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16 de Março de 2010

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Uma farra de lixo no fundo do mar

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Fotos: Francisco Pedro / Projeto Lixo Marinho - Global Garbage Brasil

No dia 27 de fevereiro, pouco mais de uma semana após o carnaval, o surfista baiano Bernardo Mussi resolveu mergulhar com dois amigos na área do Farol da Barra, uma das praias mais famosas de Salvador. O objetivo era confirmar uma informação de que havia uma grande quantidade de lixo no fundo do mar.

Quando chegaram ao local, os mergulhadores logo constataram a “cena lamentável” e se sensibilizaram com a situação. Grande parte do lixo fora gerado durante os festejos carnavalescos, como provam os restos de fantasias e a grande quantidade de latas de cervejas encontradas no fundo do mar.

“Da superfície o visual parecia as imagens aéreas que vemos dos blocos de carnaval durante a festa momesca. Só que em vez de estarem pulando, dançando e se beijando ao som frenético e ensurdecedor dos trios elétricos, os foliões do fundo do mar estavam rolando de um lado para o outro em uma mórbida coreografia, empurrados silenciosamente pelo balanço do mar, sem dança, sem alegria, sem vida e sem poesia”, disse Bernando em seu blog.

Eles então decidiram fotografar o local enquanto retiravam as centenas de latas e garrafas encontradas na região. As imagens repercutiram na mídia e viraram o tema das conversas ao longo de toda a semana.

Nesta entrevista exclusiva ao portal EcoDesenvolvimento, Mussi fala da importância de medidas mais eficientes do governos, da participação dos artistas e lembra como todos são responsáveis pelo lixo que produz.

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EcoD: Você conseguiu despertar a sociedade e a mídia local para um grave problema de poluição debaixo das águas da praia do Porto da Barra. Como você descobriu que ali estava infestado de latas e lixo?
Bernando Mussi: Sempre mergulho e surfo por esta área. Após o carnaval fui com meu SUP (Stand Up Paddle - um pranchão de surf) e equipamento de mergulho checar a informação do amigo e biólogo Franciaco Pedro sobre a existência de um "bolsão" de lixo do carnaval concentrado em um canal próximo ao Farol da Barra. Quando vimos a cena ficamos chocados e resolvemos tentar chamar alguma TV para fazer a matéria, pois sabíamos que daria enorme repercussão. Após três dias, sem qualquer retorno dos contatos que havíamos feito, resolvemos retirar o lixo, já que estávamos com a consciência pesada por termos deixado aquilo lá por aquele período. Levamos máquina de fotografar e uma filmadora com caixa estanque para documentar.

EcoD: Quem participou da ação?
Bernado Mussi: Existem diversos mergulhadores e surfistas que fazem isso rotineiramente por puro prazer. Nós que fizemos a ação pertencemos a este pequeno grupo de pessoas. O que ocorre é que a quantidade de lixo pelas praias só tem aumentado, e com a realização de grandes eventos nestas áreas, a exemplo do "Música no Porto", "Espicha Verão" e o próprio carnaval, a situação se agrava sobremaneira. Foi o que vimos após o carnaval. Na ação estávamos presentes eu, que sou surfista e faço meus mergulhos, o biólogo Francisco Pedro, o surfista José Augusto e o mergulhador, surfista e fotógrafo profissional Fabio Medeiros, que fez as imagens subaquáticas em vídeo. Na hora, o Elton Riceli, mergulhador do Mato Grosso, viu a ação e juntou-se a nós.

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EcoD: Qual foi a quantidade retirada e o destino que vocês deram a este lixo?
Bernando Mussi: Quando vimos o canal na primeira vez, eram mais de mil latinhas e garrafas plásticas. Após três dias, no dia da ação, conseguimos retirar cerca de 600 itens. Para nossa sorte, depois que retiramos o lixo do mar e colocamos na calçada do Farol da Barra para chamar a atenção das pessoas que circulavam por lá, estavam passando vários catadores de lixo em direção ao evento "Espicha Verão", no Porto da Barra. Eles recolheram tudo e ficaram super satisfeitos. A ação ainda gerou satisfação para estes nobres cidadãos.

EcoD : Você, em seu blog, já havia denunciado o lixo nas praias de Salvador. A que você atribui essa conduta?
Bernando Mussi: Primeiro à falta de educação generalizada para o trato com esta questão. Depois, à falta de força do poder público e dos agentes envolvidos na produção e realização de festas [em praias] para fiscalizar e inovar em ações. Uma pena que a mentalidade destas pessoas esteja muito aquém das necessidades sociais essenciais dos nossos dias.

