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29 de Abril de 2011

 

Impacto do lixo flutuante em animais marinhos em águas brasileiras

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Material sintético retirado dos conteúdos gástricos de albatrozes e pardelas no sul do Brasil / Fotos: Aurélea Mäder

por Aurélea Mäder, da Unisinos e ARDEA Consultoria Ambiental

O ambiente marinho tem tráfego intenso e constante de navios, fator esse que contribui ainda mais para a poluição dos oceanos por derivados de petróleo e diversos tipos de resíduos sólidos. Esses resíduos são de todas as formas, anzóis, plásticos, linha e redes de pesca são lançados ao mar por vias continentais e em grande parte durante a carga e descarga de navios. Todo esse lixo pode ser ingerido acidentalmente pelos animais, que entre outros efeitos, bloqueia o trato digestivo, resultando em efeitos subletais, e até mesmo a morte (Laist 1987) ou haver engate acidental, podendo levar o animal a morte.

A análise do conteúdo estomacal de animais marinhos pode contribuir para termos uma ampla visão da poluição dos mares além de contribuir no manejo e gerenciamento da vida silvestre, trazendo informações sobre disponibilidade de alimentos e dinâmica de populações. Cada vez mais pesquisadores vêm relevando uma grande quantidade de itens ingeridos com origem antrópica por estes animais (Derraik 2002, Ryan 1988, Blight & Burger, 1997).

Muitos animais marinhos acabam selecionando suas presas de forma equivocada, como plástico por água-viva ou até mesmo ingerindo outros animais repletos de lixo marinho e assim se dissipando pela cadeia alimentar trazendo efeitos letais e sub-letais.

Procellariiformes

As águas brasileiras do Atlântico são áreas de alimentação utilizada por cerca de 40 espécies de aves Procellariiformes (albatrozes, petréis e pardelas). Carcaças de aves vêm sendo encontradas nas praias brasileiras com grande quantidade de lixo em seus conteúdos gástricos (Mäder et al. 2010). Este é um problema em potencial para os procelarídeos, pois apresentam grande incidência de lixo em seus tratos digestivos quando comparado às outras aves marinhas (Nisbet 1994, Robarts et al. 1995), pois não regurgitam o que é indigestivo como as outras espécies. Albatrozes e pardelas são comuns seguidoras de embarcações e aproveitam os seus descartes, que muitas vezes são indigestos.

Numa pesquisa com dieta de 77 tratos digestivos de aves marinhas foram registrados o plástico, nibs e nylon em 61% das amostras e estes representaram 85% dos itens antrópicos encontrados. As espécies mais afetadas foram o bobo-grande (Puffinus gravis) (12/12), a pardela-preta (Procellaria aequinoctialis) (6/7), o albatroz-de-sombracelha-negra (Thalassarche melanophris) (14/17). Estes apresentaram uma média de 3,58 itens antrópicos por estômago (Mäder et al. 2010).

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Jovem albatroz-de-sombrancelha-negra encontrado morto nas praias do Rio Grande do Sul, Brasil.

Os Procellariiformes têm uma grande longevidade, baixa mortalidade de adultos e baixa produtividade. Tais características os tornam, especialmente os albatrozes, extremamente vulneráveis a fatores de mortalidade que atingem as aves em idade de reprodução e juvenis. Estes jovens que apresentaram alta incidência de lixo em seus tratos digestivos por não eliminá-lo como fazem os adultos, que os regurgitam para o ninhego. Dos 168 exemplares examinados deste conjunto de espécies, 91 tinham plástico na moela (Mäder et al. 2010a).

Além disso, os pedaços de plástico ou qualquer item de origem antrópica podem bloquear o trato digestivo, o que pode levá-los a morte e outro efeito é a redução alimentar, causada pela diminuição do volume no estômago e então, reduzindo o estímulo alimentar (Ryan 1988).

Pinguim-de-Magalhães

De 65 estômagos de pinguins-de-magalhães (Spheniscus magellanicus) analisados 62% apresentaram material sintético. Os itens antrópicos mais encontrados foram nibs e snips (partículas naturais do plástico e produto utilizado para limpeza de navios) (49,4%) e o plástico que foi bastante presente nas amostras (19%). No total 62.3 % apresentavam itens de origem antrópica.

