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Educação

02 de Agosto de 2012

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"Quebrar o ciclo da pobreza depende da educação", ressalta Wanda Engel

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Fotos: Divulgação

Quando o espetáculo termina? Despedindo-se da superintendência-executiva do Instituto Unibanco, após seis anos de gestão, Wanda Engel acredita que finalizou um ciclo profissional, mas que um "novo ato”, o seu terceiro, acabou de começar.

Ela está colhendo os resultados das sementes que plantou aos longos dos seus 68 anos. Em junho, o Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (Ecosoc) concedeu a Wanda o Prêmio WFO/ Ecosoc Family Award, dado anualmente a personalidades comprometidas com o desenvolvimento social e econômico. No final de 2011, a agora conselheira do Instituto Unibanco foi convidada pela secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton a integrar o Conselho Internacional de Liderança Feminina em Negócios (International Council on Women’s Business Leadership).

Doutora em educação, Wanda Engel foi ministra de estado de assistência social entre 1999 e 2002 e secretária de desenvolvimento social da cidade do Rio de Janeiro de 1992 a 1999, quando teve papel de destaque em conferências internacionais promovidas pela Organização das Nações Unidas (ONU) em diversos países. A geógrafa de formação também participou da elaboração do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). 

Com a convicção de quem domina a temática e ao demonstrar um humor sem pressa, de quem está se renovando, Wanda relata nesta entrevista exclusiva ao EcoD um pouquinho de sua trajetória, dá um panorama sobre os investimentos sociais do setor privado e é enfática ao afirmar que a educação no Brasil melhorou, mas ainda tem muito a avançar.

EcoDesenvolvimento.org: a senhora está se despedindo da superintendência-executiva do Instituto Unibanco, cargo que ocupou durante seis anos. Qual é o sentimento: de dever cumprido ou ainda falta muito a fazer?

Wanda Engel: o instituto tem muito a fazer. E eu também (risos).

Tem uma apresentação da Jane Fonda no Ted em que ela diz que a nossa geração foi presenteada com mais uma vida. Em relação aos nossos avós, a expectativa é de mais 30 anos – antes era de 60 anos e para nós é 90. Ela chama esses 30 anos de terceiro ato, em que se está mais sábia, experiente e com muito mais possibilidades de usufruir esta nova etapa. E eu sinto isso: estou começando meu terceiro ato da vida profissional.

A conjugação assistência social e educação foi, para mim, a porta de saída"
Wanda Engel

Eu venho do mundo acadêmico, depois enveredo pelas organizações não-governamentais, passo pelo setor público, e o instituto me deu a possibilidade de experimentar a iniciativa privada. E eu acho que o instituto avançou bastante no investimento social privado. Há uma diferença, lógica mesmo, entre a filantropia e essa outra vertente.

A filantropia você faz pelo sentimento humanitário, baseado na religião. Já o investimento social vem com a conotação de investimento: tem que ter impacto, relevância, sistemas de acompanhamento e avaliação. Então, é um investimento. Só que com o lucro social, em vez de econômico. Não adianta apoiar uma creche, tem que apoiar a oferta de serviço de creche no país.

A abrangência então é muito maior...

Muito maior. Não é tão grande quanto de uma política pública, mas pode estar associado a uma. E o instituto escolheu a parceria-público-privada (PPP), para servir de laboratório para políticas públicas. Por exemplo, uma secretaria de educação não pode fazer uma experiência com duas ou três escolas quando se tem cinco mil. Então, o instituto se coloca como um laboratório.

A gente bolou uma saída para a qualidade do ensino médio, chamada Jovem de Futuro, testou isso na rede do Rio Grande do Sul e em Minas, chamou o melhor avaliador para saber se tinha efeito ou não. O impacto foi fantástico, nos permitindo fazer uma parceria com o Ministério da Educação e levar para outros seis estados, qualificando a política pública. Os passos são esses: você testa e, se der resultados, transfere todo o no hall para quem implementa a política pública.

