
A jornalista Natália Garcia gravou um vídeo comparativo entre as cidades/Foto: Divulgação
Atravessar a rua em Copenhague é uma experiência muito chocante para quem vem de São Paulo por uma série de motivos. O primeiro deles: não é preciso esperar muito tempo até que o farol de pedestres abra. Em uma das principais avenidas da cidade, a H. C. Andersens Boulevard, o tempo de espera até que o semáforo de pedestres fique verde é de 40 segundos.
O segundo motivo de estranhamento: não é preciso correr para atravessar a rua. O pedestre possui 30 segundos para atravessar. E, quando o semáforo de pedestres fica vermelho, ainda há uma folga de aproximadamente 5 segundos até que o farol abra para os carros. Fiz um vídeo, abaixo, que mostra a diferença da experiência de atravessar a rua nas duas cidades.
Há um motivo para a experiência, em Copenhague, ser tão discrepante da nossa. Fazer a rua ser mais agradável para os pedestres e aumentar o número de pessoas se locomovendo a pé é uma das prioridades da prefeitura da capital dinamarquesa. E a estrutura de governança da prefeitura permite que esse tipo de prioridade realmente seja refletida na cidade.
“A prefeitura de Copenhague é a maior empresa da cidade”, me disse Pernille Nørrby, que chefia um dos setores da secretaria de meio ambiente da cidade chamado, o Departamento de Vida Urbana. O departamento estabeleceu o conceito de que vida urbana é a experiência, a expressão e o movimento gerados pelos encontros entre pessoas na cidade. Seu objetivo é melhorar a qualidade de vida dos moradores e visitantes de Copenhague.
E se esse papo está soando um tanto hipponga, não se engane. Os dinamarqueses consideram a qualidade de vida como um importante trunfo econômico. “Essa é a nossa vantagem competitiva quando ‘jogamos poker’ com as cidades que competem economicamente conosco”, ilustra Pernille. Segundo ela, ainda não há dados ou indicadores que relacionem cientificamente a qualidade de vida em Copenhague a benefícios econômicos. “Mas quando uma empresa escolhe onde se estabelecer, esse é um fator que pode atraí-la”, diz ela. “O mesmo acontece com a mão de obra qualificada, que busca um lugar agradável para morar”, completa.
Planejamento para qualidade de vida
Em 2008, todos os setores da prefeitura de Copenhague se uniram para estipular um plano de metas para 2015. A partir das diretrizes definidas, cada departamento elaborou suas próprias metas específicas para chegar ao resultado que a prefeitura queria: uma cidade mais sustentável e com mais qualidade de vida.
O Departamento de Vida Urbana desenvolveu, na época, três objetivos maiores:
1. Vida Urbana para Todos
“Esse é um tópico que fala sobre variedade”, explica Pernille. O objetivo era fazer com que os espaços públicos fossem convidativos a todas as idades e classes sociais – e igualmente aproveitados por eles. A meta era atingir um nível de satisfação de 80% da população em relação à vida urbana.
2. Aumento dos deslocamentos a pé
“Andar é bom para o meio ambiente, a saúde das pessoas, a sustentabilidade da cidade e para a vida urbana como um todo” explicou Pernille. Ela defende que caminhando as pessoas experienciam a cidade de um jeito único – “muito mais interessante do que os outros, na minha opinião”. Hoje na divisão modal da cidade, 30% dos deslocamentos são feitos de bicicleta, 27% de carro, 17% de transporte público e 27% a pé. A meta é aumentar em 20% as viagens feitas por pedestres. Para atingi-la, as medidas práticas estabelecidas foram:
mais áreas verdes
mais calçadas
melhorar a limpeza nos espaços públicos
melhor qualidade de ar
melhor iluminação
mais segurança em relação ao crime e ao tráfego de veículos
mais informação sobre como percorrer a cidade a pé
mais faixas de pedestres
melhor pavimentação das ruas e calçadas
melhor integração com o transporte público
desenvolver a cultura de que a cidade PODE ser percorrida a pé
“Talvez aumentar o número de viagens feitas a pé em 20% seja uma expectativa ilusória, mas ainda que só alcancemos metade disso o importante é saber que estamos caminhando na direção correta”, diz Pernille.
3. Aumento da permanência das pessoas em espaços públicos
“Quanto mais gente na rua, melhor a vida urbana, simples assim”, diz Pernille. Nesse sentido, o departamento propõe aumentar a oferta de atividades para se fazer em espaços públicos na cidade. Que se diga que já não são poucas: os canais possuem água limpa, onde os dinamarqueses podem nadar, há uma porção de quadras poliesportivas públicas e parques para a prática de esportes, além de churrasqueiras, fornos e mesas públicas para preparar refeições nas ruas. “As pessoas tendem a ser mais felizes quando estão na rua aproveitando a cidade”, finaliza Pernille.
Em 2011, o departamento decidiu fazer uma série de pesquisas para analisar o andamento dessas metas. Uma das perguntas foi sobre a satisfação dos moradores com a vida urbana da cidade. E qual não foi a surpresa ao ver que a meta de 80% de satisfação não só tinha sido atingida como ultrapassada: 89% se disseram felizes com a vida urbana de Copenhague.
Enquanto isso, em São Paulo, seguimos reproduzindo a arcaica lógica de priorizar a fluidez dos veículos no trânsito, como eu tristemente tentei ilustrar no vídeo abaixo.
Mudar isso precisa partir de uma nova visão de administração política mas, igualmente, de uma nova demanda de nós, eleitores. Uma demanda por uma cidade para as pessoas.
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