Pecuária, desmatamento e desastres ambientais na Amazônia

Última atualização: 19 de março de 2024

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29 de Outubro de 2009






Pecuária, desmatamento e desastres ambientais na Amazônia

Autor:Helder Schlickmann e Santiago Augusto Shauman

 

No ritmo atual de desmatamentos e de mudanças climáticas, os cientistas estimam que, em 20 anos, 40% da Amazônia será destruída e outros 20% perderão as feições originais, em um processo de colapso da maior floresta tropical do mundo (NATIONAL GEOGRAPHIC, 2007) A expansão da pecuária é a principal causa do acelerado processo de desmatamento da Amazônia (MATTEDI, 2007).

Os dados são claros: cerca de 75% das áreas desmatadas são ocupadas por gado; mais de 90% da carne produzida na Amazônia é consumida no próprio Brasil; do total de carne para consumo interno, mais de 70% é consumida nas regiões de maior poder econômico, Sul e Sudeste (RIBEIRO, 2007). Qual é nosso papel em tudo isso? Somos direta e indiretamente responsáveis por este processo, pelo nosso hábito diário de comer carne bovina. Entre 1990 e 2007, o rebanho bovino da região Amazônica passou de 26,6 milhões para 70 milhões (mais de três vezes o total de habitantes da região). O aumento da demanda e as vantagens do setor indicam que a pecuária continuará a crescer na região.

Em oito de março de 2007, o Banco Mundial aprovou um empréstimo de US$ 90 milhões ao frigorífico Bertin, o segundo maior do Brasil e um dos fornecedores de carnes para a UNICAMP. Com o investimento, a firma prevê que, em sua unidade de Marabá (PA), a capacidade de abate, que hoje é de 800 bois por dia, dobrará até 2009 (CARMELLO, 2007).

Desmata-se, degrada-se o solo com o pisoteio do gado e com a falta de manejo. Então, derruba-se mais floresta para abertura de novos pastos. Estamos destruindo cerca de 24 mil km² de mata nativa por ano (MEIRELLES FILHO, 2006, 2007), o que equivale a 5,4 campos de futebol do Maracanã por minuto.

Da carne produzida para o mercado interno, apenas 13% fica na região (RIBEIRO, 2007). Portanto, a Amazônia é um exportador líquido de carne para o restante do Brasil.

A destruição das florestas, para abertura de pastos e campos de cultivo para alimentação de gado, tem diversas implicações, como o comprometimento da biodiversidade e a promoção de processos erosivos e de desertificação. Além disso, as queimadas, utilizadas como mecanismo para o desmatamento, situam o Brasil como quarto maior emissor de gases de efeito estufa do mundo. Isso corresponde a 75% das emissões de CO2 geradas em todo o país (MEIRELLES FILHO, 2006, 2007). Para um hectare de floresta queimada, são emitidas, em média, 150 toneladas de CO2 (MEIRELLES FILHO, 2006, 2007). Além disso, com a população brasileira atual de gado bovino de 195 milhões (COURY, 2007), os animais em pastagem são responsáveis pela emissão de outros gases de efeito estufa (GREENPEACE, 2007): 1,40% do total de N2O, que também é o principal responsável pela chuva ácida; 2.11,2 milhões de toneladas de CH4 por ano, sendo que este gás aprisiona 24 vezes mais energia térmica que o CO2.

No Brasil, a pecuária contribui mais com gases de efeito estufa do que o setor de transportes. Além disso, alimentar os bois com pasto ou grãos é o meio menos eficiente de gerar calorias. Apenas 7% da energia investida é convertida em carne (MEIRELLES FILHO, 2006). A produção de grãos, em uma fazenda com 100 hectares, pode alimentar 1100 pessoas com soja, ou 2500, com milho, enquanto, se for usada para ração bovina ou pasto, a carne produzida alimentaria oito pessoas. No Brasil, quase a metade (44%) das culturas destina-se a produzir alimentos para os animais. Porém, estes só podem nutrir reduzida parcela da população, uma vez que geram uma quantidade menor de alimentos e que a vasta maioria das pessoas não tem poder aquisitivo para comprar carne. No Brasil, é necessário 1,3 mil litros de água para produzir cada quilograma de cereal. Porém, são necessários 150 mil litros de água para produzir a mesma quantidade de carne bovina. Além disso, os abatedouros paulistas utilizam 2,6 mil litros de água para processar cada carcaça bovina (GREIFF, 2007). O pecuarista não paga pela água que utiliza nem pelos efluentes que o abatedouro gera.

O modelo regional de pecuária não gera desenvolvimento, principalmente por sua má distribuição de renda e promoção de concentração de terras. O IDH das cidades com grandes rebanhos é similar aos dos países mais pobres do mundo (REPÓRTER BRASIL, 2007).

Na Amazônia, para 1000 hectares, a pecuária emprega uma pessoa, enquanto a agricultura familiar, 100 pessoas e uma agrofloresta (permacultura), 250 pessoas (SAFATLE, 2007). Do total de ocorrências de trabalho escravo no Brasil, 80% vem da cadeia produtiva pecuarista (REPÓRTER BRASIL, 2007).

O governo federal mantém um cadastro de empregadores que utilizam trabalho escravo, a “lista suja”. Ela contém atualmente 163 nomes e mostra que quem escraviza no Brasil é, na maioria das vezes, empresários inseridos no agronegócio, muitos deles, produzindo com alta tecnologia.

Há grande comoção quando os índices de desmatamento são expostos ao vexame público, mas a Amazônia não está sendo destruída pelos outros, mas sim por todos e por cada um de nós. Há uma forte ligação entre o consumo de carne e o desmatamento. Por isso, uma maior demanda de carne, seja por um maior consumo por habitante, pelo aumento da população ou pela geração de novos mercados, pode influenciar diretamente na abertura de novas pastagens na região amazônica.

Como a maior parte da carne produzida naquela região vai para as regiões Sul e Sudeste, possuímos estreita participação neste quadro, passando de meros espectadores a financiadores desta degradação. Diante deste contexto, o objetivo deste trabalho foi avaliar a relação entre consumo de carne nos restaurantes universitários e o desmatamento na região Amazônica.

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