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Nibs encontrados no trato digestivo de pinguins-de-magalhães necropsiados no Rio Grande do Sul, Brasil.

Alguns estômagos de pinguins apresentavam em seus tratos digestivos somente materiais sintéticos. Em torno de 18% não apresentaram itens alimentares, e estes, apresentaram uma grande quantidades de parasitos estomacais (Mäder et al. 2010b).

Muitas vezes esses animais sentem-se saciados com o estômago repleto de lixo e param de buscar por alimentos, ficando extremamente vulneráveis e enfraquecidos nutricionalmente podendo até chegar a óbito (Mäder et al. 2010c).

Tartarugas marinhas

Além das aves marinhas, outros grupos de animais marinhos sofrem com esta poluição. Em nossos estudos com tartarugas marinhas foram encontradas no total 29 tartarugas nos dois transectos, sendo 28 indivíduos da família Cheloniidae, onde 16 eram C. mydas, 7 C.caretta, 1 E. imbricata, 1 L. olivacea e apenas 1 indivíduos da família Dermochelyidae, da espécie D. coriacea.

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Material sintético retirado do estômago de uma tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) no sul do Brasil.

Todos os indivíduos necropsiados apresentaram algum tipo de material de origem antrópica (100%) em seus tratos digestivos, destes, 63% eram plásticos rígidos e flexíveis. Entre eles um volante de brinquedo foi encontrado (Mäder et al. 2007a).

Mamíferos marinhos

Em mamíferos marinhos observamos uma grande quantidade de engates incidentais principalmente de toninha (Pontoporia blainvillei). Estes podem ocorrer em redes de pesca de espera ou em redes de pesca vagantes ao mar, que existem em grande quantidade a deriva devido à perda e ao descarte deste material no mar por pescadores. Também retiramos de um estômago de toninha um anzol (Mäder et al. 2007b).

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Rede de pesca engatada no rosto de uma toninha (Pontoporia blainvillei) encontrada nas praias do Rio Grande do Sul, Brasil. Foto: Sea Shepherd

As estimativas de mortalidade para essa espécie no Rio Grande do Sul indicam em torno de 1.000 indivíduos capturados anualmente (Siciliano, 2006) numa população estimada em 15.975 toninhas no litoral do Rio Grande do Sul (Secchi et al., 2000). A toninha encontra-se citada na Lista Oficial das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção (IBAMA, 2003), tornando-se necessário investir em esforços para a conservação da espécie.

Conservação

Muitos animais que vivem no ambiente marinho encontram-se ameaçados de extinção, como algumas aves marinhas, tartarugas e mamíferos marinhos e o lixo flutuante nos mares pode agravar estes declínios populacionais.

Muitas ações positivas estão sendo tomadas em prol das conservações destes grupos: O Projeto Albatroz junto ao governo brasileiro (IBAMA e MMA) elaborou o Plano de Ação Nacional para a Conservação de Albatrozes e Petréis (2006) que apresenta informações sobre a biologia do grupo, identifica seus principais fatores de ameaça e propõe uma série de medidas para implementação em diversas áreas temáticas. A Portaria N° 91 de 27 de agosto de 2010 aprovou o Plano de Ação Nacional da Toninha, a fim de evitar o declínio populacional na sua área de ocorrência no Brasil (ES 18º 20′S até RS 33º 45′S).

A Portaria Nº 135 de 23 de dezembro de 2010 aprovou o Plano de Ação Nacional para a Conservação das Tartarugas Marinhas, estabelecendo seu objetivo o aprimoramento de ações de conservação e pesquisa direcionadas à recuperação e sobrevivência das 5 espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil, em níveis saudáveis capazes de exercerem seus papéis ecológicos. O Centro Nacional de Pesquisa e Conservação das Aves Silvestres (Cemave) vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), realizou novembro de 2010 o Workshop que criou o Projeto Nacional de Monitoramento do Pingüim-de-Magalhães que tem por objetivo conservar a espécie em sua época migratória no Brasil.

