Por Lise Lobo
Salvador é entrecortada e circundada pelas águas, mas mesmo com tanta abundância do recurso natural, a cidade está se tornando árida. Segundo o livro O Caminho das Águas em Salvador – Bacias Hidrográficas, Bairros e Fontes, o percurso feito pelas suas águas, que recriam parte significativa da história da capital baiana, revela o quão perversa tem sido a relação entre urbanização e natureza. As águas doces desaparecem na relação inversa à intensidade do processo de urbanização.
O livro, que traça um perfil dos rios de Salvador, fornece indicadores sobre a qualidade das águas e sobre o acesso aos serviços públicos de saneamento ambiental, assim como a delimitação das bacias hidrográficas, de drenagem natural e a delimitação dos bairros da primeira capital do Brasil.
O projeto, que contou com a iniciativa de professores e pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA), por meio da Escola de Administração e da Escola de Engenharia Sanitária, teve início em 2007, conclusão em 2010, e foi financiado pelo CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), com a participação de instituições como Embasa (Empresa Baiana de Águas e Saneamento), Conder (Companhia de Desenvolvimento Urbano do estado da Bahia), Sema (Secretaria do Meio Ambiente), Inema (Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos), Sedham (Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, Habitação e Meio Ambiente) e SMA (Secretaria Municipal de Administração) da Prefeitura Municipal, além da Fundação Ondazul.
Uma das organizadoras, a pesquisadora Maria Elisabete Santos, contou, em entrevista ao EcoD, detalhes da discussão teórica tratada no livro sobre os desafios da complexa relação entre sociedade e natureza, identidade, território e águas.
Rio Ipitanga/Imagem: Reprodução/Ortofotos SICAD PMS – 2009
EcoD – Como se deu o início dos trabalhos para o projeto Caminhos das Águas em Salvador? Havia outra publicação que identificasse os rios da cidade ou essa é a primeira?
Maria Elisabete – O início se deu após constatarmos que a qualidade ambiental em Salvador estava se deteriorando de forma muito acelerada e que a poluição das águas era um dos seus principais problemas. Além disso, os dados sobre a qualidade dos rios eram escassos, pontuais e estavam desatualizados, o que refletia o desinteresse do poder público em equacionar esse problema. Se você considera o problema relevante, você procura conhecê-lo para intervir. A exemplo do que acontece nas nossas grandes cidades, Salvador transformou nossos rios em canais de esgoto. A universidade pode ajudar nesse debate produzindo dados e indicadores sobre o comprometimento da qualidade das águas e suas fontes de poluição.
EcoD – Havia alguma preocupação anterior que foi confirmada ao longo dos estudos e pesquisas?
Maria Elisabete – Constatamos, mais uma vez, o que já era de conhecimento de quem trabalha com a gestão e política das águas, ou seja, que a principal fonte de poluição dos nossos rios é o lançamento de dejetos domésticos. Esgoto doméstico, que deveria ser coletado e tratado pelo sistema de esgotamento sanitário.
Canal do Rio Paraguari/ Foto: Reprodução/André Carvalho
EcoD – Em resumo, é possível avaliar a qualidade das águas que percorrem a cidade de Salvador?
Maria Elisabete – O estudo procurou identificar os seguintes elementos: coliformes termotolerantes (UFC/100 ml), condutividade (umho/cm), DBO5 (mg/L), fósforo total (mg P/L), nitrato (mg NO3-N/L), óleos e graxas (mg/L), OD (mg OD/L), pH, sólidos totais (mg/L), temperatura da amostra (ºC), temperatura do ar (ºC) e turbidez (NTU).
O que se constatou foi o seguinte quadro: Rio dos Seixos ou Barra/Centenário: ruim; Camarajipe: ruim; Lucaia: ruim; Pedras/Pituaçu: ruim; Paraguari: ruim; Jaguaribe: ruim. Os rios Passa Vaca, Cobre e Ipitanga apresentam uma qualidade considerada como regular. Os rios das Ilhas dos Frades e de Maré são os únicos que apresentam uma boa qualidade das suas águas. É preciso lembrar que o Rio Camarajipe, por exemplo, foi um dos principais mananciais de abastecimento da cidade, de final do século 19 até meados do século 20. Ao longo do tempo, com o lançamento de esgotos sanitários e resíduos tóxicos in natura, a qualidade de suas águas ficou comprometida.
