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03 de Agosto de 2012

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"Entregar óleo à catadores proporciona inclusão social", afirma integrante do MIT

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Grupo de estudantes na ARES, instalação do sistema de filtragem do óleo de cozinha usado
Fotos: Arquivo pessoal

Por Lise Lobo

Cerca de 500 mil pessoas no Brasil são catadores de materiais reaproveitáveis. No entanto mesmo que o trabalho tenha sido legitimado nas decisões do governo sobre a gestão de resíduos e reciclagem, o grupo carece de mais apoio, assim como a população necessita de uma melhor conscientização de descarte correto do óleo.

Nos Estados Unidos, o Instituto de Tecnologia de Massachussetts (MIT) desenvolveu o Projeto Green Grease, uma iniciativa do MIT Colab que é um laboratório de inovação em comunidades. O projeto visa auxiliar o catador de óleo usado a alcançar o engajamento civil, melhorar práticas comunitárias, informação, mobilização política e geração de renda.

O CoLab facilita a troca de experiências e recursos entre o MIT, organizações comunitárias e engaja estudantes a serem praticantes desta abordagem para mudança socioambiental nas comunidades.

Danos do óleo descartado no ralo de pias:
  • 1 litro polui milhares de litros de água
  • Compromete tubulações e caixas de gorduras
  • Impermeabiliza caixas de passagem e fossas sépticas
  • Entope encanamento
  • Sobrecarrega as estações de tratamento de esgotos

Ciente da oportunidade da geração de renda aos catadores com o óleo de cozinha usado, a equipe do Green Grease iniciou os trabalhos no Brasil em 2010 e hoje conta com parceiros locais, tais como a Universidade de São Paulo (USP), Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), cooperativas de catadores na região da Grande São Paulo e Clínica de Negócios Inclusivos da FGV.

No Brasil o foco está em duas frentes de trabalho: o desenvolvimento de tecnologia para agregar valor ao óleo de cozinha e campanhas públicas de conscientização. A coordenação é de Laura Fostinone, que conheceu o Green Grease quando trabalhava na Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares Fundação Getúlio Vargas (ITCP-FGV) em 2010. Ela manteve contato durante a implantação da segunda fase do projeto em 2011, como mesma explica: “Contribuí como consultora, hoje coordeno dois projetos do MIT aqui no Brasil”.

Segundo Fostinone, o projeto trabalha para que os catadores possam proporcionar serviços específicos no tratamento dos materiais e agregar valor à cadeia de reciclagem. Por isso, os estudantes do MIT, da USP e demais parceiros acompanham as cooperativas para auxiliá-los a atingir esta meta.

“Identificamos que a principal demanda, atualmente, é aumentar o volume de coleta. Por isso, é fundamental, conscientizar a população sobre os malefícios do descarte incorreto do óleo de cozinha”, explicou a coordenadora.

 laura.jpgEcoDComo fazer esse trabalho de conscientização?

Laura Fostinone - Com campanhas intersetoriais, em conjunto com as prefeituras e com a lei da educação ambiental. Eventos de sensibilização com crianças e alunos do ensino fundamental têm sido uma das estratégias mais eficazes, pois as crianças se tornam verdadeiros fiscalizadores de uma atitude correta para o descarte deste material.

Assim podemos mostrar o problema e as oportunidades de desenvolver projeto de geração de renda e inclusão social.

O que o descarte de óleo no lixo pode ocasionar?

O descarte incorreto do óleo de cozinha usado junto ao lixo doméstico causa uma série de problemas ambientais. Em primeiro lugar, pode haver derramamento de óleo nas vias públicas decorrente das condições precárias de acondicionamento do lixo em sacos plásticos que quase sempre se rompem antes mesmo da coleta ser efetivada. Uma vez que o óleo consiga chegar ao aterro sanitário, o seu excesso pode causar um considerável atraso no processo de compostagem. Isso porque o óleo exige enzimas especiais para a sua completa decomposição. Essas enzimas, muitas vezes, não são sintetizadas pelos micro-organismos presentes no processo de compostagem nas quantidades necessárias para degradar todo o óleo presente no lixo.

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Grupo de estudantes em visita à cooperativa ARES

Como funciona a coleta de óleo hoje no Brasil? Quem são os responsáveis por ela?

Atualmente a coleta deste tipo de material é realizada por dois principais atores, são eles:

  • Cooperativas de catadores e ONGs, por meio de coleta porta-a-porta ou de ecopontos.
  • Empresas privadas que realizam a coleta em grandes geradores de óleo. Segundo as empresas que trabalham com a reciclagem de óleo de cozinha, 80% do material é originário de hotéis, bares e restaurantes.

