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Economia e Política

19 de Julho de 2012

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"Economia Verde como orientadora da Rio+20 empobreceu evento", diz Comim

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Foto: Elza Fiúza/ABr

Por Lilian Neves e Amanda Pinheiro

A Economia Verde, como paradigma orientador, nunca poderia ter sido sequer cogitada como âncora de um evento tão abrangente como a Rio+20 (Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável), realizada de 13 a 22 de junho, no Rio de Janeiro. A afirmação é do economista do desenvolvimento Flávio Comim.

A Rio+20 deveria ter focado na promoção de valores sustentáveis e em como esses valores são importantes para a economia"
Flávio Comim

Economista Senior do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), onde coordenou o último Relatório de Desenvolvimento Humano Brasileiro, Comim possui um currículo vasto: desde docente nas universidades Federal do Rio Grande do Sul e Cambridge até consultor para diversas agências internacionais como o Pnuma, FAO, Unesco e Pnud, em vários países.

Nesta entrevista, Flávio Comim avalia os resultados da Rio+20, critica a Economia Verde como norteadora do evento, afirma que as empresas brasileiras continuam influenciadas por paradigmas normativos ultrapassados e muito mais.

Apesar da falta de avanços nos acordos em nível global, a mobilização em torno da Rio+20 mostrou que há arranjos intersetoriais em andamento? O quanto sociedade civil, empresas e poder público amadureceram discussões e ações relacionadas à sustentabilidade nos últimos 20 anos?

O maior beneficiário da Rio+20 foi, sem dúvida, a sociedade brasileira e seu setor empresarial que firmou vários compromissos, participando ativamente de eventos paralelos como a Cúpula dos Povos e os debates e articulações feitas, principalmente, nos meios empresariais e da sociedade civil. A resposta então é sim. Há vários arranjos setoriais em andamento, mas eles ainda são restritos porque não contam com o apoio institucional necessário internacionalmente e os fundamentos financeiros capazes de mudar globalmente as sociedades. Os compromissos firmados por entidades empresariais no Brasil constituem um passo importante, se bem que isolado, para a promoção da sustentabilidade.

A ONU (Organização das Nações Unidas) gerou polêmica ao basear a Rio+20 na defesa da chamada Economia Verde como caminho para a erradicação da pobreza e o desenvolvimento sustentável, ideia considerada pelos críticos restritiva para resolver um universo de questões complexas, como as relacionadas às desigualdades. O foco na Economia Verde de alguma forma empobreceu o debate sobre sustentabilidade?

Sem dúvida. A escolha da economia verde como paradigma orientador do documento da Rio+20 empobreceu dramaticamente e reduziu em escopo o universo de objetivos a serem alcançados. A economia verde é um paradigma economicamente sensato, de precificação de serviços de ecossistemas, normalmente subavaliados. O raciocínio procede, mas é limitado e nunca poderia ter sido sequer cogitado como âncora de um evento tão abrangente como a Rio+20. A Rio+20 deveria ter focado na promoção de valores sustentáveis e em como esses valores são importantes para a economia. A sequência lógica do argumento deveria ter sido outra.

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Foto: Wilson Dias/Abr

Como você descreveria o posicionamento do setor produtivo brasileiro nas discussões e na evolução das práticas de sustentabilidade nos últimos 20 anos?

Houve um grande progresso principalmente no discurso e aceitação de normas e diretivas sustentáveis. Mas ainda deixa muito a desejar em termos de composição dos arranjos produtivos. Empresas líderes em vários ramos da energia e tecnologia no exterior já conseguem gerar de 30% a 40% de suas receitas com operações ambientalmente sustentáveis. No Brasil, os resultados têm sido muito modestos, para dizer o mínimo. Houve grande progresso em termos de discurso, mas continua faltando mais comprometimento prático. Primeiros passos foram dados nessa direção, mas ainda são tímidos.

O respeito à natureza não deve ser fruto do cálculo econômico, mas da convicção dos indivíduos sobre o valor intrínseco do meio ambiente"
Flávio Comim

A abordagem do desenvolvimento humano tem sido, nas últimas duas décadas, influente na formulação e concretização de políticas públicas e ações de investimento social privado. Como grandes empresas no Brasil têm incorporado o desenvolvimento humano na gestão?

A perspectiva do desenvolvimento humano continua uma grande desconhecida da maioria dos ambientes empresariais no Brasil. Posso afirmar com tranquilidade que grandes empresas no Brasil desconhecem o desenvolvimento humano enquanto paradigma e que com raras exceções quase ninguém possui projetos concretos ou módulos avaliativos que se beneficiem dessa perspectiva. Sobre empresas de menor porte o cenário é ainda mais dramático. Existe um grande fosso de conhecimento no Brasil e a maioria das empresas continua influenciada por paradigmas normativos ultrapassados ou abordagens economicistas de desenvolvimento.

Ouvimos dizer que “a base de toda a sustentabilidade é o desenvolvimento humano, que deve contemplar um melhor relacionamento do homem com os semelhantes e a natureza”. Que pontos de atenção que as empresas deveriam considerar, uma vez que as crianças e os jovens de hoje serão os líderes de amanhã?

O exercício da sustentabilidade precisa de valores sustentáveis. A formação destes necessita de uma nova visão educacional, não restrita apenas as escolas, que promova esses valores. O respeito à natureza não deve ser fruto do cálculo econômico, mas da convicção dos indivíduos sobre o valor intrínseco do meio ambiente. O principal ponto de atenção para a promoção do desenvolvimento humano sustentável é a importância da formação de valores sustentáveis em jovens e crianças. Para tal, são necessárias ações integradas que impactem no ambiente das empresas, de seus fornecedores e nas comunidades em que operam.

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