Organize uma horta comunitária
Converse com seus vizinhos e veja a possibilidade de vocês construírem uma horta …
Zé Pescador fala às crianças sobre a importância da preservação dos corais/Foto: Arquivo pessoal
Janaína. O nome não poderia ser mais apropriado. Em Tupi, significa Iemanjá, a rainha do mar e protetora das águas. Foi Janaína, com a inocência dos seus oito anos, quem despertou, antes de qualquer outro naquela comunidade, para a importância da preservação ambiental. Seu pai, José Roberto Caldas Pinto, mais conhecido como Zé Pescador, terminava de limpar as lagostas recém-capturadas, quando a menina lhe perguntou o que eram aquelas bolinhas saindo da barriga do animal. “São ovas, cada uma dessas bolinhas iria virar outra lagosta”, explicou Zé, sem muita paciência. “Mas pai, porque então o senhor não deixa elas nasceram antes?”, respondeu Janaína. Foi o suficiente para mudar, para sempre, a vida de Zé e de toda a comunidade onde vivem.
“Quando eu vi a decepção no rosto de minha filha, eu decidi que nunca mais faria aquilo”, lembra um Zé consciente e politizado. Mas nem sempre foi assim. Antes, Pescador exercia sua atividade sem dar muita importância para os sinais da natureza. “Eu pescava de toda a forma, não estava nem aí”, conta. Mas isso mudou e ele hoje é ativista, diretor-fundador da ONG Pró-mar, líder AVINA, parceiro do Instituto do Conhecimento (ICON) e dá palestras para grandes empresas em todo o Brasil, propagando a idéia da sustentabilidade.
Zé fundou a Pró-mar, em dezembro de 1999, com o intuito de realizar um trabalho de preservação ambiental com os pescadores da ilha de Itaparica, localizada a 13 km de Salvador, Bahia. Sua intenção era alertar a comunidade para os perigos da pesca predatória e fazer um trabalho de conservação dos recifes de coral que se estendem pela costa da ilha. “Esses corais são o local de reprodução e o habitat de mais de 65% das espécies marinhas. Por isso a preservação ecossistêmica é tão importante”, alerta.
O impacto e a destruição dos recifes de coral não são de hoje. Começaram com a povoação da vila e a exploração da pesca. Nessa história, já se vão quase 450 anos de degradação incontrolada. O resultado é que, hoje em dia, poucas áreas estão em bom estado.
A conscientização da comunidade é fundamental no processo de preservação/Foto: Arquivo pessoal
Para mudar esse quadro, a ONG desenvolve cursos de monitoramento, educação e capacitação dos membros da comunidade, dá dicas e informações de preservação aos visitantes, aulas de informação e cidadania aos filhos de pescadores e marisqueiras, e de inglês, francês e informática, pelo Instituto Jovem Digital.
Mas para Zé, o principal desafio é conscientizar os pescadores a não praticarem a pesca predatória, mesmo ela sendo a opção mais fácil e barata. “É uma ilusão achar que aquilo é bom para você, pode ser na hora, mas e depois, quando os peixes acabarem?”, questiona Pescador.
Novas formas de pesca para região
O ex-pescador acredita que a pesca sustentável deve ser desenvolvida através de um manejo participativo e que dê tempo aos estoques de se recuperarem. “Devemos pensar gestão e políticas públicas que favoreçam a recuperação dos estoques. Criar novas técnicas de captura menos agressivas, trabalhar o cultivo e a engorda dos animais – tendo cuidado, claro, com os impactos disso no ecossistema – tentar e experimentar coisas novas e levar a informação através de modelos de comunicação inovadores, que cheguem e falem a língua da comunidade”.
Para o líder, educação ambiental e informação são ferramentas capazes de gerar uma consciência ambiental e sensibilizar a comunidade. “A mudança não acontece de uma hora pra outra. É preciso criar uma cultura de conservação que mostre a importância de um ambiente sadio”. Porém, para manter um sistema de pesca sustentável é necessário mais do que isso. Segundo Zé Pescador, é preciso pensar na conservação agregada à geração de renda. “O cara não vai deixar de pescar daquela forma se não tiver um retorno econômico”, concluí.
E se engana quem pensa que os benefícios da preservação dos corais se limitam aos aspectos econômicos e ambientais. “Preservar os recifes é também preservar a cultura, as histórias e as raízes do local”, garante. Um exemplo disso é o fato do nome da ilha, “Itaparica”, significar “cercada de pedras”, em Tupi. Isso remete diretamente ao fato da ilha ser costeada por recifes, o que fazia as pessoas acreditarem que aquilo fossem pedras. “Por isso o projeto é tão importante, não podemos deixar isso acabar”.
O monitoramento ajuda a controlar a revitalização dos corais/Foto: Arquivo pessoal
Sinais da mudança
Mais tranqüilo após tantos anos de luta, Zé diz até que já pensa em se aposentar. “Agora que a ONG já está andando com as próprias pernas, eu sinto que já fiz a minha parte”. O cenário da pesca predatória no Estado também já começa a se modificar. “Isso está melhorando. Hoje a fiscalização já é mais séria e atuante, o que diminuiu o número de pescas predatórias. Já chegamos a contabilizar 40 explosões em um único dia na ilha do Medo.” Mas alerta: “Não basta fiscalizar para haver uma solução para esse tipo de pesca, é preciso unir educação ambiental e fiscalização e criar novas alternativas para aqueles pescadores”.
Os planos de Zé se resumem agora a fazer algumas palestras e terminar sua casa em Mar Grande, na ilha de Itaparica, que será toda feita com a ajuda dos amigos pescadores. “Eu quero utilizar madeiras tiradas de barcos e colocar uma horta lá nos fundos.” Pouca ambição? Não para esse homem, que vê nas coisas simples da vida o caminho para a felicidade. “Vivemos em um momento que nos faz refletir sobre a nossa forma de vida e como ela está longe de ser sustentável. A gente precisa se educar e buscar um modo de vida mais equilibrado, com um maior contato com a natureza.”
Quanto ao desenvolvimento da pesca na região, Zé diz que sua maior esperança é que essas iniciativas ajudem a promover e a desenvolver a atividade. “Não é porque são pescadores que eles têm que viver com tanta miséria. Eu espero que esses homens possam levar uma vida digna vivendo do mar.”
Faça sua doação!
Estamos precisando muito da sua ajuda e qualquer valor doado é de grande importância.
Você pode impedir que este trabalho importante de conscientização acabe, fazendo sua doação. Todos os recursos obtidos serão utilizados para a manutenção de nossas atividades. Vale lembrar que todo conteúdo é 100% gratuito e acessível a qualquer cidadão.
Clique aqui e saiba como fazer a sua doação!
Comentários
Copyright © 2025 ecodesenvolvimento.org | Contate-nos - [email protected]