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Economia e Política

05 de Julho de 2012

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Walfredo Schindler apresenta propostas para uma Economia Verde no Brasil

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O engenheiro Walfredo Schindler discorre sobre a coleção que coordenou/Fotos: divulgação

O Brasil avança na questão ambiental embora ainda falte muito a conquistar. Por dia, em média, são coletados 183.480 toneladas de resíduos sólidos, sendo que 51,4% são materiais orgânicos como restos de alimentos e 32% são recicláveis. Apesar de atingir a 98% dos lares urbanos, a coleta domiciliar abrange somente 33% das residências em área rural. Além disso, há ainda 2.906 lixões no Brasil que, conforme a Política Nacional de Resíduos Sólidos, deveriam ser extintos até 2014.

Estes dados constam no documento Resíduos Sólidos Urbanos e a Economia Verde, um dos doze volumes que compõem a Coleção de Estudos sobre Diretrizes para uma Economia Verde no Brasil. A coletânea, que reúne escritos de especialistas em diversas áreas, pretende expor as principais barreiras para implementação da Economia Verde no Brasil e sugerir diretrizes para a implantação deste novo modelo de desenvolvimento.

Organizada pela Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), sob a coordenação do engenheiro Walfredo Schindler, os doze estudos foram lançados em maio de 2012, à propósito da Rio+20. A coleção já teve 18 mil volumes distribuídos e 200 cópias da coleção foram entregues ao Ministério do Meio Ambiente para serem distribuídos em todos os setores do governo. Além disso, os volumes estão disponíveis para download.

Nesta entrevista, Schindler conta um pouco de como foi o processo de elaboração dos volumes, algumas conclusões e a expectativa de implementação.

EcoD: Como foi que surgiu a ideia de elaborar uma coletânea de estudos sobre a Economia Verde?

Schindler: Há três anos, em 2009, estávamos vivendo aqueles meses anteriores à COP-15, visto como uma grande oportunidade para que as questões ligadas às mudanças climáticas fossem realmente resolvidas. Existia toda uma expectativa sobre a conferência que infelizmente se frustrou.

Naquela ocasião, diversas entidades começaram a se movimentar para dar contribuição à COP-15. A fundação também decidiu contribuir, mas nós procuramos fazer algo que tivesse um viés técnico muito profundo. Então, em vez de dar nossa opinião sobre o assunto, nós contratamos especialistas que escreveram diversos papers técnicos sobre qual poderia ser a contribuição brasileira para a mitigação das mudanças climáticas globais.

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Fizemos seminários para discutir os papers e, como resultado disso, encaminhamos uma carta aberta ao então presidente Lula. Nós tivemos um feedback muito positivo a respeito do nosso trabalho. Na época, a secretária-executiva do Ministério do Meio Ambiente, a atual ministra Izabella Teixeira, nos parabenizou e disse que o trabalho contribuiu muito para a mudança do governo brasileiro de uma postura reativa para uma pró-ativa.

No final do ano passado, em uma reunião com a ministra, ela relembrou esse nosso trabalho e perguntou se não iríamos fazer algo similar para a Rio+20. A partir dessa provocação, desenvolvemos a coletânea. A diferença é que agora o foco foi Economia Verde.

Como foi o processo de elaboração da coleção?

Da mesma forma que fizemos há três anos, procuramos os maiores especialistas em cada área, encomendamos os papers e fizemos seminários para colocá-los em discussão junto à sociedade civil e o empresariado. O grande aprendizado que tivemos é que não basta fazer estudos teóricos. Existe uma realidade muito diferente entre um estudo teórico e a vida prática em uma empresa. Eles precisam apresentar resultados, aumentar a produção, metas a serem cumpridas. Essa interação entre academia e membros do setor produtivo é o que enriquece essas publicações.

"Somente com a modernização das hidrelétricas existentes dá para gerar quase a energia média da Usina de Belo Monte"

Quando se fala em Economia Verde, vemos que é preciso uma mudança de paradigma na sociedade como um todo. Não estamos falando de pequenos ajustes. Estamos falando de uma mudança de comportamento do consumidor, de novas metodologias de produção. E qualquer mudança estrutural requer tempo, recursos e uma vontade política muito grande.

E como as publicações pretendem reverter este quadro?

O foco desses novos trabalhos é priorizamos ações que podem ser feitas imediatamente, no curto prazo. Procuramos identificar mudanças que não precisam ficar alterando legislação, desenvolver novas tecnologias. Ações que tragam resultados e possam ser encaradas como primeiros passos na mudança para a economia verde no mundo.

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Por exemplo, a matriz energética brasileira ainda é muito limpa. Aproximadamente 87% da energia elétrica consumida no Brasil vêm de fontes renováveis. Porém, ela, aos poucos, está se sujando. Isso porque estão sendo incorporadas termoelétricas. É necessário que sejam implantadas novas fontes de energia, para segurança do setor elétrico brasileiro. Mas nós temos oportunidades interessantes para não sujar nossas fontes.

Uma das propostas que fizemos para o setor foi modernizar as hidrelétricas, que se encontram muitos antigas. Tal atitude pode garantir uma energia extra a baixo custo e sem nenhum impacto ambiental. Isso pode agregar até 3,2 GW de potência adicionais, com impacto zero e custo reduzido. Para se ter ideia, isso é quase a potência média, firme, da Usina de Belo Monte (4 GW).

Há várias recomendações como essa nas publicações. Sejas de longo prazo, seja de curto prazo. 

Me parece que este é um diferencial positivo dessa coleção. A maioria das publicações fazem somente alertar para o grave problema ambiental que vivenciamos, sem propor soluções...

Exatamente. A maioria das pessoas, das publicações, é alarmista, dizem que estamos nos encaminhando para um desastre. São raras as que propõem soluções e, mesmo essas, normalmente são recomendações de médio, longo prazo.

"O que precisamos fazer é partir da teoria da prática"

Essa coletânea foi apresentada ao governo agora na Rio+20. Há alguma sinalização de que essas recomendações podem ser implementadas?

A ministra Izabella Teixeira solicitou 200 cópias da coleção e disse que colocaria uma dessas em cada ministério, em cada autarquia do governo, inclusive nas mãos da presidenta Dilma. Nós fizemos o nosso papel ao distribuir o estudo a autoridades, ONGs, especialistas... Vamos aguardar o resultado.

O que o senhor achou dos resultados da Rio+20?

Nós demos um passo à frente. Infelizmente, na minha avaliação, estamos progredindo em um ritmo aquém do desejado. O nível de informação do público, das empresas, do governo é bem melhor. Nós estamos muito mais antenados do que há cinco, dez anos. Ninguém fazia inventário de emissões há dez anos, atualmente a maior parte das grandes empresas faz, já estão divulgando a pegada de carbono.

Em termos de mobilização, é um progresso muito grande. O que precisamos fazer é partir da teoria da prática. Nós temos que acelerar esse progresso. Há uma carência de passar da conscientização pública, que já existe, para medidas reais de mitigação das mudanças climáticas, de transição para uma economia verde. Mas, infelizmente, foi dada uma carência de três anos para compor os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. O ritmo atual não é suficiente e aí, realmente, o mundo vai caminhar para uma catástrofe.

 Confira aqui a coleção completa

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