EcoD: Como cidadão, o que espera dos órgãos públicos, artistas e promotores de eventos para que solucionem o problema?
Bernado Mussi: Espero ações articuladas com muita criatividade e inovação. Dos órgãos públicos esperamos medidas efetivas para o cumprimento da lei, que é o que basta, pois estamos tratando de agressões ao patrimônio público, ao meio ambiente e à saúde da população. Dos artistas e promotores, que sejam o mais criativos que puderem no sentido de agregar valores socialmente positivos às festas. O carnaval é uma excelente ferramenta de transformação social. Um enorme produto que deve ser explorado para o bem da nossa cidade e da nossa gente. Por exemplo, criar músicas educativas e oferecer prêmios para as mais tocadas. Fazer também, além do "Rebolation", o "Education". Além do "lobo mau vai te comer", o "lobo mau vai te ensinar", e além do "vale night", o "vale saúde". Nossa turma é muito criativa para isso. Ademais, depois dos deuses desta terra santa, são os artistas que mais conseguem influenciar o comportamento da nossa gente. É só usar este poder para promover aquilo que nossa sociedade mais precisa: educação e saúde. Não se pode esperar tudo somente dos órgãos públicos. Está provado que não possuem capacidade plena para tal. Assim, o meio ambiente agradecerá! 

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EcoD: Como conseguiu mobilizar os meios de comunicação? 
Bernado Mussi: A mobilização só ocorreu depois que um amigo que mora na Alemanha e é responsável pelo projeto Global Garbage replicou a matéria do meu blog com as fotos da ação para uma extensa lista de contatos. A difusão foi imediata e até os veículos que havíamos contatado após localizar o lixo no primeiro mergulho correram atrás do "furo". Fizemos a ação por puro prazer, pela consciência que desenvolvemos ao longo de nossas vidas em contato com o oceano e com a natureza. Nenhum de nós esperava um resultado tão significativo em favor da conscientização das pessoas.

EcoD: E quais foram as repercussões que você já pôde acompanhar?
Bernando Mussi: Quanto à repercussão, acompanhei no início quando ainda conseguia responder os inúmeros pedido de várias pessoas ligadas a outros blogs, sites, universidades, ONGs, TVs, jornais, rádios e pessoas comuns querendo usar o material para divulgar, para fazer palestras, trabalhos universitários, notícias etc. Agora já não é possível dimensionar o alcance da ação. Sei que chegou com muita facilidade aos mais diversos cantos do Brasil e também por diversos países ao redor do planeta. A Internet é uma ferramenta espetacular! O fato é que estamos super alegres e satisfeitos, de verdade, por sermos parte desta discussão que poderá gerar alguns frutos positivos para as próximas ações. Preocupante, mas não surpreendente, é que após tanta exposição e sensibilização, não vimos manifestações significativas dos órgãos públicos, dos empresários do setor de eventos na Bahia, das empresas patrocinadoras e dos nossos artistas do carnaval. Pessoas diretamente ligadas ao problema e que podem mudar esta cena com muito pouco esforço. Ainda acredito que vá acontecer. 

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EcoD: Sobre lixo em praias, você tem propriedade para falar, não é? Na sua relação com o mar, sendo surfista e convivendo com o ambiente marinho, o que você já viu que mais te chamou a atenção?
Bernado Mussi: Realmente tenho alguma experiência com o lixo pelas praias. Em 35 anos de surf e 40 encarando o salitre de frente, posso dizer que conheci praias urbanas ainda virgens, mas que hoje são verdadeiras aglomerações humanas, comerciais e de lixo. Tive o prazer de conhecer praias que praticamente foram engolidas pela especulação imobiliária e comercial. Por isso acho que tenho algum embasamento para falar do assunto. Porém, de quase tudo que já presenciei aquele "bolsão" de latas e garrafas plásticas amontoadas junto com restos de camisetas de blocos de carnaval, adereços e outros objetos relacionado à folia foi muito marcante. O contraste entre tudo que se fala de bom do carnaval e tudo que se faz de ruim ao meio ambiente estava ali. Alegria misturada com a tristeza, a luz com a escuridão, a riqueza com a pobreza, a ganância com a consciência, a mentira com a verdade. Cena forte e lamentável.

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EcoD: Toda vez que vai à praia você recolhe o lixo que encontra, em um “trabalho de formiguinha”. É possível revertermos esta situação com ações individuais?
Bernando Mussi: Não creio ser possível reverter. Acho que diminuímos sutilmente a velocidade do processo negativo que este lixo causa ao meio ambiente e à saúde das pessoas. Acredito na articulação de esforços focados no mesmo objetivo. É necessário inovar e criar condições de dialogar até a exaustão com os que promovem este circo degradante. É um sistema que atropela os fundamentos mais prioritários da vida e que navega com velocidade em direção contrária aos interesses do meio ambiente. Por isso sou a favor do diálogo, de usar a inteligência e a sagacidade para conciliar interesses dentro de um panorama global, real. Os ambientalistas e as pessoas ligadas à saúde e educação possuem esta capacidade adormecida. Basta desenvolver habilidades para negociar, para enxergar os pontos fracos dos que pensam diferente, para demonstrar humildade e sabedoria ao mesmo tempo. As vaidades devem ficar de lado assim como a personificação das palavras ácidas que vão vir da outra parte, ardilosamente. Articular o que ainda está muito difuso é ganhar força para mudar o curso desta situação. E para melhor.

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