Editorias / Empreendedorismo
HOME | EcoManagement | "Ação social é vista no Brasil como ato de pessoas boazinhas", afirma Rodrigo Brito

Empreendedorismo

16 de Março de 2010

Leia Também
 

"Ação social é vista no Brasil como ato de pessoas boazinhas", afirma Rodrigo Brito

 o jovem rodrigo brito �um dos tr� brasileiros que comp�m o seleto grupo de jovens l�eres globais
O jovem Rodrigo Brito é um dos três brasileiros que compõem o seleto grupo de Jovens Líderes Globais/Foto: Divulgação

A inspiração para o jovem paranaense Rodrigo de Méllo Brito veio de casa: o pai, Piragibe Brito, empreendedor do setor calçadista, deixou o estado natal, Rio Grande do Norte, antes de seguir com a profissão no Paraná. Já a mãe, Mary Nilze, foi professora da rede pública de ensino, na qual desenvolvia trabalhos de cunho social com jovens de comunidades socialmente vulneráveis.

Do lar para a sala de aula da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o empreendedorismo social permaneceu enraizado na trajetória de Rodrigo. Durante o curso de Administração, ele foi apresentado a Empresa Júnior, criada e gerida pelos próprios alunos, e que já no ano 2000 apoiava microempresários com serviços de consultoria e pesquisa.

Em 2005, ano em que se formou, Rodrigo Brito e mais seis colegas fundaram a Aliança Empreendedora, organização social que atua para o fomento e apoio ao empreendedorismo comunitário e de baixa renda como estratégia de inclusão e desenvolvimento socioeconômico.

Recentemente, o trabalho de Rodrigo Brito e o da Aliança Empreendedora como um todo foram reconhecidos internacionalmente. Aos 28 anos de idade, ele foi um dos 197 selecionados para a comunidade Jovens Líderes Globais (YJL, na sigla em inglês) 2010.

A premiação conferida pelo Fórum Econômico Mundial dá o direito a ele de representar o Brasil na cúpula que será realizada em maio, na Tanzânia. O evento é uma oportunidade para trocas de conhecimento sobre empreendedorismo e busca de soluções econômicas para o mundo. Os outros dois jovens brasileiros escolhidos foram Christina K. Lopes, da CKL Consulting, e Jill Otto, da Companhia Financeira Otto.

Nesta entrevista ao portal EcoDesenvolvimento.org, Rodrigo Brito destaca o trabalho desenvolvido na Aliança Empreendedora, critica a visão brasileira sobre ações sociais e ressalta a influência do economista bengalês Muhammad Yunus, criador do Grameen Bank, no trabalho que desempenha.

EcoD: Quando é que você passou a se interessar pelo empreendedorismo?

Rodrigo Brito: Cada um dos fundadores teve razões para se interessar pelo fomento ao empreendedorismo ligado à inclusão e transformação social. No meu caso, tive em casa um grande exemplo de empreendedorismo na figura do meu pai (que atua no ramo calçadista) e da atuação de minha mãe, que foi professora de escola pública em áreas de baixa renda e sempre foi reconhecida pela sua dedicação e compromisso com este trabalho.

Mas o que gerou a “cola” entre os fundadores da Aliança Empreendedora foram as inúmeras experiências e contatos que tivemos com os campos do empreendedorismo e responsabilidade social ainda na UFPR, por meio da Empresa Júnior.

EcoD: Como foi que você chegou na Empresa Júnior e qual foi a importância do Encontro Nacional de Empresas Juniores no teu trabalho?

Rodrigo Brito: Me formei em Administração pela Universidade Federal do Paraná em 2005, ano de fundação da Aliança, mas foi em 2000 que ingressei na Empresa Júnior da UFPR, uma empresa criada e gerida por alunos e que já apoiava microempresários com serviços de pesquisa e consultoria.

