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11 de Maio de 2010

 

Golfo do México é palco de um dos piores desastres ambientais da história

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A explosão aconteceu no dia 20 de abril e matou 11 funcionários/Foto: US Coast Guard

A explosão da plataforma Deepwater Horizon, no dia 20 de abril, reabre a discussão sobre os perigos e impactos da extração de petróleo. O acidente ocorrido no Golfo do México deixa em alerta governos e pesquisadores de todo o mundo, inclusive no Brasil, grande explorador de petróleo no mar. 

A fratura na tubulação que era conectada à plataforma a partir da cabeça do poço, a mais de uma milha da superfície, segue lançando cerca de cinco mil barris, ou 800 mil litros, de petróleo por dia no mar, causando um dos maiores desastres ambientais da história da indústria petroleira.

O acidente

A explosão da plataforma, administrada pela British Petroleum (BP), ocorreu na madrugada de terça para quarta-feira, 21 de abril, em frente à costa do estado americano da Louisiana, a cerca de 75 km da cidade de Venice.

O acidente foi desencadeado por uma bolha de metano que escapou do poço e disparou para cima, pela coluna de perfuração, expandindo-se rapidamente ao eclodir através de diversos lacres e barreiras antes de explodir, informaram funcionários da plataforma entrevistados pela BP, que conduz uma investigação interna do caso.

Ao todo, 11 funcionários morreram no acidente e 17 ficaram feridos com diferentes níveis de gravidade. Além das vítimas, o acidente causou um vazamento submarino que ainda libera milhões de barris de óleo cru no Golfo do México.

A mancha de óleo no mar, que cobre área de cerca de 2 mil milhas de perímetro (cerca de 5.200 km2), já se espalhou pelo litoral da Lousiana e ameaça o estado do Alabama. Teme-se ainda que ela possa chegar à península da Flórida arrastada por uma corrente do Golfo.

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A mancha de óleo já pode ser vista do espaço/Foto: NASA

Riscos

A emissão de petróleo no mar coloca em risco a vida marinha em uma região de terras baixas que contêm zonas vitais de desova para peixes, camarões e caranguejos, além de consistirem em parada importante para muitas espécies migratórias de aves raras, afirmam especialistas.

Os danos aos ecossistemas marinhos, caso isso ocorra, serão "incalculáveis", disse o professor da Faculdade de Ciências Marinhas da Universidade de Miami Daniel Suman, à EFE. No local vivem animais ameaçados de extinção, como o jacaré americano, pelicano marrom, tubarão azul, baleias e tartarugas. Na quinta-feira, 6 de maio, uma reserva ecológica de Luisiana foi atingida pela mancha.

O óleo ainda pode destruir a vegetação que serve de alimento para os peixes – a base da cadeia alimentar, alertam os estudiosos. Com isso, a atividade de criadores de camarões e pescadores está em risco. Só a pesca local movimenta mais de 40 bilhões de dólares por ano. A atividade foi banida enquanto a situação não é resolvida e cerca de 4,5% da área do Golfo está proibida para os pescadores.

Equipes já trabalham para resgatar e limpar animais atingidos pela mancha de óleo. Aves como alcatraz, inteiramente branca quando adulta, têm sido resgatadas completamente cobertas por óleo. Muitos animais já começam a ser encontrados mortos nas praias próximas aos locais atingidos.

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Animais marinhos mortos já começam a ser encontrados nas praias da região/Foto: Joe Raedle

Medidas de retenção

Inúmeras ações, todas fracassadas até o momento, já foram tomadas pelas BP para tentar conter o vazamento de petróleo. A lâmina d’água de trabalho (1.500 metros) e a profundidade do poço (5.400 metros) tornam o desafio da empresa ainda maior.

Uma câmara de três andares de altura, feita de cimento e aço e pesando mais de 100 toneladas já foi abaixada em direção ao buraco principal para interromper o fluxo, conter o óleo ainda no fundo e bombeá-lo para a superfície. Porém, cristais de gelo entupiram a estrutura e abortaram os planos. A BP informou que está estudando a possibilidade de instalar uma estrutura menor sobre o poço.

Outras técnicas utilizadas para tentar minimizar o estrago do vazamento na costa dos EUA é a queima de óleo na superfície, transferindo o hidrocarboneto das águas para o ar, e a construção de uma grande barreira flutuante na tentativa de proteger o nono maior porto do país.

Os técnicos ainda ponderam usar um tubo para atirar lama e concreto diretamente no poço (um processo que poderia levar de duas a três semanas), ou ainda perfurar um novo poço no mesmo reservatório para aliviar a pressão e tamponar o vazamento por dentro do local. Esta seria a solução definitiva, contudo esse procedimento deve demorar cerca de três meses para ser concluído.

