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Responsabilidade Social

27 de Dezembro de 2009

 

Da caixinha nasceram paredes

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Ângela Feijó desenvolve programas de reaproveitamento de materiais

Se você é daqueles que toma seu café com leite lendo jornal, acredite: você pode estar segurando a matéria-prima que Ângela Feijó utiliza para fazer construções. Em uma viagem para o continente Antártico, a bióloga, artesã e empreendedora social se deslumbrou com o ambiente e com a quantidade de matéria-prima proveniente do lixo. Ela então percebeu que é possível criar produtos a partir de materiais descartados, evitando o consumismo exagerado e o desperdício. As atitudes sustentáveis levaram Ângela Feijó a criar o ERA, um espaço de reutilização artesanal que, entre vários programas, desenvolve casas a partir de embalagens de leite longa vida. O EcoD conversou com ela sobre estas ações tão inspiradoras.

EcoD - Como começou seu contato com os materiais reaproveitáveis?

Angela Feijó - Há uns 15 anos, trabalhando no Centro de Estudos do Mar, em Pontal do Sul, no Paraná. Na área de pesquisa, tive o privilégio de participar de algumas expedições ao continente Antártico. Nessas ocasiões, permanecíamos por aproximadamente dois meses na Estação Brasileira Comandante Ferraz. As leis ambientais no continente são muito rígidas e uma delas faz referência ao tratamento de resíduos, que devem voltar ao país. Como uma das regras aplicadas na estação brasileira é o trabalho de todos os “tripulantes” para os afazeres domésticos, algumas vezes fiquei responsável pelo lixo. Chamou minha atenção a quantidade de resíduos gerados por aproximadamente 45 pessoas, e quanta matéria prima havia ali. Além do lixo, fiquei deslumbrada, claro, com o ambiente. É incrível e não tem palavras para descrever, nem foto que consiga revelar. Só posso dizer que mudou a minha vida! Desde então, comecei a aprender e desenvolver técnicas de reutilização artesanal. Numa ocasião, assisti em um programa de TV a montagem de uma poltrona para criança feita com as embalagens Tetra Pack, preenchidas com jornal. Como uma boa artesã que quer experimentar tudo, preenchi as caixinhas e esperei acumular a quantidade suficiente para poder montar a tal poltrona. Não consegui. Mas, manuseando as caixinhas preenchidas, me veio a idéia de montá-las como se fossem tijolos e construir uma casinha para crianças, já que eu estava na expectativa da chegada da minha primeira filha. Alguns anos se passaram e em 2003, com a ajuda da minha mãe, construímos a primeira casinha com muita dificuldade. Foram várias tentativas e erros, mas ficou linda. No ano seguinte, aperfeiçoamos a técnica: as paredes viraram módulos (que hoje chamo de MoRAr – Módulos da Reutilização Artesanal), os tijolos já não eram mais preenchidos só com jornal, mas com resíduos diversos, preferencialmente os não recicláveis, e a cobertura ficou mais resistente. Construímos uma casa de 20m² que é meu atelier até hoje.

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Casa produzida a partir de embalagens de leite 

Como surgiu a ERA?

O sucesso e a facilidade de produção fez brotar a vontade de aplicar a ideia em comunidades carentes, envolver pessoas excluídas do mercado de trabalho, enfim, relacionar o trabalho ambiental ao social. Fiz um curso de Empreendedorismo Social e com o auxílio de um tio arquiteto, surgiu a logo ERA, que pode ser: Espaço da Reutilização Artesanal, quando apenas é construído o espaço reutilizando resíduos, Espaço para a Reutilização Artesanal, quando é construído o espaço e neste ambiente desenvolvidas oficinas de outras técnicas de reutilização artesanal, ou Espaço para Repensar sobre Atitudes, quando é construído o espaço e nele desenvolvidas atividades de conscientização ambiental. Portanto, ERA é um espaço para repensar sobre atitudes, reutilizando resíduos artesanalmente, para a recuperação do ambiente. Atualmente trabalhamos em um grupo de quatro pessoas: eu, Maria Goreti, Keiko e Tyryetê Kaxinawá. Todos igualmente artistas e lutadores das causas sócio-ambientais.

