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Carros e Transportes

17 de Novembro de 2011

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A falta de transporte público no Brasil e os desafios para superar essa realidade

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Imagem da ciclovia recém-inaugurada no bairro de Moema, em São Paulo/Foto: Mobilize(Divulgação)

Enquanto São Paulo e Cuiabá são as capitais brasileiras que mais enfrentam problemas de mobilidade, em função do uso excessivo de automóveis e bicicletas, Rio de Janeiro e Curitiba são as que apresentam melhores indicadores sustentáveis, com suas ciclovias (Rio) e bom transporte público (Curitiba). Esse dado foi obtido em um estudo inédito realizado pela organização Mobilize Brasil, divulgado em 4 de novembro.

A preocupação com o tráfego das cidades não é um assunto novo, mas vem sendo abordado com cada vez mais frequência enquanto os problemas de locomoção nos grandes centros urbanos só aumentam. A produção de pesquisas como essa se mostra necessária, principalmente em um país que ainda privilegia o transporte particular, em detrimento do público.

Foi pensando nisso que o consultor de sustentabilidade Ricky Ribeiro criou a Mobilize Brasil. Após cursar um mestrado em Sustentabilidade, na Espanha, ele se encantou em "como a qualidade de vida das pessoas poderia ser infinitamente maior" em uma cidade mais compacta e acolhedora. Mesmo depois de diagnosticado com ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), no final de 2008, Ricky não deixou de estudar sobre o assunto e resolveu criar um portal que agregasse, produzisse e disseminasse conteúdo de qualidade e relevância sobre mobilidade.

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Luiz Henrique da Cruz Ribeiro, o Ricky, criou a organização em 2011/Foto: Divulgação

Na entrevista abaixo, respondida por Ricky Ribeiro e o jornalista Thiago Guimarães, conversamos um pouco sobre o cenário da mobilidade brasileira e quais os principais desafios a serem enfrentados.

Portal EcoDesenvolvimento.org - Você poderia fazer um panorama geral da mobilidade do Brasil?

Ricky Ribeiro - Salvo raras exceções, as cidades brasileiras investiram durante décadas em obras voltadas para o transporte individual e trataram todas as outras formas de deslocamentos de transporte em segundo lugar. Hoje, todas as grandes cidades do Brasil enfrentam sérios problemas de mobilidade, em maior ou menor grau, que afetam diretamente a qualidade de vida da população. Felizmente o tema está ocupando um espaço cada vez maior na mídia e vemos iniciativas como o PAC Mobilidade aparecerem, embora nenhum grupo político tenha assumido uma transformação que possa representar uma mudança profunda na estrutura de mobilidade de nossas cidades.

Qual a principal diferença entre o trânsito das capitais e as cidades do interior?

Há uma diferença na dimensão do problema, muito mais carros concentrados em um espaço físico proporcionalmente menor, e na natureza do problema, já que o padrão de deslocamentos costuma ser significativamente mais complexo em uma metrópole, em função da diversidade de oportunidades e de estruturas urbanas que existem nela. E isso significa que metrópoles precisam buscar soluções para o trânsito que vão muito além da gestão do tráfego e da abertura de novas vias.

Você acredita que os investimentos para a mobilidade visando a Copa trarão melhorias para desafogar o tráfego das capitais?

É muito difícil dar uma resposta genérica neste caso. Mas eu arriscaria dizer: muito pouco. Primeiro, em muitos casos, não se sabe se os investimentos que começaram tardiamente a serem realizados trarão de fato benefícios até 2014. Segundo, as obras em projeto ou em andamento representam respostas pontuais a problemas estruturais das cidades. O mais importante seria estruturar e consolidar políticas de uso do solo e transportes voltadas ao médio e ao longo prazos.

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Thiago Guimarães, no centro, no primeiro Fórum Mobilize/Foto: Divulgação

Você vê algum modelo em especial de mobilidade para guiar as cidades brasileiras? A inserção de ciclovias ou veículos leves?

Thiago Guimarães - Como o fenômeno da metropolização é muito acentuado no Brasil, as soluções para esses grandes e complexos aglomerados urbanos deve passar, em geral, sempre por uma combinação de meios de transporte. Da perspectiva da mobilidade sustentável, deve-se privilegiar a estruturação de redes e sistemas de transporte coletivo (de média e alta capacidade) e de transporte não motorizado individual. Em ambos os casos, há um grande potencial ainda a ser explorado.

Um dado de julho, divulgado pela Folha de S. Paulo, mostrou que mais de 378 pessoas foram vítimas de acidente de trânsito e mais de 13 mil sofreram lesões só no primeiro semestre de 2011, na cidade de São Paulo. O número foi maior que os dados sobre latrocínio, por exemplo. Este é um grande desafio para a cidade...

Sem dúvida, os dados sobre acidentes de trânsito no Brasil devem ser motivo de muita preocupação. A sociedade não pode mais admitir essa matança associada a uma combinação de vários fatores: crescimento da frota de veículos, deficiências na educação para o trânsito, precária fiscalização, condições de segurança viária, entre outros. O poder público tem que sair urgentemente da inércia nesta área.

Quais outras capitais estão sofrendo com a insegurança no trânsito e quais as proporções?

O Estudo Mobilize 2011 levantou esse indicador para 9 cidades brasileiras: São Paulo, Cuiabá, Brasília, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre, Natal, Rio de Janeiro e Curitiba.

Até mesmo Curitiba, que é o modelo brasileiro de mobilidade urbana, recebe críticas pela quantidade de carros por habitantes (a maior entre as capitais brasileiras). Você acha que o uso do carro é um problema cultural brasileiro?

A alta quantidade de carros não é necessariamente um problema. Em uma comparação mundial, o Brasil não desponta no topo dos países com as mais elevadas taxas de motorização. O problema é quando o automóvel é usado irracionalmente e abusivamente, em boa parte em função da falta de alternativas de transporte que sejam acessíveis economicamente, eficientes e confortáveis. Não acredito que o uso do carro seja um problema especificamente brasileiro.

O problema é principalmente de políticas públicas (as condições do transporte coletivo na maioria das cidades dizem por si só), mas há certamente aspectos culturais envolvidos. Comportamentos individuais na escolha do modo de transporte podem mudar com mais informação e com mais inovação - com mais gente comprovando que é possível se deslocar de outras maneiras nas cidades, e com ganhos de qualidade de vida.

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