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Responsabilidade Social

16 de Maio de 2010

 

Sustentabilidade sem fronteiras: o trabalho de Catarina Ponte

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Catarina em visita à Lagoa do Abaeté, Salvador (BA)/Foto: arquivo pessoal 

Catarina Ponte faz da sustentabilidade o seu ganha pão. Desde criança acostumou-se a olhar a natureza como uma amiga e quando cresceu, não teve dúvidas, tinha que fazer do seu trabalho uma ação cotidiana de cuidado com o planeta. Há dois meses, Catarina abriu uma empresa que vende produtos sustentáveis brasileiros e portugueses nos Estados Unidos e vem afirmando o modo de vida mais "verde" entre os americanos.

Inspire-se com a história de vida e as ideias dessa canadense de sangue português, apaixonada pelo Brasil, que espalha sustentabildade por Nova York.

EcoD: De que forma a Ecostasy contribui com a sustentabilidade?
Catarina Ponte: A nossa missão é criar uma plataforma que permita compartilhar a nossa visão de sustentabilidade – um ponto de encontro para ações individuais e coletivas, colaboração local e global, tradição e inovação, consumo e contribuição, ou seja “comércio consciente”. Um dos principais objetivos é oferecer aos consumidores norte-americanos objetos de design sustentáveis, fabricados com preocupação pela qualidade dos objetos, preservação ambiental, e manutenção das tradições culturais. A sustentabilidade da nossa atividade é multi-facetada. Manifesta-se tanto na escolha dos produtos como no impacto da sua venda nos produtores e meio ambiente para além de contribuir para informar o público.

Você enfrentou algum problema para levar a cultura brasileira para os Estados Unidos?
Meu grande desejo de oferecer uma coleção de trabalhos que demonstre a rica diversidade do Brasil criou um desafio maior. Foi impossível achar uma empresa de logística ou uma de trading disposta a executar a exportação em virtude da variedade e localização dos meus produtores. Muitos me aconselharam a esquecer o norte do país. Fiquei extremamente frustrada, mas não abri mão da minha visão e acabei abrindo uma empresa no Brasil e aprendi a gerenciar a logística necessária. Isso gerou um investimento maior que me obrigou a economizar em outras áreas: não visitei todos os lugares que queria, comprei menos produtos, e do início até agora tenho apenas uma funcionária, eu mesma. Entretanto, os caminhos para a sustentabilidade muitas vezes exigem sacrifícios e nem sempre são aqueles mais convenientes e muitas vezes o retorno do investimento é mais em longo prazo.

O que move essa sua vontade de vender sustentabilidade?
Queria deixar claro para quem visita o meu site de e-commerce que comprar um dos nossos produtos vai muito além do que comprar um objeto qualquer. O nosso cliente está apoiando o meio ambiente, os artesãos que sempre viveram em harmonia com a natureza, e os designers inovadores que através das suas peças promovem a natureza e contribuem para a preservação das tradições culturais.  Grande parte da minha missão é divulgar informação. Independentemente das minhas vendas, se conseguir fazer isso eu já fico feliz.

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Trabalho do Grupo TucumArte da aldeida Urucurea, Pará/Foto: João Ramid

A ideia de valorizar a cultura regional surgiu quando você ainda morava no Brasil?
Foi onde a minha ideia floresceu. Entretanto, as sementes dessa ideia foram semeadas na minha juventude. Eu nasci e fui criada em Toronto, Canadá. Os meus pais nascerem e foram criados na ilha de São Miguel, Açores, Portugal – um paraíso natural - e emigraram para o Canadá. O meu pai tinha 25 anos e minha mãe tinha 18. Ambos, especialmente o meu pai, sempre tiveram muitas saudades de São Miguel. Quando eu era jovem passava muitas férias lá, aonde a maioria da minha família continua a morar. Os michalenses, nativos de São Miguel, como todos os Açorianos, são muito influenciados pela natureza e têm ricas tradições que continuam quase intocadas devido, em parte à insularidade, mas também ao respeito pela tradição como forma de preservação de memórias e raízes.

Os meus pais sempre tiveram muito orgulho da sua terra, e o transmitiram para mim. Visitamos lugares intocados aonde os únicos sons eram a voz do meu pai e os sons da natureza. Em São Miguel, e um pouco por todo Portugal, existe uma grande tradição de artesanato lindíssimo, normalmente feito para membros da família e passado de geração para geração.

Muitas vezes pensamos em artesanato como algo do passado, porém eu vejo muito ligado a assuntos contemporâneos de sustentabilidade. O artesanato feito conforme a tradição e de alta qualidade é feito para durar por um longo prazo, e é algo que queremos passar para gerações futuras. Os artesãos têm muito a nos ensinar sobre como viver uma vida mais sustentável pelos seus próprios exemplos.