Conte um pouco sobre as casas feitas de embalagem de leite longa vida. Como são feitas, qual o tempo de vida útil, quais as dificuldades, como conseguem as embalagens?

Resumidamente, este tipo de embalagem é preenchido com diversos tipos de resíduos de forma bem uniforme, formando assim o tijolo. Os tijolos são acomodados em uma moldura de madeira e cobertos com uma massa de papel machê, que por sua vez é coberta com um impermeabilizante. Trabalhoso, mas leve e limpo, pode envolver mulheres, deficientes e idosos no mercado de trabalho. Além de reutilizar cerca de 15 kg de resíduos/m² e dar destino adequado a materiais não recicláveis, são isolantes térmicos e acústicos e podem melhorar muito a qualidade de moradia de famílias em situações precárias. Quanto à vida útil, ainda não realizei testes físico-químicos, mas tenho na prática, três casas piloto, uma de seis anos, em contato direto com as intempéries do tempo, sem qualquer manutenção e em perfeitas condições. Outra casa está construída em uma região de serra, onde as condições são de muita umidade e se comporta muito bem há três anos. E meu atelier, que inclusive o madeiramento é reutilizado de demolição e me abriga há cinco anos. Consigo as embalagens, por enquanto, só com campanhas de arrecadação e que funcionam muito bem, mas minha intenção é agregar valor aos resíduos e com isso contribuir com o importante trabalho do catador.

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Parte interna do atelier construído de forma sustentável

Além do ERA você também é integrante do Amigos Brincando e Reciclando. Quais atividades são desenvolvidas? Como começou a ideia de juntar os amigos e começar o projeto?

Na mesma ocasião, no curso Empreendedorismo, estava participando uma equipe com o projeto Associação Brincando e Reciclando. Sentia dificuldade de trabalhar sozinha e não tinha a intenção de formalizar uma ONG, então, resolvi me juntar a eles, já que o projeto ABR tinha como objetivo a consciência ambiental e a formalização legal. A ABR não foi legalizada até hoje, mas nos tornamos grandes amigos com interesses comuns, por isso adotamos o nome Amigos Brincando e Reciclando. Começamos com trabalhos voluntários no Programa Comunidade Escola da Prefeitura de Curitiba. Desenvolvemos algumas oficinas e surgiu a oportunidade de construirmos um ERA na Escola Municipal Adriano Robine, que estamos concluindo com muito esforço. Além do programa ERA, desenvolvemos pequenas grandes ações, no sentido lúdico de influenciar na mudança de comportamento. Como exemplo, o Aniversário Amigo do Ambiente, que tem como objetivo, sem radicalismo, gerar menos resíduos e ser mais saudável. Sugerimos alternativas de cardápio para gerar menos resíduos e oficinas de reutilização dos resíduos gerados. Produzimos decorações e lembrancinhas, usando resíduos como matéria-prima e tentamos sempre incluir temas com o ambiente, brincadeiras, interação e envolvimento dos adultos. Acreditamos naquela frase que tem rodado a internet e que eu assino embaixo: “estamos tão preocupados em deixar um planeta melhor para nossos filhos, mas estamos esquecendo de deixar filhos melhores para o planeta”. Este ano, em parceria com a Universidade do Contestado, foi construído pelos alunos um Espaço da Reutilização Artesanal na cidade de Rio Negrinho-SC, que foi doado à prefeitura e será utilizado como casa do artesanato ou Informações Turísticas. E na cidade de Mafra, esta sendo construída uma cidade mirim no Colégio Mafrensi, também contando com a parceria da UnC.

Podemos contar com líderes e acordos entre países ou a saída para melhorar o mundo está nas mãos da sociedade?

Acredito que a saída para um mundo melhor esta nas mãos do ser humano, seja ele líder ou não. A grande dificuldade é que quando uma pessoa se torna líder e tem o poder para mudar não só a sociedade humana, mas todas as formas de sociedade, deixa de se ver como parte integrante dela. O ser humano precisa reaprender a viver em comunidade e em harmonia com a natureza.


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