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Cidades Sustentáveis

12 de Fevereiro de 2016

 

Dados de trânsito em tempo real são bons para as pessoas e para as cidades. O que está atrasando essa tecnologia?

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Moradores em parada de ônibus na cidade portuária de Saint Denis. O acesso à informação sobre o trânsito em tempo real ajuda a reduzir os tempos de espera e aumentar o número de passageiros
Foto: Miwok/Flickr

Pessoas com acesso a informações de trânsito em tempo real têm passado 15% a menos de tempo esperando nas paradas de ônibus do que aqueles que não têm essas informações. Além disso, um estudo das rotas de ônibus de Chicago mostra que o acesso à informação aumentou o número médio de passageiros em 2%, enquanto um estudo sobre os sistemas de ônibus da cidade de Nova York descobriu que essas informações também levaram a um crescimento no número de passageiros, resultando em um aumento de U$ 5 milhões anuais na receita das tarifas.

Esses são apenas alguns dos benefícios dos sistemas de informação ao passageiro em tempo real (RTPI, do inglês “real-time passenger information”), que fornecem informações atualizadas sobre horários de saída, chegada e interrupções no serviço, permitindo que os passageiros planejem viagens mais eficientes.

Um sistema RTPI prevê esses tempos com base em dados de localização automática de veículos (AVL, do inglês “automatic vehicle location”), bem como em médias históricas e desvios no cronograma. As informações são repassadas diretamente aos usuários em diferentes interfaces, como sites, mensagens e placas públicas, ou indiretamente em um feed de dados abertos que os desenvolvedores podem usar para aplicativos de smartphones sem custos para as agências de trânsito.

No entanto, sistemas RTPI não são baratos e, enquanto projetos prontos para uso estiverem disponíveis para aqueles que podem pagar, a questão sobre como fazer esses sistemas mais baratos e acessíveis para cidades não familiarizadas com a tecnologia, especialmente nos países em desenvolvimento, segue em aberto. Além disso, muitas cidades estão presas a contratos restritivos que governam como os dados devem ser usados.

Ultrapassar essas barreiras é um processo complexo, mas necessário. Como primeiro passo, as agências de trânsito deveriam se familiarizar com a tecnologia e entender como isso funciona – até mesmo em um nível mais alto –, para que possam mudar seus processos de aquisição e permitir a entrada de novos participantes e inovações.

Novas tecnologias trazem redução de custos e aumentam a eficiência
Tradicionalmente, as agências de trânsito compram sistemas RTPI e de localização automática de veículos como um pacote de um único fornecedor. Entretanto, esse empacotamento pode sair caro e, dadas as últimas tecnologias, está se tornando um modelo cada vez mais ultrapassado. Inovações estão surgindo em diversas áreas, com novos hardwares de GPS ou tablets que produzem dados de localização veicular de forma barata, ou, ainda, modelos do tipo Software como Serviço (Saas, do inglês Software as a Service) utilizando a nuvem, que reduzem a necessidade de investimento em capital.

app-ecod.jpgO OneBusAway (na imagem à direita), por exemplo, oferece um conjunto de produtos de código aberto que distribuem informações aos passageiros em tempo real através da internet, de sinalização pública, aplicativos de smartphone, mensagens de texto, sistemas interativos por voz e uma API bem documentada.

Outras startups, incluindo Via Analytics e Transitime, criaram sistemas de RTPI autônomos. O Via Analytics usa os dados de GPS coletados de tablets e aplica um algoritmo “antilotação” que pode gerenciar os horários de ônibus para evitar ineficiências. Da mesma forma, o Transit UC, um projeto da Universidade Católica do Chile, trabalha em um conjunto de ferramentas similar, incluindo a mesma capacidade de evitar um grande número de passageiros nos ônibus.

Transitscreen (imagem abaixo), que exibe informações em tempo real sobre as opções de transporte disponíveis em determinado local, é outro exemplo de uma empresa inovadora que torna essa informação acessível em espaços públicos para quem não tem smartphones.
Essas novas tecnologias estão permitindo as cidades adotarem sistemas RTPI que são mais baratos e mais adaptáveis. Algumas agências de trânsito começaram a reconhecer os benefícios de adquirir e implementar essas opções separadamente.

A falta de padrões abertos e compartilhados impede a inovação e a mudança
No entanto, o problema é que os sistemas de AVL tradicionais, geralmente, tem uma falta de padrões e interfaces abertos, impedindo que a troca de informações com outros softwares. Os provedores de hardware de AVL frequentemente impõem restrições proprietárias sobre os dados produzidos em seus sistemas, seja com licenças ou usando padrões fechados. O acesso aos dados processados só é permitido a partir dos padrões e interfaces fornecidos pelos fornecedores, privando agências de usarem outro software, experimentarem tecnologias inovadoras e reutilizares os dados com outros propósitos.

Como resultado disso, os governos ficam presos a esses contratos e não percebem isso até que queiram trocar um componente ou usar o dado de uma forma diferente. Muitas agências não têm uma alternativa para implementar o RTPI com o fornecedor atual e ficam de mãos atadas.

Afastando-se de empresas tradicionais
app2-ecod.jpgAgências de trânsito com tecnologia tradicional terão dificuldades em tirar vantagem dessas inovações, a não ser que tenham acesso completo a base de dados que gerencia essa informação.

As agências que estiverem adquirindo novos sistemas RTPI ou AVL devem exigir o que é conhecido como interoperabilidade, ou a capacidade de que diferentes sistemas se comuniquem entre si de forma eficaz. Isso significa que terão de exigir: 1) arquitetura e interfaces abertas e totalmente documentadas; 2) protocolos de dados e padrões abertos, bem como feed de dados (APIs) padronizados e documentados para extração de informações; 3) permissão para consultar e extrair dados da base; e 4) autorização para reutilizar esses dados para outros fins.

Exigir a interoperabilidade é crucial para fazer o transporte público mais responsivo às necessidades da população.

Então, por que padrões abertos não são a regra?
Enquanto não há uma resposta conclusiva sobre por que as agências de trânsito não exigem padrões abertos, existem diversas possibilidades. Uma razão potencial é que a falta de capacidade técnica faz dos contratos prontos, simplesmente, mais convenientes. Em segundo lugar, em algumas ocasiões, os fornecedores são responsáveis por escrever a solicitação de proposta em nome do governo, influenciando, dessa forma, em favor de sua própria tecnologia.

Uma terceira razão é que muitas agências, atualmente equipadas com sistemas AVL, não têm o conhecimento de que uma atualização para um sistema RTPI é mesmo possível. Por último, os bancos de desenvolvimento desempenham um importante papel, já que a forma tradicional de contabilizar os custos dificulta as questões de empréstimo para projetos baseados em Software como Serviço, que provavelmente será o futuro da inovação em trânsito.

O crescente uso de smartphones, altas taxas de urbanização e a rápida evolução das tecnologias estão impulsionando o potencial para a informação ao passageiro em tempo real em diversas cidades ao redor do mundo. Mas, até agora, pouquíssimas cidades em desenvolvimento têm sistemas RTPI. Na América Latina, apenas São Paulo conta com um, enquanto Santiago, Bogotá e Rio de Janeiro têm alguns componentes e acesso limitado a aplicativos, mas ainda nenhum sistema RTPI. Outras cidades, como a Cidade do México, apenas contam com AVL em alguns corredores de ônibus, como o Ecobus.

O acesso a informações em tempo real é um benefício real para população e para as cidades. A grande questão é que solicitar padrões abertos exige esforço das agências de trânsito e começa com um conhecimento básico do que é possível fazer.

(Por Diego Canales, do TheCityFix)

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