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Trabalho do Grupo TucumArte da aldeida Urucurea, Pará/Foto: João Ramid

Como foi o trabalho de escolha dos produtores no Brasil?
A seleção dos produtores requer um trabalho de investigação aprofundado. Procurei identificar o maior número de artesãos/cooperativas/designers possíveis de forma a selecionar aqueles que trabalham de uma forma sustentável e produzem trabalhos de importância cultural. Visitei muitos fornecedores e obtive o maior número de informações possíveis sobre os trabalhos desenvolvidos e as matérias-primas utilizadas para entender o processo e me certificar que os mesmos estavam sendo bem manejados. A minha pesquisa incluiu pedido de documentação de origem em alguns casos, especialmente nos produtos de madeira.

A nossa primeira coleção tem mais de 50 fornecedores de 19 estados brasileiros e o Distrito Federal, com concentrações no Norte e Sudeste. Achamos importante incluir trabalhos tradicionais e contemporâneos para mostrar a grande variedade. O perfil de fornecedor também reflete grande diversidade no Brasil. Temos artesãos individuais, cooperativas e ONGs, comunidades indígenas e designers renomados.

A nossa coleção pode ser vista no nosso site.  

E  qual a opinião dos seus clientes?
Em geral, no início, muitos clientes têm uma visão um pouco limitada. É muito difícil achar produtos feitos no Brasil aqui nos EUA. Muitos dos produtos sustentáveis que eu ofereço nunca foram exportados, então é o primeiro contato.

Ao ver os produtos sustentáveis, os meus clientes norte-americanos ficam surpreendidos com a diversidade das matérias-primas brasileiras, como o açaí, fibras alternativas e materiais reciclados. Em particular, acho que ficam impressionados com o nível de reciclagem que existe e a adaptação de técnicas tradicionais como tecelagem para inovar materiais e compor produtos de alta qualidade e design.

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Povo indígena Kaxinawa, Acre/Foto: arquivo pessoal

Como você avalia o consumo sustentável em Nova York?
Eu vivo em Nova York há 10 anos. Na média, os nova iorquinos são muito mais críticos que a população geral nos EUA. Esse espírito crítico é necessário, inclusive quanto à necessidade de comprar. Os norte-americanos são os maiores consumidores do mundo e isso resulta em muito desperdício. Sinceramente, eu acho que as pessoas deveriam comprar bem menos. O escritor mais importante da literatura sobre a natureza nos EUA, o Henry David Thoreau, observou, há mais de 100 anos: "O nosso dia a dia é desperdiçado com detalhes. Simplificar, simplificar, simplificar!". Espero que os norte americanos comprem menos coisas de qualidade inferior e mais coisas de melhor qualidade com menos frequência.

Ao comprar, precisamos de tomar cuidado com a forma como os produtos foram descritos. Temos aqui muito “greenwashing” na área de produtos sustentáveis. Muitas vezes produtos são caracterizados como sendo "green" (“verdes”) só para aproveitar o aumento do interesse pelos assuntos ambientais. Além dos materiais empregues na fabricação, é importante considerar o processo de produção, a vida útil do produto, sua durabilidade.

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Catarina Ponte e Davi Yanomami em Nova Iorque/Foto: arquivo pessoal

E você e sua família? Quando compram alguma coisa, vocês procuram produtos menos poluentes, de produção orgânica ou regional?
Em termos gerais, procuramos ser o mais ambientalmente responsável quanto possível. Vivemos em um apartamento confortável mas pequeno. Temos um carro, mas só utilizamos no fim de semana. A mobília para o nosso primeiro apartamento foi de segunda mão, que compramos em Embu, e adicionamos peças de junco e prateleiras embutidas feitas por um carpinteiro local de madeira local e claro muito artesanato e produtos feitos à mão. Eu tento comprar roupa orgânica – uma das minhas marcas preferidas é a Patagonia.

Ao comprar comida, damos preferência para comida de origem local e orgânica. Gosto muito da filosofia da Alice Waters, uma chefe de renome e líder do movimento de cozinha local.  Tentamos comer verduras e limitar o consumo de carne a 2-3 refeições por semana. Reciclamos em casa.

É impossível ser 100% ambientalmente correto o tempo todo. O importante para nós é que quando nós temos uma opção preferimos a mais sustentável. E temos uma visão global. O nosso bem estar está diretamente ligado ao bem estar de comunidades distantes. 

Para mais informações sobre os produtos da Ecostasy, visite o site da Ecostasy.

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