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Vida e Saúde

08 de Março de 2010

 

O brilho escondido do cotidiano

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Paisagens, objetos, momentos e pessoas: Inês não deixa nada escapar aos seus aguçados olhos e sensíveis lentes / Fotos: Inês Nogueira

Construindo e fotografando os pedaços que formam o grande quebra-cabeça que é a cidade de Lisboa, em Portugal, Inês Nogueira dá o exemplo ao mundo virtual de como apreciar o ambiente a sua volta. Mostrando que lugares públicos, parques e até a nossa própria casa escondem uma sensível beleza, a designer apresenta em seu blog, o Caderno Branco, um novo olhar sobre o cotidiano e o seu brilho, que quase sempre fica escondido.

Apurando os sentidos

Captando cada detalhe de sua vida em seus trabalhos manuais, suas práticas sustentáveis e na sua fotografia, a designer portuguesa dá uma nova opção para quem está cansado de passar por cima da rotina, e mesmo julgando a sua entrada no “universo paralelo” dos blogs como algo “egoísta”, inspira e convida quem a lê para um entusiasmado passeio pelos sentidos.

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EcoD: Mantendo um blog na internet com atualizações quase que diárias, o que você deseja transmitir para quem o lê? O que as pessoas podem encontrar nele?
Inês: Quando criei o meu blog pensei que ele me iria permitir agregar todas as coisas tão variadas e dispersas que ocupam os meus dias e a minha cabeça. Coisas em que penso, episódios por que passei e que não quero esquecer, o que fotografo em Lisboa, o que se vai passando à medida que as minhas filhas crescem e também as coisas que faço com as mãos — os crafts, à falta de uma palavra melhor. A ideia era esta e, de fato, o desktop do meu computador tornou-se imediatamente menos confuso e deixei de ter dez caderninhos de apontamentos a uso ao mesmo tempo.

Do que eu não estava à espera era de sentir tão depressa que o blog se tornava um objeto em si. Passei a conseguir ver que por trás de toda esta dispersão de interesses há um fio condutor que sou eu. E isso é uma coisa que, de alguma forma, me dá tranquilidade e um gozo enorme. Ou seja, apesar da partilha e da interação fabulosas com outras pessoas, aquilo que me leva a fazer o blog são razões muito egoístas, de puro prazer meu. Todo o resto, as reações entusiasmadas e o interesse das pessoas, é um enorme e saboroso bônus.

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O que seria para você as três palavras título de uma das áreas do seu blog: Transformar | Respigar | Reciclar ?
São três coisas que eu faço muito. E achei que as podia juntar na mesma categoria porque, no fundo, são três formas de fazer a mesma coisa — combater o desperdício, que é uma coisa que me interessa e que está na ordem do dia.

Porque passar esses conceitos e práticas sustentáveis?
Se há coisa de que tenho a certeza é que é útil passar essa ideia. Toda a gente pode e deve fazê-lo. O planeta precisa disso com urgência.

Com filhos em casa, acha que é importante integrá-los a esses assuntos? Para quem também os tem em casa, qual a sua ideia para fazer com que os pequenos participem de um cotidiano mais saudável?
Acho que, se os adultos têm essa preocupação no dia a dia, as crianças vão naturalmente passar a tê-la também. Não tenho grandes receitas. O exemplo parece-me a melhor estratégia.

Com muita simplicidade, você mostra que é possível agregar valores mais "amigos da natureza" no dia a dia. O que você indicaria para quem ainda tem uma rotina "zero" em sustentabilidade?
Que dê passos pequeninos, para começar. Acredito que nem todo mundo esteja interessado em trazer cadeiras do lixo, recuperá-las e pô-las na sala, ou em transformar t-shirts usadas em pijamas para os filhos, mas qualquer pessoa pode recusar os sacos de plástico que lhes são dados nas lojas e usar, em vez disso, um saco de pano. Se o fizer, estará, de fato, a fazer uma coisa que mesmo pequena é uma enorme contribuição. A mim, diverte-me pensar nesta relação entre o muito pequeno e o muito grande.

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Das embalagens para presentear família até ao seu trabalho de costura feito a mão, cada detalhe parece ser pensado com carinho. É possível pensar no coletivo na hora de construir um produto?
Eu sou sempre mais criativa quando faço coisas para os outros, quer seja costurar qualquer coisa para as minhas filhas ou fazer um jantar para várias pessoas. Nesse sentido, sim, penso quase sempre no coletivo que é a minha família e os meus amigos. E também é verdade que se pode pensar no coletivo mais abrangente, porque se fizermos as coisas agredindo o menos possível o ambiente estamos a preservar aquilo que é de todos. Sim, penso que essa preocupação está presente naquilo que faço.

Será isso que o mundo precisa para ser um melhor lugar - do "pensar coletivo"?
Talvez. Mas pode-se chegar ao coletivo, que é uma coisa um pouco vaga, se cada pessoa se responsabilizar pelo que lhe cabe, pelo que lhe está próximo. Se fizermos a nossa parte estaremos a contribuir para o todo. É um cliché, mas é verdade.

Em sua cidade, cada espaço parece ser sensivelmente notado por você, esse olhar aguçado é importante para a compreensão do "todo" e de uma vida mais tranquila?
De uma vida mais tranquila e mais divertida, sem dúvida. Faço questão de estar atenta às coisas boas da minha cidade. Lisboa é uma cidade linda e gosto muito de viver aqui.

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Delicada, suas escrituras são bem motivadoras. Você acha que hoje, em meio a veloz rotina urbana, as pessoas sentem falta de inspiração?
Não gosto nada do discurso generalizado de que as cidades não têm qualidade de vida. Eu sou definitivamente urbana e acho que a qualidade de vida numa cidade, particularmente em Lisboa, tem muito a ver com as escolhas que se fazem e com aquilo a que se dá prioridade. Eu jamais escolheria uma escola para as minhas filhas longe de casa, mesmo que fosse a melhor escola do mundo, porque implicaria gastar horas dentro de transportes no meio do trânsito e isso minaria o nosso dia a dia.

Prefiro viver no centro da cidade e ir a pé para os jardins públicos onde faço piqueniques com elas, mesmo que a casa que eu posso pagar implique subir todos os dias quatro andares com duas crianças pequenas. Estamos constantemente a optar e eu tenho optado sempre por viver em sítios bonitos e animados, pela possibilidade de andar a pé e pouco de carro, por ir ao mercado de rua comprar vegetais em vez de ir passear para centros comerciais. E tudo isso, para mim, é inspirador. Para mim as cidades são uma fonte inesgotável de inspiração.

O que você gostaria de deixar no mundo, como uma espécie de semente a ser germinada em um futuro próximo?
Não tenho grandes pretensões sobre o que deixarei no mundo. Ou talvez tenha apenas uma — a de deixar duas filhas felizes. 

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O mesmo cotidiano, visto com outros olhos

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