Além da prestação de serviços, a Empresa Júnior naquela época era um verdadeiro laboratório de empreendedorismo, onde criávamos projetos, novos serviços e havia espaço e estímulo para criar. Um dos projetos que realizamos em 2001 foi o Encontro Nacional de Empresas Juniores), e que naquele ano teve “Inovação e Empreendedorismo” como tema. Para uma equipe com idade média de 18 anos e que nunca tinha organizado um evento na vida, até que nos saímos bem, contamos com 1.000 pessoas de todo o Brasil, mobilizamos dezenas de parceiros e palestrantes de peso, além de ter captado mais de R$ 300 mil para o evento, que até hoje é lembrado e considerado um divisor de águas dentro do Movimento Empresa Junior. Com certeza esta foi uma grande “experiência” de empreendedorismo que foi muito importante e significativa em nossa formação.

EcoD: Basicamente, quais noções de empreendedorismo você aprendeu durante os oito anos de capacitação que teve na Empresa Júnior?

Rodrigo Brito: Que podemos atingir e realizar praticamente tudo o que quisermos se:

1º Aprendermos e buscarmos cada vez mais conhecimento;

2º Trabalharmos muito duro;

3º Formarmos uma excelente equipe e cultura que se perpetua;

4º Considerar barreiras e dificuldades como Desafios e Estímulos!;

5º Formar uma rede de pessoas e parceiros na órbita e permeando a organização, ou seja, empreendendo não somente na organização, mas no ambiente/campo e setor em que ela está inserida.

EcoD: Recentemente, você foi eleito um dos 197 Jovens Líderes Globais (YJL, na sigla em inglês) pelo Fórum Econômico Mundial. Em maio, você participará da cúpula dos YJL na Tanzânia. O que esta conquista representa?

Rodrigo Brito: Foi muito mais do que um reconhecimento. Há nisso tudo o estudo, trabalho e dedicação não de uma única pessoa, mas de uma equipe inteira de jovens empreendedores que fundou a Aliança Empreendedora. O objetivo agora é que toda essa experiência seja disseminada e potencializada para esta rede de empreendedores em todo mundo, além de trazer novas oportunidades que gerem desenvolvimento para o Brasil.

EcoD: E de que forma vocês são procurados pelas pessoas interessadas? A Aliança Empreendedora vai até as comunidades de baixa renda?

Rodrigo Brito: Somos procurados de diversas formas, contamos hoje com um grande "boca a boca", no qual um microempreendedor indica para outro, assim como parceiros e voluntários que apresentam empreendedores à Aliança.

Ainda assim, nós continuamos a procurar por microempreendedores e pessoas interessadas em empreender. Fazemos isto distribuindo cartazes em ônibus, participando de reuniões e eventos comunitários, por meio da assessoria de imprensa com matérias em jornais, rádios e TV, além da mobilização pró-ativa em áreas e comunidades específicas e foco da organização, onde vamos de porta em porta conhecer as pessoas e os empreendimentos existentes nestas regiões.

A Aliança atua diretamente nas comunidades urbanas e rurais de baixa renda e vai sempre continuar a atuar mesmo contando hoje com organizações aliadas. Este é um princípio que temos: de que é impossível oferecer o melhor serviço e apoio ao microempreendedor estando longe da realidade e dia-a-dia dele. Além disso, não se contrói capital social a distância, e sim tecendo redes em cada um dos locais em que atuamos.

EcoD: Quais são os requisitos para que um empreendedor de baixa renda possa ser apoiado pela Aliança Empreendedora? É obrigatório que esteja situado nos estados onde a Aliança possui sede?

Rodrigo Brito: O principal requisito é o interesse e perfil do microempreendedor ou grupo produtivo comunitário que busca a Aliança.

Apoiamos pessoas e grupos quem geralmente não tiveram oportunidade de estudo, não teriam acesso ao microcrédito tradicional e não compreendem ou consideram distantes os exemplos e linguajar técnico de outras organizações de apoio ao empreendedorismo.