Dentre estas ações, metas relacionadas ao impacto do lixo sobre a fauna marinha são escassas, portanto estudos que revelem informações sobre esse tema são de extrema importância.

Aurélea Mäder é bióloga e Mestre em Diversidade e Manejo de Vida Silvestre pela Unisinos e diretora da ARDEA Consultoria Ambiental – Rio Grande do Sul.


Referências:

BLIGHT, L. K., BURGUER, A. E. (1997). Occurrence of plastic particles in seabirds from the Eastern North Pacific. Mar. Pollut. Bull., Kidlington, v. 34, n. 5, p. 323 – 325.

DERRAIK, J. G. B. 2002. The pollution of the marine environment by plastic debris: a review. Wellington: University of Otago. Mar. Pollut. Bull., 44( 9): 842 – 852.

IBAMA. 2003. Lista Oficial das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção. Diário Oficial de União, 22-05-2003.

LAIST, D.W. 1987. Overview of the biological effects of lost and discarded plastic debris in the marine environment. Mar. Pollut. Bull., 18: 319–326.

MÄDER, A.; SANDER, M.; CASA JR., G. E.; ALTENHOFEN, R. J.; ANJOS C. S. DOS; LEÃO, P. P.; BICCA, L.B. 2007a. Impacto antrópico em tartarugas marinhas no sul do Brasil. Resumos do XII Congresso Latino-Americano de Ciências do Mar - XII COLACMAR.

MÄDER, A.; SANDER, M.; CASA JR. 2007b. Ocorrência de toninha (Pontoporia blainvillei) capturadas acidentalmente em artefatos de pesca no sul do Brasil. Resumos do XII Congresso Latino-Americano de Ciências do Mar - XII COLACMAR.

MÄDER, A.; COSTA, A. S.; CASA JR., G. E.; SANDER, M. 2010a. Ingestão de lixo marinho por Procellariiformes arribados nas praias do Rio Grande do Sul. Resumos expandidos do III Congresso Brasileiro de Oceanografia – CBO’2010. FURG.

MÄDER, A., SANDER M. E CASA JR., G. 2010b. Pinguim-de-Magalhães arribados na costa do Rio Grande do Sul: análise de dieta e ecologia alimentar. Resumos expandidos do IV Congresso de Oceanografia – CBO’2010. FURG.

MÄDER, A., SANDER M. E CASA JR., G. 2010c. Ciclo sazonal de mortalidade do pinguim-de-Magalhaes, Spheniscus magellanicus influenciado por fatores antrópicos e climáticos na costa do Rio Grande do Sul, Brasil. Revista Brasileira de Ornitologia. 18(3): 228-233.

NISBET, I. C. T. 1994. Effects of pollution on marine birds. Pages 8-25. in D. N. Nettleship, J. Burger and M. Gochfeld (eds.) Seabirds on Islands: Threats, Cases Studies and Action Plans. BirdLife Conservation Series No. 1, Cambridge, U. K.

ROBARDS, M.D., J.F. PIATT, AND K.D. WOHL. 1995. Increasing frequency of plastic particles ingested by seabirds in the subarctic North Pacific. Mar. Pollut. Bull., 30: 151–157.

RYAN, P. G. 1987. The incidence and characteristics of plastic particles ingested by seabirds. Mar. Environ. Res., Kidlington, 23: 175 – 206.

RYAN P. G. 1988 Effects of ingested plastic on seabirds feeding: evidence from chickens. Mar. Pollut. Bull. 19 (3) 125-128.

SECCHI, E.R.; OTT, P.H.; DANILEWICZ, D. 2000. Report of the Fourth Workshop for Coordinated Research and Conservation of the Franciscana Dolphin (Pontoporia blainvillei) in the Western South Atlantic. Porto Alegre. 89 p.

SICILIANO, S.; MORENO, I.B.;SILVA, E.D. e; ALVES, V.C. 2006. Baleias, botos e golfinhos na Bacia de Campos. Rio de Janeiro: ENSP/FIOCRUZ. 100 p. il.

VOOREN, C. M.; FERNANDES, A. C. 1989. Guia de albatrozes e petréis do sul do Brasil. Porto Alegre: Sagra.

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