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EcoDesign

26 de Janeiro de 2009

 

Brasileira ganha o mundo com seu design inteligente e sustentável

tati3.jpgHá dez anos, a carioca Tatiana Guimarães, mais conhecida como Tati, arrumou suas malas e deixou casa e família para descobrir as maravilhas do mundo. Acabou fincando raízes em Barcelona, na Espanha, e hoje vê seus produtos sendo destaque em todos os continentes como exemplo de design que une beleza, utilidade e respeito ao meio ambiente. Conheça a história de Tati e o seu sonho de transformar o mundo ao seu redor em um ciclo de emoções, surpresas e sustentabilidade.

EcoD: Tati, como tudo começou?

Tati:Eu estudava desenho industrial no Brasil e trabalhava com design gráfica. Um dia eu vi a mãe de uma amiga fazendo cestas com jornal com aquela técnica antiga das nossas avós, enrolava o jornal, passava betume e tal. E eu quando vi aquilo achei o máximo, foi amor a primeira vista. Aí eu sugeri pra ela, “por que a gente não faz uma bolsa?”. Ela me ensinou a técnica e nos fizemos. Quando eu fui pra faculdade com a bolsa feita de jornal foi um sucesso, todo mundo queria comprar. Foi isso que me abriu os olhos para esse mundo que eu nem conhecia, chamado eco design.

Depois a gente começou a testar com revistas. Eu comecei a testar com outros materiais. E meu trabalho final de faculdade foi fazer umas tramas com materiais que eram desperdiçados nas gráficas. Depois que me formei, fiz um estágio de dois meses em Zaragoza (Espanha), e quando acabou o curso eu vim passear em Barcelona. Assim que eu cheguei aqui, eu comecei a procurar trabalho em todos os lugares, até em bares, porque eu fiquei apaixonada pela cidade e decidi ficar um pouco mais.

Comecei a procurar estágio, mas ninguém queria me contratar. Aí eu comecei a fazer as bolsas de jornal de novo. Um amigo levou uma para o escritório em que ele trabalhava, e voltou com umas 30 bolsas encomendadas. Então eu comecei a fazer essas bolsas pra me manter aqui. Um foi passando pro outro e eu percebi que no Brasil isso não era tão valorizado como aqui.

Eu comecei a trabalhar em um escritório de design gráfico, mas sempre mantive o sonho de trabalhar com materiais reciclados e comecei a coletar esse material e desenvolver esse projeto em paralelo. Era um projeto que existia só em minha cabeça, eu queria salvar as pessoas e o mundo, era um projeto bem romântico na época (risos), que eu chamei de Ciclus.

Como era esse projeto no início?

O projeto foi pensado para ser auto-sustentável. A idéia era trabalhar com pessoas que eram capacitadas para trabalhar, mas que não estavam prontas para o mundo laboral, como as marginalizadas, que estavam na prisão, donas de casa, etc.

Eu queria desenvolver um produto em um ciclo mesmo: com material desperdiçado eu faria os produtos; esses produtos iriam para as lojas e seriam comprados pelos consumidores; os consumidores os desperdiçariam e seria o início de um novo ciclo. Quem estaria trabalhando em todo o processo seriam essas pessoas marginalizadas.

É um projeto que pode funcionar no futuro. Eu ainda tenho ele na cabeça, mas eu não podia começar grande desse jeito. Então eu comecei pequeno. Desenvolvi, em paralelo com meu trabalho no escritório de design, alguns produtos de complementos de moda, não só bolsas, mas colares, brincos etc.

Participei de vários mercados, desenvolvi a marca, botei o nome e vendi pra várias lojas daqui e da Alemanha. Foi quando eu vi que aquilo estava crescendo muito e começou a virar "gente grande". Fiquei um pouco com medo, resolvi desacelerar e começar a pensar de uma maneira mais profissional.

Em 2000, eu fiz um plano de negócios para Ciclus. Já estava trabalhando em outros projetos e uma empresa me contatou perguntando se eu não tinha nenhum presente unisex para eles. Eu disse que não, mas que eu poderia desenvolver alguma coisa dentro do brieffing. Surgiu então o primeiro projeto, que foi um pote de laranja 100% reciclado e que depois virava porta-vela. Isso foi minha porta de entrada no mundo do eco design. O dono ficou encantado, o projeto mudou todo o conceito da empresa dele.

Lancei o projeto já amadurecido da Ciclus em 2001. No ano passado, publiquei o site e junto com o projeto do Cavallum, o que fizeram o meu trabalho começar a ser mais divulgado. Agora eu estou trabalhado e mostrando a minha voz, antes eu trabalhava mais no anonimato, ainda trabalhava meio período em um escritório de design gráfico, mas há uns três anos eu saí dessa empresa e disse: “Não, agora eu vou realizar meu sonho”.