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Barcos tentam contem a mancha de petróleo com barreiras flutuantes/Foto: US Coast Guard

Milhares de litros de dispersantes, produtos químicos surfactantes que fazem o óleo afundar, também foram lançados sobre a mancha. A expectativa é a de que o dispersante quebre a composição do óleo e que, com o passar do tempo, a mancha flutuante se dilua em partículas menores, biodegradáveis. Os críticos da medida sustentam que o produto pode provocar muitos problemas já que quando se dissolve e se deposita no fundo do mar, afeta gravemente a vida de microorganismos.

Até cabelo e pelo de animais têm sido utilizadas para conter o óleo. A ideia é que o cabelo, colocado dentro de meias de náilon, absorva o óleo espesso que se aproxima das praias. Em entrevista à BBC, a co-fundadora da entidade beneficente que lidera a campanha de arrecadação de cabelo, Lisa Gautier, disse que o cabelo é um material extremamente eficiente na absorção de todos os tipos de óleo, incluindo o petróleo. Ela explicou que cada folículo tem grande área de superfície, à qual o óleo adere.

Em Washington, considerações de segurança ambiental já fizeram o presidente Obama recuar da decisão de permitir perfurações no mar e condicioná-las à segurança. O presidente afirmou ainda que quer endurecer a legislação sobre compensações por danos em caso de vazamentos de petróleo, que atualmente limita esses pagamentos a US$ 75 milhões.

Mesmo com tudo isso, o analista ambiental do IBAMA Cristiano Vilardo é cético quanto aos resultados das ações. “Em condições ótimas, tempo bom, resposta rápida, equipamentos modernos, uma ação de contingência consegue recuperar de 10% a 15% do óleo cru derramado no oceano. Se algum fator complicador estiver presente, como ventos, correntes ou ondas, esse percentual é reduzido consideravelmente”, explicou.

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Até cabelo humano e pelo de animais têm sido usados para tentar conter a mancha/Foto: Matter of Trust

Riscos para o Brasil

“Um incidente com as mesmas características deste que ocorre nos EUA é passível de ocorrer no Brasil, uma vez que o problema se deu devido a uma falha num equipamento que é usado em todas as perfurações marítimas em águas profundas”, alertou o analista ambiental da HidroClean Proteção Ambiental, Maurício Green, e o seu diretor Carlos Boeckh, que também é coordenador do Plano de Emergência da Baía de Guanabara (PEBG).

Já Cristiano Vilardo alerta que, apesar de existirem simulados de emergência onde são testados os procedimentos de comunicação, mobilização de recursos e efetividade da resposta aos derramamentos de óleo, e da tentativa de aprovação de um Plano Nacional de Contingência, as empresa “estão passando de raspão nesses exames”.

“São raros os exercícios de simulação onde não se tenha problemas com o lançamento de barreiras, ou falhas de comunicação, ou defeito em embarcações, ou todas as alternativas anteriores. Nesses casos, o IBAMA tem atuado exigindo a correção dos erros e, eventualmente, a realização de novo exercício completo”, diz.

O analista afirma que a situação fica ainda mais crítica quando são avaliados blocos situados muito próximos de áreas ambientalmente relevantes. “Podemos citar, por exemplo, a existência de blocos petrolíferos a menos de 10 km do litoral paradisíaco do baixo sul da Bahia, ainda em licenciamento ambiental. Nesses casos, se um vazamento de óleo ‘acontecer’, não há plano de emergência que dê conta de evitar uma tragédia ambiental”, diz.

Os reflexos do vazamento no Golfo do México levaram o Governo do Estado do Rio e o Ministério do Meio Ambiente a formar um grupo de trabalho, que fará a prevenção e o mapeamento dos eventuais riscos em plataformas de petróleo no Brasil. A reunião foi realizada no dia 7 de maio, na sede da Secretaria do Ambiente do Estado do Rio.

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800 mil litros de petróleo são despejados no mar diariamente/Foto: US Coast Guard

Avaliação do desastre

Para o cientista político Sérgio Abranches, não existe tecnologia adequada para lidar com esse tipo de vazamento. “O desastre ocorre na maior e mais rica economia do mundo, no país mais avançando tecnologicamente e em um projeto de uma grande e avançada empresa. Ela pediu ajuda a suas concorrentes e as poucas sugestões que recebeu foram tópicas. Ninguém sabe como estancar o vazamento naquela profundidade em tempo de evitar um desastre dessas proporções”.

Abranches sugere quatro grandes lições a serem extraídas do episódio: “A primeira é que o risco é maior do que as empresas admitem. A segunda é que não existe tecnologia adequada nem para prevenção desse risco, nem para controlar prontamente os danos, menos ainda para estancar o processo em tempo hábil. A terceira é que esses desastres têm consequências de longo prazo. A quarta lição é que esses projetos petrolíferos em águas profundas têm um custo escondido”, opina.

“O que provavelmente se tornará um dos mais danosos vazamentos da história revela os riscos escondidos de nosso vício por combustíveis fósseis. A verdade é que os combustíveis fósseis são prejudiciais de muitos modos - para nossa saúde, para o ambiente e para a segurança nacional”, conclui nas palavras de John Podesta e Joseph Romm.

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