
Primeira economista a faturar o Prêmio Nobel, Ostrom acredita que o homem é capaz de resolver os problemas ambientais que ele mesmo causou/Foto: aschweigert
"Nós não podemos esperar sentados para chegar a uma solução global". O alerta foi acionado por ninguém menos do que a primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel de Economia. Em entrevista concedida à Marta Escotet, da Fundação Avina, Elinor Ostrom afirmou que a resolução dos problemas climáticos mundiais passam, necessariamente, por uma conexão de ações. "Você pode fazer muitas coisas em nível local, comunitário e regional", completou.
Ostrom discorda do argumento pessimista no qual o homem tornou-se uma praga no planeta, condenada a esgotar os recursos que são seus próprios meios de subsistência, e que a única maneira de impedir a devastação ambiental é por meio da privatização ou regulação autocráticas.
Segundo a economista, uma das vias para se chegar à solução do problema são as instituições de cooperação organizadas, regidas pelas mesmas pessoas que precisam utilizar os recursos comuns e estão empenhadas em fazê-lo de uma forma sustentável, respeitando o tempo de recuperação .
"Cheguei a esta conclusão depois de ter estudado uma série de sistemas de irrigação geridos pelos próprios agricultores, tê-los visto usar esses recursos de uma forma que é nitidamente superior ao levantado por alguns governos", informou Ostrom, que recebeu o Prêmio Nobel de 2009 em razão de estudos de governança dos recursos de propriedade comum.
Envolvimento
Durante três décadas, Ostrom e colegas observaram a maneira pela qual grupos de pequeno e médio porte, em diferentes partes do mundo, assumiram a responsabilidade de organizar a gestão dos recursos de propriedade comum, como eles criaram sistemas de interação social, processos de tomar decisões, regras estabelecidas por meio de acordos mútuos e procedimentos elaborados para reforçá-los e resolver os conflitos de interesse.

Ostrom defende o engajamento das comunidades locais na luta contra o aquecimento global/Foto: B Wolff/UN
Embora nem todos os grupos locais apresentassem a mesma eficácia, os estudos mostraram que não só é possível para as pessoas se organizarem de forma eficaz para gerir os recursos ambientais, mas também demonstrou a importância da análise econômica para compreender os mecanismos que regem as organizações sociais e quais são as circunstâncias que promovem os melhores resultados.
"A criação de um clima de confiança é um dos recursos mais importantes. Se a comunidade quer gerir seus recursos, o primeiro obstáculo a ser superado é a falta de confiança que impede de começar a organizar. E isso não é uma questão trivial ", explicou Ostrom. A economista ressaltou que não busca desqualificar o papel do Estado na luta contra o aquecimento global, mas, segundo ela, os governos tomam muitas decisões sem consultar as comunidades envolvidas, o que poderia ser evitado.
De acordo com Ostrom, quando os governos emitem regras e proibições sem consultar as comunidades que consequentemente não participam do planejamento e deliberações, são registrados desperdícios de recursos e ineficácia das ações. A economista insiste que devemos respeitar a sabedoria que pode ser encontrada em regiões que souberam resolver os problemas com criatividade e recursos escassos para as gerações futuras.
"O Nepal, um país em desenvolvimento, investiu milhões de dólares em equipamentos para mitigar as emissões de gases-estufa, mas os engenheiros que desenvolveram o projeto nunca pararam para trocar experiências com os cidadãos locais que tinham o direito de ser consultados. O que aconteceu? Danificaram um sistema de água que funcionava perfeitamente a centenas de anos."
Ao ser perguntada sobre qual seria o papel das empresas nesse conceito, Ostrom é enfática: "Isso depende da empresa". "Algumas só se preocupam com os lucros. Algumas são exploradoras e apenas procuram mão de obra barata. Mas há outras empresas que compram produtos locais, que são identificadas com a região e ajudam a construí-la. Essa é a diferença entre uma grande empresa internacional e de pequenas cooperativas ou pequenas empresas privadas que desenvolvem raízes na comunidade e querem ver as melhorias e o progresso da comunidade", concluiu a economista.
Com informações da Fundação Avina