de ousadia e coragem para compreender.

Se voltarmos um pouco mais no tempo, veremos que lá nos idos de 2011 a Fundação já apoiava pesquisas em prol de vasos sanitários mais sustentáveis, por meio de um grupo de cientistas e engenheiros da Universidade de Tecnologia de Delft, na Holanda. A invenção procurava dispensar a utilização de água, energia e esgoto para o seu funcionamento.

Já em janeiro de 2015, Bill Gates e sua Fundação chamavam a atenção do mundo para o colapso hídrico que assola diversas partes do globo, ao servir de cobaia para uma máquina que transforma dejetos humanos em água potável. O Janicki Bioenergy Omniprocessor é capaz de criar 86 mil litros de água por dia, e 250 kw de eletricidade, a partir de dejetos de 100 mil pessoas - e será levado para Dakar, no Senegal, para um projeto piloto que oferecerá o recurso para a população local.

Investidores que adotam negócios sustentáveis na hora de direcionar os recursos, de acordo com o que preconizam, por exemplo, os Princípios para o Investimento Responsável (PRI) da Organização das Nações Unidas (ONU), ainda são minoria, é verdade. Talvez porque estejam à frente de seu próprio tempo. Quero dizer: estão no tempo certo, porém, foram capazes de vislumbrar o que outros tantos não percebem ou carecem de ousadia e coragem para compreender.

Murilo Gitel é jornalista especializado em sustentabilidade, diretor de Conteúdo do portal EcoDesenvolvimento (EcoD) e conselheiro suplente do Conselho de Responsabilidade Social da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Cores/Fieb).

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