No Brasil, segundo dados do Pensamento Nacional de Bases Empresariais (PNBE), 85% do óleo de cozinha consumido é descartado erroneamente pelo sistema de esgoto e apenas 2,5 a 3,5% do óleo vegetal comestível descartado é reciclado. Isso faz com que o óleo chegue aos rios e lagos e inicie seu ciclo de contaminação.

O mercado de reciclagem de óleo no Brasil é grande? O que falta para o setor expandir?

Dados da Sabesp estimam que o mercado anual de óleo de fritura reciclado é da ordem de 30 milhões de litros ou 24.000 toneladas, incluindo tanto a coleta para processo industrial, como a reciclagem caseira na fabricação de sabão. Como parte da reciclagem é feita pelo mercado informal o dado de volume reciclado é estimado.

Podem ser considerados hoje dificultadores para a expansão do setor a demanda em investimentos em campanhas de conscientização e educação ambiental e, para o coletor e reciclador de óleo vegetal é o grande número de clientes onde irá coletar volumes de óleo que variam muito. São pequenas quantidades em um grande número de estabelecimentos. Portanto, uma das etapas mais importantes é o processo de coleta, em que a rota deve otimizar o número de clientes atendidos e minimizar o tempo e a quantidade de combustível gastos nesse processo.

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Representantes de cooperativas, docentes e estudantes no espaço do MIT Colab: troca de experiências entre academia e cooperativas

Como funciona a revenda do óleo? Quem sai ganhando?

O óleo coletado é vendido para empresas que concentram altos volumes para negociar com a indústria de biodiesel. Hoje, segundo dados da Ecóleo, pode-se estimar que 70% do óleo coletado é destinado à produção de biodiesel enquanto os demais 30% são destinados a produção de tintas, ração animal, sabão e outros produtos derivados.

Todos os atores da cadeia saem ganhando. O consumidor, que tem a opção de descartar corretamente seu óleo usado. O coletor e o reciclador, que prestam um serviço fundamental e assim acessam os grandes mercados da produção de novos produtos com o óleo reciclado. E o Estado e a natureza como um todo, que tem seus recursos naturais preservados.

...é fundamental, conscientizar a população sobre os malefícios do descarte incorreto do óleo de cozinha"
Laura Fostinone, coordenadora do Green Grease no Brasil

Além disso, a produção do biodiesel a partir da reciclagem do óleo de fritura usado permite implantar um programa sustentável, promovendo a inclusão social de setores menos favorecidos da sociedade (catadores, coletores, recicladores), abre o caminho para interações com a escola por meio de programas de educação ambiental, além de estimular o desenvolvimento de novas tecnologias de produção e comercialização de um combustível com aceitação já reconhecida pelo mercado.

Além de preservar o meio ambiente, o descarte correto pode gerar renda a famílias. Existem políticas públicas que incentivam esse trabalho?

Sim. Decretada e regulamentada em 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos prevê que catadores e cooperativas sejam considerados como atores na gestão dos resíduos dos municípios.

Além da PNRS, foi criado o Programa Pró-Catador que dá novo formato ao Comitê Interministerial da Inclusão Social de Catadores de Lixo, criado por decreto de 2003. Este comitê acompanha as agendas ambientais, sociais e econômicas, que vão gerar renda, qualificação profissional, inclusão social estratégica com saúde. Também dialoga com representantes de 16 ministérios e nove instituições federais ligadas ao Governo Federal. Conta com participação do MNCR, que tem por volta de 60 mil filiados, e do Cempre (Compromisso Empresarial para a Reciclagem).

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Representantes de cooperativas e equipe MIT em visita à planta de reciclagem em Boston, Massachusetts, Estados Unidos

O óleo pode ser transformado em quais produtos?

Com essa matéria-prima pode-se fazer sabão, sabonete, massa de vidro, aditivo para concreto, tijolos e telhas, vernizes, tintas, emulsificante para defensivos agrícolas, biodiesel. É possível a utilização do óleo vegetal reciclado como insumo de ração animal.

Como funciona o processo de reciclagem do óleo?

A reciclagem do óleo de cozinha usado começa pela filtragem, que retira todo o resíduo deixado pela fritura, retira-se também toda a água que está misturada a esse óleo. Dependendo do óleo, ele passará por uma purificação química que retirará os últimos resíduos. A partir desta etapa, esse óleo "limpo" receberá tratamento específico para cada destino. No caso da produção de combustíveis renováveis, o óleo recebe a adição de álcool e uma substância catalisadora. Colocado no reator e agitado a temperaturas específicas transforma-se em biocombustível e após o refino pode ser usado em motores capacitados para queimá-lo.

Quais são os próximos passos do projeto?

Nosso projeto agora está em fase de captação de recursos para implementação de campanhas de conscientização nas localidades das cooperativas e do assunto do óleo como um todo. Os interessados em ajudar podem me procurar, vai ser excelente para o projeto!

- Para entrar em contato com a organização do projeto é só enviar um e-mail para greengrease@mit.edu -

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