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Voluntariado

04 de Dezembro de 2011

 

Quando um projeto de vida vira a possibilidade de um futuro melhor

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Apresentação dos MM quando a ONG ainda estava no início/Foto:Acervo pessoal

O grupo musical Meninos do Morumbi (MM) já encantou plateias de vários lugares do mundo (Estados Unidos, Alemanha, França) com a sua qualidade musical. Criada há 15 anos pelo maestro Flávio Pimenta, ela é formada por meninos e meninas de São Paulo, em sua maioria moradores de favelas da capital. Mas se engana que esse é mais um trabalho de ONG querendo ajudar as crianças em risco.

A MM tem quase uma postura de negócio social, e consegue arrecadar grande parte do dinheiro necessário com o próprio trabalho. Os meninos que entram na ONG são ensinados a buscar um futuro melhor para si, com lições de cidadania, boas escolhas e empenho. A música é apenas um pretexto para desenvolver esse lado humano nas crianças, mas também vira um emprego, educação e sentimento de pertence do mundo.

Nesse Dia do Voluntário (que será comemorado no dia 5 de dezembro), o EcoD traz um modelo de voluntariado diferente, onde o criador encontrou na criatura um modo de realizar seu sonho. E os envolvidos encontraram um sonho para sonhar junto.

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Flávio Pimenta (perfil)/Foto:Acervo pessoal

Portal EcoDesenvolvimento: Desde quando você estuda música?

Flávio Pimenta: Eu comecei a estudar música com nove anos de idade. Comecei com música erudita, percussão clássica, e na juventude eu tocava bateria, percussão, me apresentava com artistas, e continuei estudando. Me formei na Escola Municipal de Música de São Paulo... Mas depois dos meus 20 anos eu migrei para outra área, com projetos com empresas, escolas, estúdios, produção de jingles, até trabalhei com fábricas americanas, quando abriu o mercado de projetos pedagógicos de marketing, ajudando as fábricas a se instalarem no Brasil com parcerias.

Como surgiu a ideia de criar a ONG?

Em 1996, quando eu estava prestes a me mudar do Brasil. Eu moro no Morumbi, que é um bairro até legal de São Paulo, mas é cercado de favelas, e eu acabei chamando para o meu estúdio, na minha casa, algumas crianças que estavam de bobeira na rua, pedindo esmolas. Para convencê-los a entrar na onda das aulas eu os chamei para a ‘minha banda’, assim eles se interessaram rápido.

Primeiro vieram três, depois seis e dez. Eu ensinava música a eles da mesma forma que ensinava os meus alunos regulares. Até que nos apresentamos e, mais tarde, fui procurado por uma instituição que lidava com crianças da FEBEM, para dar aulas de música também, e a ONG surgiu naturalmente.

Acabei não indo embora do Brasil, fiquei por aqui, e em 1997 a ONG foi formalizada.

Qual o papel da música nesse projeto?

Olha, eu costumo dizer que a música é uma boa armadilha, mas ela não muda ninguém. Se a música conseguisse sozinha transformar as pessoas, Amy Winehouse não era o que era, Jim Morrison não tinha morrido, nem Jimi Hendrix... Você vê que nem todas as pessoas que são bons músicos são bons cidadãos, boas pessoas, com bons valores. Eu acho que a música é sedutora, aquela história de tocar junto, conviver em banda, viajar, aprender a ouvir e a compartilhar música, nesse sentido, é um contexto sedutor, como outros poderiam ser.

Nosso trabalho não é exatamente ensinar nada, embora temos inglês, informática, pintura, escultura, dança, canto, esporte... um monte de curso. A ideia não é ensinar repertório a eles, a gente quer sim, blindá-los das coisas ruins da rua e a gente também pretende que eles vivenciem bons valores. Porque bons valores ninguém ensina, você tem que vivenciar. É aquele tipo de coisa que se você tem é por conta do seu pai ou de sua mãe ou amigos, e nós aqui somos um espaço de educação para valores.

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Apresentação musical em evento sobre a África do Sul/Foto: Ana Costa/Divulgação

Como é feita essa educação para valores além dos cursos oferecidos?

Através de cursos, por exemplo, agora temos um curso de meio ambiente com a Universidade de São Paulo, sobre sustentabilidade, questões ligadas à reciclagem, entre outras coisas. Nós já tivemos cursos na área de direitos humanos com uma professora da Faculdade de São Francisco. O tempo todo tentamos abrir para eles essa janela de coisas boas.

Mas quando a gente fala de educação para valores, é importante entender que nós somos parceiros da escola, ganhamos um prêmio do UNICEF por nossas parcerias com escolas públicas. Nós não admitimos que nenhum menino esteja aqui sem estar na escola regular. Outra preocupação é o atendimento da família, nós temos uma parceria com a pós-graduação da PUC na área de família e comunidade, para dar atenção aos pais e a família da criança.