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"Muita gente se engana, pensa: 'Ah! Eu comprei isso aqui reciclado'. Mas aquele reciclado pode ser mais prejudicial que um material virgem"

 Como são os produtos que já foram desenvolvidos dentro desse conceito de sustentabilidade?

Todos os produtos da Ciclus tem esse conceito, a essência é essa. A filosofia principal é emocionar através do design e respeitar o meio ambiente, que já é uma filosofia minha de vida e que transmito pro meu trabalho. Os mais ligados ao design sustentável são os últimos que eu fiz, como o Cavallum, o pote de laranja e a Zenbag (bolsa de couro 100% reciclada). Eu tento sempre fazer com que as coisas se reaproveitem.

Minha maneira de trabalhar é sempre reduzir, porque o eco design é muito visto como trabalhar com coisas recicladas e esse conceito é muito antigo.

Hoje o mais importante é ser sustentável e não reciclado. Então para ser sustentável, às vezes, até se justifica usar plástico, a depender do projeto que você vai fazer. Se o projeto tem que ter muita durabilidade, o plástico é justificável, agora se você for fazer um projeto que vão jogar fora em dois segundo, aí não.

Eu sempre tento fazer com que as coisas sejam duráveis, até um cartão que vire porta-copos. Algo que você possa reutilizar depois, que tenha dupla função, isso pra mim é uma maneira de pensar sustentável.

Um design sustentável é você conseguir buscar utilidade em um produto que você faz e pensar se o usuário vai usar mesmo aquilo. Eu procuro sempre emocionar, surpreender e fazer com que seja útil. Na hora da produção também é todo um processo a ser pensado, desde o início até o final, pensando na maneira de produzir, reduzir o transporte, o peso.

Muita gente se engana ao pensar que “ah! Eu comprei isso aqui reciclado”, mas aquele reciclado pode ser mais prejudicial que um material virgem. Tem que pensar o que vai ser, quem vai usar, quanto tempo vai durar, então é mais profundo do que só a aparência.

Outra coisa que acontece com os produtos pensados de uma maneira sustentável é a redução dos custos. Você acaba economizando porque você pensa menos material, menos transporte, menos intermediários, menos, menos, menos. O resultado são produtos mais econômicos e projetos inteligentes, que não são só bonitos.

Conheça alguns produtos da Ciclus:

Zenbag

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A bolsa é feita de couro reciclado, um material bastante resistente e versátil/Fotos: Divulgação

Restos de couro triturados e misturados com látex se transformaram em um charmoso porta-documentos para marcar um evento. A pasta foi gravada com o nome da empresa e serve também como porta-laptops. O expediente do material pode ser usado como marcador de livros.

Cavallum

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A caixa/luminária é feita de madeira certificada e ganhou destaque em todo o mundo.

O Cavalium foi um projeto desenvolvido para uma empresa que queria um produto mais barato e que ao mesmo tempo mantivesse a tradição de dar um champanhe para os empregados no final do ano. Para resolver o problema ela sugeriu um champanhe ecológico e que tivesse uma surpresa a mais. Daí surgiu a embalagem de madeira certificada que se transformava em uma luminária de forma fácil e bonita.

Bakus

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O descanso de mesa pode ser montado com diferentes de rolhas de vinho e da forma que o dono preferir.

Esse é um descanso de mesa feito com rolhas de garrafas de vinho e é o primeiro objeto de uma linha chamada Mitos, em que o usuário ajuda a completar e a formar os produtos. A idéia do Bakus (na mitologia grega, o nome do Deus do vinho) é fazer com que o usuário “colecione seus melhores momentos”, por isso a bandeja vem vazia e cada um monta seu suporte encaixando as rolhas que te lembram bons momentos, como um jantar romântico, uma reunião com amigos ou uma comemoração especial.

Porta-velas

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Depois que comer as laranjas confeitadas, o dono pode usar o pote de vidro como suporte para vela.

A cava foi mais uma vez escolhida por uma empresa para presentear seus empregados no final do ano. O toque especial ficou por conta do pote de laranjas confeitadas que depois de consumidas se transformava em um porta-velas. Bastava virar o objeto de cabeça para baixo e colocar a vela no lugar indicado.

Acessórios de moda

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Diversos materiais que iriam para o lixo são utilizados para a confecção dos acessórios.

Os objetos feitos com flyers (espécies de cartão postal), fotolitos, tampinhas de latas e embalagens de bebidas se transformam em peças de moda, como brincos, anéis, bolsas e colares. Todos utilizam materiais que seriam descartados, são duráveis, podem ser usados de diversas formas e com outras peças como refis.

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