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10 de Fevereiro de 2015

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[Entrevista] Os pequenos negócios na linha de frente do Desenvolvimento Sustentável

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Por Henrique Andrade Camargo e Reinaldo Canto*

Pode parecer coisa de maluco, como muitos diriam, imaginar que os micro e pequenos negócios poderiam trilhar o espinhoso caminho do desenvolvimento sustentável sem perder a sua viabilidade econômica. Para o superintendente do Sebrae-MT, José Guilherme Barbosa Ribeiro, esse sonho não vem de hoje e quanto mais olharmos para trás na trajetória desse carioca que há mais de 30 anos deixou sua cidade natal para viver e desbravar terras matogrossenses, mais pareceria loucura imaginar uma oficina mecânica, uma sorveteria ou um pequeno hotel fazendo essa opção. O pior (ou melhor) é que ele já pensava assim quando chegou em Cuiabá.

Após trabalhar em grandes empresas, o então jovem formado em Administração de Empresas mudou para o Centro-Oeste para assumir como diretor técnico no CEAG-MT (Centro de Apoio Geral de Mato Grosso), órgão que mais tarde se transformaria no Sebrae.

Não sem vencer muitos obstáculos e desconfianças, a “loucura” de José Guilherme foi responsável pela construção do Centro de Eventos do Pantanal e pelo Centro Sebrae de Sustentabilidade, duas obras referência no que se refere ao conceito de construções sustentáveis no país.

O árduo trabalho transformou o Sebrae de Mato Grosso em base dos estudos e pesquisas da sustentabilidade no cenário das micro e pequenas empresas, o que contribuiu para ampliar para mais de 700 pontos de atendimento em todo o Brasil dentro do Sistema Sebrae.

A bela trajetória desse “maluquinho”, como o próprio José Guilherme diz que era chamado, para a posição de apoio e respeito que adquiriu ao longo do tempo você confere abaixo na entrevista realizada a duas cabeças e quatro mãos por Henrique Andrade de Camargo, do Mercado Ético, e Reinaldo Canto, da Envolverde.

José Guilherme, como as micro e pequenas empresas do país podem fazer diferença em questões ligadas à sustentabilidade?

José Guilherme Barbosa Ribeiro - Hoje temos aproximadamente 9 milhões de micro e pequenas empresas. A sustentabilidade deve ser um assunto transversal nas empresas, uma responsabilidade cidadã. Estamos vendo essa falta de água na região sudeste, mas lembre-se que temos 1 milhão de empresas no segmento de bares e restaurantes. Imagine se fizermos um bom trabalho nesse segmento empresarial o que eles podem economizar de luz, água e principalmente na redução e menos resíduos. Portanto as micro e pequenas empresas estão inseridas no tema da sustentabilidade.

Além disso, os pequenos empreendedores que aplicam os princípios da sustentabilidade nos seus negócios acabam levando isso para dentro de suas casas. Mais ainda, os clientes desses estabelecimentos vendo a boa prática no local também podem se inspirar e adotar isso nona própria vida.

E em que pé elas estão?

JG - O estágio é o seguinte, sendo pequeno ou grande, o que regula é o mercado. Vou dar um exemplo bem simples: o cinto de segurança. Quando as escolas começaram a ter ensinamentos de trânsito, o que aconteceu? As crianças aprenderam que existe regra para andar de carro. Elas começaram a cobrar dos pais que usassem cinto de segurança, que não ultrapassassem a final vermelho etc.

Hoje quando jovens têm uma consciência mais crítica, uma consciência cidadã, eles mesmo começam a exigir as coisas. Então tem que regular.

Esses são pequenos exemplos que parecem bobos, mas que são impactantes. São Paulo por exemplo, é uma grande vitrine para o Brasil. Quando todo mundo anda de bicicleta, isso acaba fazendo com eu outras cidades adotem a mesma medida. Exige também novas posturas das empresas. Antes aqui não tínhamos banheiro com chuveiro. A partir do momento que os funcionários adotaram a bicicleta como meio de transporte eu tive que fazer um vestiário pra que eles sentissem bem também.

