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Voluntariado

21 de Novembro de 2010

 

Inspire-se: O luthier da floresta amazônica brasileira

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Os instrumentos produzidos pela Oela são feitos com madeira certificada/Foto: Divulgação

Há doze anos Rubens Gomes era um professor do Centro de Artes da Universidade Federal do Amazonas inconformado com a situação de violência das periferias de Manaus. Um dia, o luthier resolveu trabalhar junto à comunidade e buscar resolver o problema juvenil da comunidade de Zumbi dos Palmares II, suas perspectivas eram dar um rumo à vida daqueles adolescentes carentes.

No primeiro dia de aula de lutheria eram esperados 20 jovens, mas chegaram 40 da escola estadual vizinha ao projeto. Com o passar do tempo, a Oficina Escola de Lutheria da Amazônia (Oela) cresceu e agregou outras responsabilidades, e Gomes teve que se desdobrar para gerir tantos projetos sociais. Ele não fez isso sozinho, atualmente conta com a ajuda de um grupo "pequeno, mas altamente comprometido", entretanto é preciso ter amor para continuar por tanto tempo de dedicação.

Conheça esse luthier que mobilizou mais de 40 mil atendimentos a jovens de comunidades da Amazônia brasileira e ainda tem vontade de continuar a trabalhar pelo desenvolvimento sustentável do local.

EcoD: De onde veio essa vontade de ajudar a comunidade?

Rubens Gomes: Eu me comovi com o volume de informações negativas que os jornais publicavam diariamente. O fato me chamou mais atenção, na época, foi o uso do terçado (uma espécie de facão) que os adolescentes usavam como arma. Os confrontos geravam um grau de mutilação terrível, quase sempre com perdas de membros.

Quando resolvi conhecer a região, encontrei uma falta total de presença de Estado, e pude entender o que levava aqueles adolescentes a se juntarem no que eles chamavam de "galeras". Era a forma de se defenderem, de cuidarem de seu espaço coletivo. Mas, com o passar do tempo, isso foi associado ao uso de drogas e de álcool, e as disputas entre essas galeras geravam um grau desumano de violência.

Eu tinha certeza que nem todos adolescentes queriam seguir o caminho do crime, mas a falta de opção os colocava vulneráveis. A forma que encontrei para contribuir foi criando uma nova “galera” e assim estamos há 12 anos na comunidade. Muitos destes adolescentes e jovens vieram em busca da música e depois descobriram a lutheria.

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Alguns dos alunos da Oficina Escola de Lutheria da Amazônia/Foto: Divulgação

É verdade que você foi morar na comunidade de Zumbi dos Palmares após decidir formar a oficina?

Sim, eu não tinha como conhecer a comunidade se não vivenciasse o dia a dia pleno juntamente com ela. Chegar pela manhã na comunidade e sair no final da tarde não era suficiente e mais, eu não teria recursos financeiros para manter a oficina-escola na comunidade e manter outro local para morar. Teria de ser na nossa casa, no nosso atelier.

Então, eu e minha companheira da época mudamos e dividimos a casa com a oficina escola. Ficamos por dois anos até poder comprar a casa e ampliar a oficina-escola, aí nos mudamos para outra casa. Hoje a minha casa é ao lado das duas casas onde funciona o projeto.

No início dos trabalhos, houve dificuldade para colocar em prática o projeto da oficina?

A nossa chegada na comunidade foi muito bem recebida pela comunidade, as dificuldades eram inerentes a manutenção de um projeto social. Porém, fomos e ainda somos muito bem tratados na comunidade. O projeto também ajudou na auto-estima da comunidade, logo começamos a ganhar notoriedade e ser visitados por muitas personalidades locais, nacionais e internacionais.

Nos dois primeiros anos, o trabalho foi todo voluntário por mim, minha companheira da época e um ex-aluno. No ano 2000, começaram a chegar parceiros que ajudaram o projeto a ir tomando corpo.

E em que isso modificou no contato direto com a comunidade?

Nós passamos a ser uma boa referência, o respeito e a atenção pelo nosso trabalho aumentaram. A comunidade vibrava a cada chegada de celebridades, artistas globais, e pessoas de reconhecimento internacional. Recebemos a visita da Marina Silva, o que levou o prefeito da época e sua secretária de meio ambiente homenagearem a ex-ministra com a entrega da chave da cidade nas dependências da Oela, com ampla cobertura pela imprensa.

