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Consumo Consciente

15 de Novembro de 2013

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Minha vida sustentável: "Esse negócio de possuir coisas está enraizado na gente"

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Camila, o marido, e os pequenos Maria, 4, e Gael, 2
Fotos: Arquivo pessoal

Era uma vez uma jovem brasileira que, há quase uma década, decidiu cruzar os oceanos em busca de sua felicidade. Ela saiu do emprego que tinha em São Paulo e foi viver como uma simples estudante nas vielas de Barcelona. Um ano depois, decidiu ir para Alemanha, onde fez MBA em Sustentabilidade na Universidade de Lüneburg.

Nas terras gélidas dos grandes pensadores, a jovem Camila Furtado casou-se com um alemão, teve dois filhos e, em vez de buscar a felicidade, aprendeu a encontrá-la todos os dias, na simplicidade do seu cotidiano. Agora, mais do que uma jovem em busca de aventuras, ela é a mãe de Maria (4) e Gael (2), à procura de valores melhores para passar para seus pequeninos.

"Vou jogar metade da minha casa fora e viver melhor". Foi por meio do post com este título, publicado no blog Tudo Sobre a Minha Mãe,  que o EcoD descobriu Camila. Achamos a história dela tão bacana que resolvemos criar a série "Minha Vida Sustentável", com relatos de gente como a gente que decidiu dar um basta no modelo de vida atual e saiu em busca da sustentabilidade – e você, é claro, está mais do que convidado a contar sua história pelo e-mail redação@ecodesenvolvimento.org.br.

Mas, antes disso, fique por dentro do bate-papo que tivemos com Camila sobre os desafios de sua nova escolha.

EcoD: Quais são as principais diferenças entre o estilo de vida brasileiro x alemão?  E a questão ambiental, é apenas preocupação governamental ou os cidadãos também ligam para a temática?

Quando eu vou para o Brasil eu fico chocada. Como as pessoas precisam ter coisas e mostrar as coisas que têm para todo o mundo. É como se você tivesse que sempre dar alguns sinais de quem você é, de acordo com o que você tem"

Camila Furtado: Em relação ao consumo e ao meio ambiente os alemães são em geral bem mais conscientes que os brasileiros. Não tive muita dificuldade de me adaptar a isso, pois quando eu vim para Europa era exatamente esse estilo de vida que eu estava buscando. Uma vida mais simples mesmo. Eu passei um ano sabático em Barcelona antes de morar na Alemanha. Pedi demissão do meu trabalho em São Paulo e fui viver uma vida de estudante lá. Nunca vivi com tão pouco dinheiro como em Barcelona, mas nunca fui tão feliz. A gente cozinhava com amigos, em vez de ir em restaurantes caros, voltava da balada de "night bus" ou de bicicleta em vez de pagar táxis, não me "emperiquitava" tanto para sair. E desde essa experiência em Barcelona que esse estilo de vida meio frugal da classe média europeia me fascinou. Então quando eu vim para Alemanha, eu esperava viver assim.

Mas apesar disso, eu tive alguns momentos meio chocantes, principalmente na vida familiar. Lembro que quando eu esperava minha primeira filha meu marido ganhou uma mala de roupas usadas da filha de um amigo. Na época achei um absurdo, eu queria um enxoval completo novíssimo, mas depois vi que era uma besteira, as crianças perdem roupa super rápido, por que não usar umas coisinhas usadas e em bom estado de amigos? Hoje em dia, aceito as roupinhas usadas, e também passo as das minhas crianças para amigas com filhos menores.

Um amigo meu alemão acabou de ter um filho agora, nos encontramos para um café, e perguntei se ele queria algumas coisas dos meus filhos. Ele disse que não obrigada, porque como foi um dos últimos a ter filho, ganhou tanta coisa dos amigos, tipo coisas usadas, que não tinha comprado praticamente nada. Ah, e detalhe, ele é um executivo top. Ou seja, isso não tem nada a ver com pobreza.

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Gael adora jogar o lixo fora

Os alemães acham um absurdo o desperdício. Mesmo que eles tenham o dinheiro, porque pagar 60 euros num casaco de inverno, que seu filho vai usar uma temporada, só?

Quando eu vou para o Brasil eu fico chocada. Como as pessoas precisam ter coisas e mostrar as coisas que têm para todo o mundo. É como se você tivesse que sempre dar alguns sinais de quem você é, de acordo com o que você tem. Aqui na Alemanha, "todo mundo" pode ter um Iphone de última geração, por exemplo, então, não é isso que vai te diferenciar dos outros. É o que você tem dentro, o estilo de vida que você leva. Sinceramente, isso é libertador!

Quando e como tomou a decisão de viver uma vida com menos coisas?

Não foi uma coisa que aconteceu do dia para noite. Primeiro, veio como eu te falei acima, esse desejo de viver uma vida mais pé no chão, mais simples, do que a que eu vivia em São Paulo. Mais tempo para mim, menos escravidão com o trabalho, e tal...