Por que não prestigiar a pequena empresa da cidade? Isso dá sustentabilidade econômica para ela e sustentabilidade social para os habitantes. Enfim, é esse equilíbrio que a gente tem que buscar.

Enfim, é o mercado que define essas coisas. No caso das empresas, normalmente as pequenas empresas são fornecedoras e grandes corporações. As grandes hoje já tem os conselhos de acionistas que exigem comportamentos sustentáveis de seus fornecedores. Assim, se uma auditoria percebe que os fornecedores, que são pequenas e médias empresas, não têm as práticas sustáveis isso é um ponto de que vai para o conselho. Se bate isso na mídia, pode ter implicações no valor da empresa. As más práticas implicam em um tremendo risco: podem ter ações trabalhistas, do poder público. É prejuízo.

Ser sustentável necessariamente custa mais para o pequeno empresário?

JG – Hoje, se o cliente souber que uma empresa é genuína, que aquelas práticas sustentáveis não são apenas marketing verde, ele até pagará mais. Agora, o quanto mais é uma questão de mercado. Mas o mais importante é que tempos atrás o consumidor nem pensava nessa possibilidade. Hoje ele já pensa que a empresa pode dar uma contribuição.

Isso também agrega valor à marca. Mas isso só falando do lado econômico. E o lado cidadão? Essas coisas acontecem com muita frequência em outras sociedades, com cultura, digamos, mais desenvolvida.

Um país continental como o nosso, se tivermos equilíbrio podemos levar grande vantagem. Será que vou ter que derrubar uma mata para colocar pasto? Um dos fenômenos da chuva é que as florestas tiram a água do subsolo, fazem a fotossíntese e jogam essa água na atmosfera, que depois condensa e volta em forma de chuva.

Temos que criar soluções alternativas. É preciso gerar atividades produtivas para que o fazendeiro do Cerrado, por exemplo, sobreviva sem precisar derrubar a mata. Então, ao invés de criar gado, por que não faz um açudezinho e vai criar peixe? Ou, quem sabe, talvez a mata em pé tenha muito mais valor comercial do que se cortar tudo. Imagine o que não pode sair de cosméticos e medicamentos dali. São soluções que temos que buscar.

O que o Sebrae pode fazer no que diz respeito a políticas públicas?

JG - Temos uma área aqui que se chama exatamente Políticas Públicas. Existe uma lei que se chama Lei da Micro e Eequena Empresa.

Estamos fazendo um trabalho para implementar essa lei. Ela fala várias coisas,uma delas é que as compras, desde que os editais sejam feitos de determinada maneira e tenham determinadas características, podem ser feitas preferencialmente com micro e pequenas empresas. Isso é a base do desenvolvimento local e sustentável. Hoje a maior parte das prefeituras fazem licitações abertas. Aí participa grande e pequena empresa. E até de outros estados. Como essas empresas de outros estados costumam trabalhar com volumes maiores, acabam ganhando as licitações. Ora, o fornecimento a partir daí vem de outros estados. Então veja o impacto ambiental que isso vai causar. Além disso vai gerar emprego, tecnologia e impostos no estado de origem. Olha, como num país de desigualdade tão berrante você vai fazer equidade? Então a Lei Geral trata disso. Estamos fazendo isso para todo o Brasil para que eles preferencialmente comprem na região.

Isso também acaba tendo o controle da própria sociedade, que pode ficar de olho nas despesas públicas, porque sabe o preço que as empresas para praticam. E as próprias empresas vão ficar atentas para não ficarem queimadas com a sociedade. E estamos fazendo esse trabalho não só pra produtos manufaturados, mas para todos os agrícolas também, principalmente na alimentação escolar. Não tem sentido, por exemplo, que uma escola de uma pequena cidade adoce uma merenda com produto artificial, que normalmente vem de outro estado, se ali tem uma fábrica de açúcar mascavo. Por que não prestigiar a pequena empresa da cidade? Isso dá sustentabilidade econômica para ela e sustentabilidade social para os habitantes. Enfim, é esse equilíbrio que a gente tem que buscar.

* Publicado originalmente no site Mercado Ético.

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