Por este motivo, temos hoje um diagnóstico que aplicamos ao microempreendimento, onde avaliamos o perfil da(s) liderança(s), infraestrutura existente, se já sabem produzir algo ou prestar algum tipo de serviço, qual a qualidade, custo e preço deste produto ou serviço, dentre outros aspectos.

Com este diagnóstico, temos uma pontuação e análise que classifica o microempreendimento em quatro níveis: 1

  • Iniciante;
  • Intermediário 1;
  • Intermediário 3;
  • Avançado.

Sendo que para cada tipo de perfil /classificação e a partir do diagnóstico realizado, conseguimos personalizar nosso apoio.

Hoje, apoiamos os microempreendimentos que estão nos estados onde a Aliança possui sede ou organizações parceiras apenas, mas a partir deste ano iremos lançar na internet três portais que irão potencializar e ampliar a abrangência destes acessos, o que buscará um maior número de microempreendimentos: um portal de e-commerce para a venda de seus produtos (www.solidarium.com.br), um portal de e-learning, com cursos e material didático disponível pela internet e um portal de microcrédito online chamado Impulso (www.impulso.org.br), onde pessoas de qualquer parte do mundo poderão conhecer , investir e acompanhar microempreendedores pela internet (e presencialmente no caso de serem de um mesmo local), se tornando “anjos investidores sociais”.

EcoD: Quais são os principais resultados da Aliança Empreendedora que você destaca nesses cinco anos de atuação?

Rodrigo Brito: Chegamos em 2010 (comemorando 5 anos de Aliança Empreendedora em abril) a marca de 1.633 microempreendedores diretamente apoiados, equipes em 3 estados (Paraná, São Paulo e Pernambuco) e organizações sociais aliadas em outros 6 estados, com um aumento de renda mensal médio em 2009 que variou de 45% a 170%.

Além disso, em termos de mobilização, já foram mais de 200 voluntários que atuaram apoiando as ações e projetos da organização e cerca de 40.000 pessoas mobilizadas em eventos, prêmios e ações de envolvimento com a causa do empreendedorismo comunitário.

EcoD: Como você avalia o interesse das mulheres empreendedoras? É verdade que elas são maioria?

Rodrigo Brito: Muitos dos empreendimentos comunitários que apoiamos são formados por mulheres, a maioria deles na verdade, chegando a cerca de 80%.

Geralmente estas mulheres trabalham para complementar a renda da família, outras têm o filho estudando e o marido trabalhando fora de casa, sendo que é comum encontrarmos casos de microempreendedoras que antes de iniciar seus negócios sofriam de depressão por ficar o dia à toa sozinhas em casa.

Ao iniciar ou participar de um microempreendimento ou grupo produtivo, elas passam a ter um grupo de convivência, aprendem técnicas, participam de cursos, feiras e outras atividades que trazem novo sentido à suas vidas, sendo que é comum ver casos em que o marido é contra no início até que a renda da mulher ultrapasse 60% da renda da família, quando passam então a apoiar e até ajudar na produção.

Temos casos de empreendedoras rurais que viviam com uma renda de R$ 50 por mês e sobreviviam do que plantavam e criavam. Com a renda mensal adicional (que chega a R$ 350,00 a R$ 700,00) que passaram a ter, uma delas conseguiu pagar o tratamento médico que salvou a vista da filha.

EcoD: De que forma funciona o fundo próprio da Aliança Empreendedora?

Rodrigo Brito: Hoje temos um fundo próprio para realizar os empréstimos de microcrédito aos microempreendimentos que apoiamos. Trata-se ainda de um fundo pequeno que temos como prioridade ampliá-lo em 2010. Este fundo foi formado e é alimentado desde 2006, fruto de projetos e investimentos de parceiros, sendo que, quando começamos nossa ideia não era a de montar um fundo próprio, mas sim ter parceria com instituições que já faziam microcrédito.

O que aconteceu na prática é que o perfil dos empreendimentos e microempreendedores que apoiávamos ainda não atendia aos critérios destes programas e instituições de microcrédito tradicional, o que nos fez buscar e trabalhar para montarmos nosso próprio fundo, que hoje está 80% emprestado e tem uma taxa de 97% de retorno.