Depois tivemos a visita do príncipe Charles, evento de grande repercussão local, nacional e internacional. Ainda hoje é comum eu ser abordado na rua e receber agradecimentos pela visita do príncipe na nossa comunidade (a única visitada do estado). Além disso, da mesma forma que melhoramos a auto-estima da comunidade, também conseguimos melhorar a sua infraestrutura. O governo passou a dar mais atenção ao local colocando asfalto novo e meio fio, coisas que se faz em épocas de festividades – o que foi muito bom.

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O príncipe Charles e a duquesa Camilla visitaram a Oela em 2009/Foto: Divulgação

Com todo esse reconhecimento ainda é difícil fazer a diferença nas comunidades atendidas pela Oela? Como vocês fazem para continuar com o espírito inicial e ainda agir pelo social?

Eu procuro manter o mesmo espírito do início: se temos de fazer, vamos fazer. Hoje a Oela tem uma equipe pequena, mais altamente comprometida com o fazer coletivo. Nós fomos convidados a participar de projetos de grandes impactos, como a parceria com o UNICEF em que coordenamos o projeto de capacitação para gestores de 156 municípios em quatro estados da Amazônia. Apesar do crescimento, a dedicação é a mesma.

A transformação social só será possível em nosso país se todos fizerem sua parte, e nós escolhemos fazer a nossa parte. Agora buscamos outros projetos, como a parceria que estamos iniciando com o Ministério dos Esportes e com a Petrobras, para construir um centro de referência em esporte. O nosso objetivo é formar atletas olímpicos – veja, em nada tem a ver com a lutheria do inicio.

Esse trabalho só é possível porque não utilizamos a mentalidade fragmentada e dicotomizada, ou especializada, que em geral se usa. Se podermos ajudar, vamos ajudar, mesmo que não tenhamos expertises, as criamos.

A Oela já ganhou alguns prêmios. O último, inclusive, o Finep de Inovação 2010 foi entregue neste mês. Para você, o que representa esse reconhecimento?

Ter o reconhecimento do MCT é muito importante para o projeto, para a equipe, alunos e parceiros porque aumenta a responsabilidade em continuar a fazer bem, correto e cada vez melhor. Do ponto de vista da tecnologia, indica que a escolha que tomamos foi correta e que precisamos continuar a avançar, partindo dos pontos avaliados para poder ajudar o maior número possível de adolescentes na Amazônia. Do ponto de vista econômico, o prêmio poderá ajudar a consolidar partes dos processos.

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No final das palestras que realiza, Gomes aproveita para divulgar os instrumentos da Oela/Foto: Divulgação

Todo esse crescimento na organização demanda viagens e tempo. Com tantos compromissos ainda dá tempo de participar das classes e oficinas, ou acompanhar o desempenho dos alunos?

Um dos reflexos desse nosso trabalho colocou a Oela em uma posição de destaque junto aos movimentos sociais da Amazônia brasileira, o que fez o movimento nos convidar a assumir a presidência da maior rede socioambiental da Amazônia que é o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), uma rede que articula com mais de 600 organizações sociais e ambientais e de direitos humanos. A agenda do cotidiano é intensa.

Nestes quase três anos de mandato, tenho dedicado presencialmente pouco tempo à OELA, vivo nos aviões respondendo e-mails, como estou respondendo este enquanto retorno de São Paulo para Manaus, mas mantenho contato constante com a equipe via internet e telefone. Tenho ficado cerca de dois dias por semana em casa, e estes são exclusivos para a OELA, sala de aula, conversas, broncas, conselhos, etc.

Qual a sua perspectiva para a Oela e os seus desejos futuros?

Somos uma referência no ensino da lutheria hoje com o novo atelier. Produzimos instrumentos musicais da mais alta qualidade pela meninada que está crescendo junto com o projeto, mas ainda falta muito na área de implantação e implementação do manejo florestal comunitário e familiar, precisamos desprender mais energia nesta área para proteger nossas florestas e gerar oportunidade para inclusão social e econômica aos povos da floresta.

Assim, creio que após o mandato do GTA (maio 2011), vamos intensificar as ações para viabilizar e ampliar as áreas manejadas das comunidades ribeirinhas do município de Boa Vista do Ramos - AM e depois replicar o modelo desenvolvimento a outras comunidades na Amazônia brasileira.

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