Quando conto para os meus amigos, que nossa família tem dois carros, todo mundo acha super estranho. Como se nós fossemos sem noção mesmo. Dá até vergonha"

Depois você começa a perceber que ter coisas não necessariamente te faz feliz. Aqui na Alemanha, as coisas são muito mais baratas que no Brasil. Uma família como a nossa, que é de uma classe média um pouco acima do padrão, pode ter praticamente tudo. Carro, aparelhos eletrônicos, mil brinquedos, mil roupas. No começo, quando eu mudei para cá, eu fui meio tomada por essa possibilidade de consumo tão fácil. Mas depois você vê que a sua casa está cheia de tranqueiras e isso não faz nenhuma diferença na sua felicidade. Claro que eu gosto muito de ter algumas coisas, e pago caro por elas se for o caso. Mas eu não preciso mais ter na quantidade que eu tinha antes.

Aqui em casa, nós temos dois carros. Meu marido trabalha em outra cidade, e a conexão com trens não é boa. E ele tem os horários meio loucos. Eu precisava de carro porque não vivemos no centro, e as crianças estudavam lá. Enfim, com pesar no coração, compramos um segundo carro. Eu morro de vergonha. Quando conto para os meus amigos, que nossa família tem dois carros, todo mundo acha super estranho. Como se nós fossemos sem noção mesmo. Eu sempre me vejo me justificando... Ou melhor, prefiro que ninguém perceba, sabe? Dá até vergonha. E claro que num contexto assim é mais fácil mudar.

Mas voltando a decisão, acho que para mim a gota final foi quando eu virei mãe mesmo. Como eu falei no post, é super difícil manter uma casa arrumada se você tem muita coisa. Então, 2013 está sendo para mim o ano da desintoxicação. Tô vendendo, dando, jogando fora. Se alguém vem me oferecer um brinde gratuito na rua, saio correndo!

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Ao menos duas vezes por mês, as crianças vão na biblioteca pegar livros emprestados

Quais são as principais dificuldades de se reduzir o consumo?

Reduzir consumo é um exercício diário. Como mãe, você compra para a família inteira, toda hora envolve pequenas decisões. No geral estou tentando aplicar a regra de ter poucas coisas, mas coisas boas, duráveis. E também não estou mais deixando me enganarem.... Vejo aquelas coisas no supermercado ou na loja dizendo "me compre! me compre! vou mudar sua vida”, e penso “não...” e saio feliz dando de costas!

Esse negócio de possuir coisas está muito enraizado na gente. Dá medo de se arrepender, de alguma vez na vida precisar de novo daquele conjunto de chá que foi usado numa única ocasião nos últimos cinco anos"

E depois é como eu escrevi no post: “Este projeto é difícil para caramba. Primeiro, vamos combinar, é muuuuuuuito chato, dá trabalho, e você tem que decidir o que fazer com as coisas. Aqui na Alemanha até doar para quem precisa dá trabalho. Jogar fora também. O lixo tem mil restrições e se você for feliz e contente jogar a cafeteira sobressalente na lixeira do prédio, pode voltar com uma bela multa.... Além disso, esse negócio de possuir coisas está muito enraizado na gente. Dá medo de se arrepender, de alguma vez na vida precisar de novo daquele conjunto de chá que foi usado numa única ocasião nos últimos 5 anos. Mas estou decidida a começar uma nova era aqui em casa. A ordem agora é liberar a energia, doar e pasmem, até fazer uma grana..."

E a família, tem apoiado a decisão? Quais são os principais resultados até agora?

Meu marido é meio apegado... O sótão é só tralha dele, praticamente. Mas aos poucos ele está vendo que é mais fácil largar. Minha meta agora é conseguir jogar fora uns brinquedos DELE, que a mãe dele trouxe para cá quando as crianças nasceram. Ele morre de dó... E a mãe então nem se fala (risos!)

Eu ainda estou no processo de desintoxicação da casa, mas posso te dizer que já sinto as coisas bem mais fáceis. TUDO. Mais fácil de arrumar, de achar o que você tá procurando, e também de se concentrar nas coisas que você quer se concentrar, sabe? Um exemplo: toalhas e roupas de cama, tenho um armário só para isso. E esse armário estava lotado, fiz uma reflexão e pensei que nem que eu estivesse hospedando um batalhão eu ia precisar de tanta toalha e roupa de cama. Doei metade. Cada vez que eu abro aquele armário, e enxergo as toalhas que eu tenho, e pego uma sem cair outras mil, sinto um alívio...

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Camila tenta adotar um estilo de vida mais próximo da natureza possível

Além da redução do consumo, você adota outras práticas mais sustentáveis?

Eu gostaria que meus filhos fossem mais evoluídos espiritualmente do que a minha geração foi e ainda é. Ou seja, que eles foquem mais no interior do que no exterior"

Nós fazemos o que todo mundo faz praticamente. Reciclamos o lixo, não desperdiçamos água, tentamos reutilizar as coisas, preferimos comprar produtos locais, andamos a pé e de bicicleta sempre que possível.

Quais são os valores que você que passar para os seus filhos? Qual é o mundo que você quer que eles vivam?

Eu quero que meus filhos cresçam conscientes de que a felicidade não está em ter coisas, nem em atingir um determinado status social. Claro que eu quero que eles gozem de segurança financeira, que tenham, como eu sempre tive, suas necessidades bem atendidas. Mas eu gostaria que eles fossem mais evoluídos espiritualmente do que a minha geração foi e ainda é. Que eles vejam que a felicidade está em ter amigos, ter família, se sentir em paz consigo mesmo, cultivar a bondade, ter chance de perseguir seus sonhos. Ou seja, que eles foquem mais no interior do que no exterior.

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