À medida em que a escassez de água ameaça mergulhar o mundo em um período de tensão geopolítica, a comunidade internacional precisa se preparar para a nova era da "hidro-diplomacia". Essa nova expressão, que tende a se popularizar muito em breve por conta do colapso hídrico que assola boa parte do planeta, foi cunhada recentemente pelo vice-secretário-geral das Nações Unidas, Jan Eliasson, durante evento na Assembleia Geral da ONU, em Nova York.
Tamanha preocupação faz todo o sentido, uma vez que 783 milhões de pessoas no mundo não têm acesso à água potável e quase 2,5 bilhões não têm acesso a saneamento básico, segundo dados da própria ONU. A difícil situação da água que o mundo enfrenta foi recentemente exemplificada pelo Relatório das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento de Água 2015: “Água para um mundo sustentável”, divulgado pela Unesco.
De acordo com o relatório, o planeta vai sofrer um déficit de 40% no abastecimento de água até 2030 se a comunidade internacional não melhorar radicalmente seu gerenciamento. Espera-se um aumento por volta de 55% até 2050 – e 20% das fontes mundiais de água subterrânea já estão sendo superexploradas.
É aí que entra a hidro-diplomacia defendida por Eliasson. Por meio dela, a escassez de água passa a ser uma razão para a cooperação internacional, ao invés de uma razão para o conflito. Vale lembrar que o período 2005-2015 foi justamente nomeado pelas Nações Unidas como a "Década de Ação em Prol da Água".
A água é a base fundamental da vida, cuja importância não pode ser subestimada. Ela é um denominador comum dos principais desafios globais do nosso tempo: energia, alimentos, saúde, segurança e paz. Pode até soar apocalíptico demais, mas quem hoje julgaria loucura a possibilidade de uma guerra mundial vir a ser causada por uma disputa a fontes de água doce?
Conflitos pelo acesso ao recurso já são registrados, há tempos, em regiões do Oriente Médio, da África e Ásia. Não é preciso ir tão longe. Aqui no Brasil, só em 2014 foram registrados 172, com 42,8 mil famílias envolvidas – um recorde, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), braço agrário da Igreja Católica que se debruça sobre este tema desde 2002, com foco nas áreas rurais do País.
Mas o problema também ganha corpo nas áreas urbanas, como a Grande São Paulo, onde a queda do nível dos reservatórios de água deixa há meses milhares de pessoas com as torneiras secas. No município de Itu, o longo período de falta de água resultou na depredação da Câmara Municipal e no bloqueio de rodovias.
Outra prova do que a escassez prolongada de água é capaz de produzir vem de Salvador, onde nesta semana uma adutora da Embasa, concessionária responsável pelo abastecimento do recurso no estado da Bahia, foi danificada pelas obras do metrô. Resultado: cerca de 60% da população da capital baiana ficou com as torneiras vazias em pleno feriado da Semana Santa. Como consequência, muitas pessoas chegaram ao extremo de invadir postos de saúde e até igrejas em busca do precioso líquido para suprir suas necessidades básicas. No bairro do Uruguai, na Cidade Baixa, o galão chegava a ser vendido por R$ 26.
No que diz respeito a assegurar a hidro-diplomacia e, ao mesmo tempo, evitar os conflitos pela água, a ONU destaca os seguintes pontos:
Apesar de o nome "hidro-diplomacia" sugerir algo complexo, tal cooperação pode ser dada desde o indivíduo que aprende a lidar com a água, reavaliando seus hábitos de consumo domésticos até o entendimento entre países e setores da economia que demandam grande quantidade do recurso, tais como agricultura, pecuária e industria.
Incontestável é o fato de que a água é uma das maiores prioridades para o desenvolvimento e para uma vida digna, assim como um fator determinante para manter a paz e a segurança.
Portanto, menos conflitos. E mais hidro-diplomacia.
Murilo Gitel é jornalista especializado em sustentabilidade e diretor de Conteúdo do portal EcoDesenvolvimento (EcoD).
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