Ele se divide em 3 categorias de empréstimos:

1) Investimento Semente - com foco para empreendedores/empreendimentos iniciantes;

2) Microcrédito para Empreendedores Jovens

3) Microcrédito Produtivo tradicional - para empreendimentos intermediários e avançados.

EcoD: Em entrevista recente à Folha de S.Paulo, você afirmou que o empreendedorismo social ainda é um bebê no Brasil? Por que o país ainda não atingiu o desenvolvimento necessário e o que pode ser feito?

Rodrigo Brito: Acredito que o empreendedorismo social ainda engatinha no Brasil porque nossa história e cultura sempre foram marcadas pela noção de que tudo deve ser de responsabilidade dos governos, e que se algo deu certo ou errado, é culpa ou mérito do governo, que gosta de estar nesta posição, além de manter-se nela, pois justifica seu enorme tamanho, gastos e aumento de impostos.

De um tempo para cá, vimos algumas ações governamentais com foco no fomento e apoio a microempreendedores ou empreendedorismo em geral, mas geralmente são ações tímidas e mais relacionadas a pessoas que criam e gerem estes programas do que a um plano dos governos, o que torna este compromisso muito frágil.

Além disso, temos no Brasil uma cultura que vê e relaciona atividades sociais a atos puramente de caridade (muitas vezes religiosa) ou de voluntariado, e não de desenvolvimento.

A ação social é vista no Brasil ou como ato de "pessoas boazinhas" que merecem o céu, ou como ato de "vermelhos revolucionários", e não como algo que deve ser embutido de competência técnica, profissionalismo, inovação e/ou metas arrojadas, que é como encaramos a atividade da Aliança Empreendedora.

Com essa visão, é comum ver gerentes e diretores de empresas, que possuem um grande conhecimento técnico, pintando muros de creches ou distribuindo agasalhos e cestas básicas, coisas que todos podem (e têm conhecimento) para fazer e que são de fato pouco transformadoras.

EcoD: Quais são as organizações que apoiam a Aliança Empreendedora?

Rodrigo Brito: Contamos atualmente com parceiros como Grupo Santander Brasil, Instituto Wal Mart, Instituto Lojas Renner, Ashoka, Avina, Instituto Ventura, Artemisia, AES Eletropaulo, Bovespa Social, Instituto Sadia, Fundação Alphaville e Prefeitura Municipal de Curitiba. Como clientes temos o Sebrae Paraná e a Volvo.

EcoD: Qual é a importância do Muhammad Yunus no universo do empreendedorismo social? Ele te influencia de alguma forma?

Rodrigo Brito: Com certeza. Yunus foi um dos maiores influenciadores da Aliança e a sua maior contribuição para o campo do empreendedorismo (seja ele econômico ou social), foi o de disseminar a visão de que as empresas podem ser sociais, que o capitalismo pode ser inclusivo e que o lucro pode gerar grande transformação social. Além disso, também reforçou a mensagem de que ação social apenas bem intencionada ou a filantropia assistencialista não transformam, mas apenas mantém ou amenizam as desigualdades. Enfim, por meio dos diversos exemplos do Grameen Group, Yunus foi o porta voz da reflexão de que as pessoas não precisam de ajuda ou caridade, precisam sim é de acessos e oportunidades.

Faça sua doação!

Estamos precisando muito da sua ajuda e qualquer valor doado é de grande importância.

Você pode impedir que este trabalho importante de conscientização acabe, fazendo sua doação. Todos os recursos obtidos serão utilizados para a manutenção de nossas atividades. Vale lembrar que todo conteúdo é 100% gratuito e acessível a qualquer cidadão.

Clique aqui e saiba como fazer a sua doação!

Comentários

Deixe sua opinião sobre este assunto.

Dicas
Veja Mais Dicas
Guias
Veja Mais Guias
 
Shopping EcoD
Abrasivo Digital