Como foi que a senhora, geógrafa de formação, passou a ser uma referência mundial em assistência social?

Talvez pela minha própria origem. Eu venho de uma família pobre. Meus pais só estudaram até a quarta série. Meu pai ficou tuberculoso-diabético e a família entrou em um estado de pobreza absoluta. Foi a conjugação de educação e assistência social que me permitiu sair dessa realidade. Eu estudava no Instituto de Educação do Rio de Janeiro, que tinha um processo seletivo muito forte e só entrava a elite das meninas do Rio.

Sempre que eu vi uma oportunidade pela minha frente, puxei pelo rabo de cavalo"
Wanda Engel

Na escola, eram 90% de ricos e 10% de pobres que tinham condições acadêmicas de entrar. Esses 90% contribuíam com uma riquíssima caixa escolar que os 10% se beneficiavam. Eu tinha direito, como pobre, a transporte, livros, tíquete alimentação, até tratamento médico e dentário. Isso me permitiu ter uma formação super consistente que me levou à universidade. Lá eu tinha os melhores professores do Rio e, talvez, do Brasil.

Eu acho que essa formação consistente e uma determinação de contribuir para que outras pessoas também em condições de pobreza ascendessem, me fizeram investir toda a minha capacidade no desenvolvimento de estratégias que pudessem expandir a oportunidade que eu tive para o maior número de pessoas. Eu nunca fui da linha de assistência como um fim em si próprio. A assistência serve para dar o primeiro passo no processo de desenvolvimento – e esse se dá através da educação. E essa conjugação, para mim, foi a porta de saída.

Se a gente criar condições para que o filho do pobre termine a educação básica, vamos realmente eliminar a pobreza no país. Essas condições são dadas pela política de assistência. Quebrar o ciclo pobreza, como aconteceu na minha família, depende de educação. O meu princípio foi sempre que a oportunidade, meu bem, é uma deusa grega cheia de óleo que a gente agarra pela cabeça. E sempre que eu vi uma pela minha frente, puxei pelo rabo de cavalo.

Uma pesquisa recente, com base nas avaliações internacionais, destacou que o Brasil foi o terceiro país que mais avançou na educação. No entanto, quando vemos 77 dias de greve das universidades federais e 112 dos professores estaduais da Bahia, além da tentativa de travar o PNE que estabelece 10% do PIB na educação, percebemos que a educação não é prioridade de governo. O que ainda falta para colocarmos a temática com o destaque necessário na agenda governamental?

Eu acho que está faltando realmente muito. Os dados do Pisa são concretos. Só que a gente parte de um patamar muito baixo. O crescimento é importante, mas ele ainda nos deixa em uma situação muito inferior em relação aos outros países: é como se nós partíssemos do subsolo e eles do terceiro andar. Crescemos muito, mas ainda não o suficiente. Gradativamente a sociedade vem se dando conta da centralidade da educação no desenvolvimento sustentável. Na Rio+20 a questão da educação começou a ser debatida seriamente. Está havendo uma consciência a seu respeito, mas ainda há muito corporativismo.

As greves. É evidente que os professores ganham pouco. Mas as greves têm que ser consequentes: se tem 100 dias em greve, repõem os 100 dias. A reposição não acontece ou ocorre de forma pífia. Aí é uma falta de responsabilidade. A finalidade da profissão é educar, então se prejudica justamente o foco e cria uma percepção desfavorável da sociedade. 100 dias sem aulas? É um absurdo. Não sou contra a greve, sou professora e já fiz muita greve. Mas acredito que alguma responsabilidade os movimentos têm que ter.

A maioria das empresas não mexe na política pública, cria a sua"
Wanda Engel

O que falta é essa consciência se transformar em atos. Só cobrança não adianta, tem que ter cobrança e apoio. Todo o mundo sabe a oscilação do PIB, mas ninguém conhece o Pisa. No momento em que o crescimento econômico for visto do mesmo modo que a educação, a gente vai perceber que avançou, mas que tem correr muito.