Como era o dia a dia da ONG no início?

Nós começamos na minha casa, depois eu aluguei um imóvel e no ano seguinte, em 1997, ela se tornou pessoa jurídica formal. Viramos uma instituição sem fins lucrativos que funcionava numa casinha alugada, mas os ensaios aconteciam na rua porque era um grupo muito grande, nós tínhamos já mais de cem jovens no primeiro ano. Depois alugamos um prédio grande, e compramos esse prédio em 2004.

Esse foi um projeto original, sabe? A gente não pede dinheiro às pessoas e foge do estigma assistencialista. Nós temos 80% do orçamento autossustentável e os outros 20% com projetos de lei de incentivo, de parcerias com empresas na área de primeiro emprego. Nós sobrevivemos de shows e produtos que vendemos. Nossas apresentações são muito requisitadas e, em contra-partida, pedimos um valor de referência em forma de doação, que é um cachê disfarçado. Isso, mais a venda de CDs e DVDs, com gravadora fora do Brasil e copyrights soma 80% do nosso orçamento.

Quem são as crianças que são assistidas pelo projeto?

Nós já atendemos, nesses 15 anos de trabalho, 13485 crianças até julho de 2011. Matriculadas hoje são 1.700 e poucas. Mas nós fazemos essas inscrições gratuitamente, como manda a alma da gente. Nós damos prioridade as crianças mais vulneráveis, mas também recebemos crianças de classe média e alta. Não fazemos nenhuma distinção de credo, cor, classe social... aqui dentro é tudo gratuito, todo mundo usa a mesma camiseta e a gente administra as diferenças tentando lidar com isso.

 


Em 2007, a banda Meninos do Morumbi se apresentou com Sandra de Sá no Auditório do Ibirapura (SP)/ Vídeo: Film Planet, com direção de Flávia Moraes

Como faz para a criança se inscrever no projeto?

Não há exame ou condição para a inscrição. Apenas exigimos que, depois de inscrita, ela esteja matriculada em uma escola regular e frequente os cursos. Essa é a questão mais importante: a escola e as notas. Qualquer criança de cinco a 12 anos pode se matricular, nós ficamos com ele até a universidade, conseguimos bolsas, primeiro-emprego após os 16 anos, como o ECA permite.

Mas só recebemos até 12, porque a gente quer eles bem jovens e novinhos para poder acompanhar o crescimento. Depois dos 12 eles estão muito prontos, já com uma identidade, às vezes, bem definida e a gente tem mais trabalho.

Você diz que o trabalho realizado pela ONG não tem objetivos assistencialistas e sim de resgatar a auto-estima das crianças assistidas. Fazendo uma análise mais profunda das crianças carentes que frequentam o Meninos... qual a importância desse trabalho na vida delas?

Veja, aqui elas podem se desenvolver em um espaço blindado às coisas ruins que a rua oferece, e podem também ter acesso a coisas que, principalmente as crianças de um nível socioeconômico mais baixo, não conseguiriam alcançar. Um exemplo é o curso de inglês, da Cultura Inglesa, que é o curso oficial do conselho britânico; e as viagens para fora do Brasil.

Esse também é um lugar onde a criança dá conta sozinha de que ela tem que empreender algo e organizar seus estudos. Ela entende que sucesso é 70% trabalho duro e 30% sorte e talento, e isso reflete na maneira de ela entender a vida.

Hoje a gente já está recebendo a segunda geração. Nossos primeiros exemplos de sucesso fizeram universidades e trabalham, e já estão trazendo os filhos para cá.

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Foto: Ana Costa/Divulgação

Qual a importância desse projeto para você? Ele mudou a sua vida de alguma forma?

Olha, eu não parei a vida para ajudar coitadinho. Eu sou músico, apaixonado pela música, e mesmo que a ONG me tome muito tempo, em ensaios, arranjos e apresentações, eu tenho a minha própria empresa, sou empresário também de música. Eu acho que se eu pudesse criar um quadro da minha vida, eu diria que peguei o meu projeto de vida (que era ser músico, fazer turnê, tocar e compor, alcançar sucesso), peguei essa minha ambição e coloquei todo mundo dentro.

Ninguém me vê aqui como fundador ou diretor. Eu na verdade sou o band-leader, que cuida da banda, e acho que é por isso que funcionou. Isso também foi um norte porque a gente não dá resto pra criança. Tudo aqui tem muita qualidade, a gente não dá roupinha usada, brinquedinho usado. Todas as roupas, instrumentos, materiais usados têm muita qualidade e é muito bonito de ver.

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