A senhora sempre defendeu a bandeira da educação. Como é inserir esta temática na agenda de uma corporação que, à priori, não tem relação nenhuma com o sistema educacional?

O pior é que tem. Na verdade, todas as empresas estão percebendo que ou contribuem para a formação dos recursos humanos ou estão fritas. O apagão numérico de mão-de-obra no Brasil já está claro. No Norte, Centro-Oeste e Sul a oferta de empregos já é muito maior do que pessoal com escolaridade (não é nem qualificação, só escolaridade) para assumir esses empregos. E isso em termo de quantidade, de qualidade é ainda pior.

A educação está tão ruim que é enorme o número de empresas que estão criando as suas universidades corporativas. Ou seja, você não mexe na política pública, cria a sua. Daqui a pouco as empresas estão criando suas próprias escolas. A opção do instituto foi contribuir para o sistema, melhorar a qualidade. Algo em torno de 87% dos jovens, por exemplo, estão em escolas públicas. Não há capital financeiro que se sustente sem capital humano e social. É o fator básico de crescimento de uma empresa.

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Diante deste quadro, o voluntariado empresarial é realmente uma alternativa sólida? As empresas estão sintonizadas com este pensamento e estão investindo nisso?

O voluntariado é o conjunto interseção entre responsabilidade social e investimento. Porque a empresa investe seu mais importante ativo: os colaboradores. Agora, ele parte da vontade de contribuir, de ser solidário. O voluntariado é tão velho quanto à própria humanidade. É uma rede informal de proteção social: em uma comunidade pobre, todo mundo se ajuda. O indivíduo pode contribuir muito.

No momento em que a empresa promove isso em seus colaboradores, essa atuação pode ser planejada, focalizada, acompanhada. Ela tem muito mais condições de transformação do que eu e você. É um fenômeno ainda novo e as empresas ainda estão tateando como melhor investir esse recurso. O que se precisa hoje é pegar essa tendência, que aparece principalmente nas grandes empresas, e produzir um conhecimento para que este investimento tenha mais impacto. O fenômeno é tão recente que não há um conhecimento consolidado sobre ele. Hoje, o impacto ainda é pequeno porque ainda não se conseguiu identificar formas efetivas de voluntariado empresarial para realmente mudar uma situação.

Em 2011, a própria Hilary Clinton lhe convidou para fazer parte do Conselho Internacional de Liderança Feminina em Negócios (International Council on Women’s Business Leadership). De certa forma, foi um reconhecimento da sua trajetória. Como se deu o convite? A senhora já esperava?

Mais de 30 países ao redor do globo possuem programas de transferência de renda.

É muito legal esse reconhecimento. O ser humano precisa disso, tudo de bom. O de Hillary eu realmente não esperava. Até hoje não sei como meu nome foi parar lá (risos). Ela me disse que já tinha escutado falar muito de mim, principalmente do meu trabalho no ministério, o cadastro que baseou o Bolsa Família. Os programas de transferência de renda viraram “moda” entre os países pobres e esses saíram mais rapidamente da crise de 2008. O Brasil foi que começou e eu acho que isso que fez com que a Hillary me descobrisse.
 

Quais são os seus próximos passos neste terceiro ato de tua vida?

É... inventaram este terceiro ato! (risos) Estão surgindo várias oportunidades. Uma delas é trabalhar pelo Pacto da Educação no Pará. É um estado que tem índices educacionais pífios e uma proposta de desenvolvimento econômico fortíssima, mas sem mão-de-obra qualificada. Então, se tem um contexto bastante favorável para melhorar o Ideb (Índice de Educação Básica) do Pará. Estou envolvida nisso e em outras 'coisitas' por aí.

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