Lagoa da Paixão/ Foto: Reprodução/Elba Veiga
EcoD – Dentro dessa pesquisa, vocês identificam semelhanças com outras capitais brasileiras? A fonte poluidora é similar?
Maria Elisabete – Temos em comum com as outras capitais o lançamento de descargas de esgotos domésticos. Cidades que concentram atividades econômicas com maior impacto poluidor, a exemplo de atividades industriais, que deveriam tratar seus dejetos e não permitir que os mesmo comprometessem o ambiente. A legislação existente no país já contempla isso. Entretanto, nem sempre o que está colocado na lei efetivamente é implementado. O parque industrial pesado da Região Metropolitana de Salvador (RMS) localiza-se fora da cidade, o que não significada que atividades econômicas de menor porte não possam comprometer a qualidade do ambiente urbano.
EcoD – Quantos rios em Salvador já desapareceram? E quais os principais motivos?
Maria Elisabete – Assistimos a cada dia a morte silenciosa dos nossos rios. O processo de urbanização nas grandes cidades é predatório e a especulação imobiliária, juntamente com a omissão dos poderes públicos, tem uma grande parcela de responsabilidade nisso. O que vimos na Avenida Centenário é um exemplo disso. Podemos urbanizar uma área sem que isso implique na destruição do ambiente.
Rio Mocambo/ Foto: Reprodução/Elba Veiga
EcoD – Segundo a pesquisa “Qualidade Ambiental das Águas e da Vida Urbana em Salvador”, o Rio do Cobre é um dos poucos existentes na cidade que ainda tem vida, mesmo assim, corre uma série de riscos. O que pode ser feito para que ele não acabe como os outros?
Maria Elisabete – Eliminar as fontes de poluição que degrada o rio. Fiscalizar. Mostrar ao cidadão que a qualidade de vida dele depende de água limpa (na torneira e também no rio, no córrego que passa ao lado da sua casa), depende de vegetação, de ar não poluído. É preciso reconhecer que a degradação ambiental compromete a qualidade de vida na cidade – que adoecemos junto com a destruição do ambiente urbano.
EcoD – Qual solução mais sustentável para os emissários submarinos?
Maria Elisabete – Quem melhor fala a respeito disso é o professor Luiz Roberto Santos Moraes, da Escola Politécnica da UFBA. Ele diz de modo muito enfático: precisamos conceber modelos descentralizados de tratamento das águas. O modelo de esgotamento sanitário implantado nas nossas capitais é caro e ambientalmente danoso.
Rio Saboeiro/ Foto: Reprodução/Elba Veiga
EcoD – E sobre a medida de cobrir com placas de concreto os rios e canais da cidade, há algum tipo de problema nessa prática? Estudiosos consideram essa ação a morte do rio. Existe lado positivo ou apenas negativo?
Maria Elisabete – Como disse antes, podemos urbanizar uma área, transformá-la em local de lazer sem precisar cobrir o rio. Isso na pratica é matar o rio. Se ele está poluído, a ação responsável do poder público deveria ser de despoluí-lo e não de entubá-lo ou esconder a sujeira para debaixo do tapete.
EcoD – Qual o maior problema na recuperação dos corpos hídricos em Salvador?
Maria Elisabete – São vários os problemas que, conjugados, resultam em um quadro de degradação. É preciso regular, combater a ação predatória e especulativa de segmentos econômicos que ganham dinheiro com a terra urbana e que, ao fazê-lo, destroem o que restou de patrimônio ambiental na cidade. É preciso construir e implementar políticas públicas voltadas à melhoria da qualidade do ambiente urbano – voltada a eliminação de fontes de poluição. É preciso despertar no cidadão a compreensão de que uma cidade boa de viver precisa de água limpa, de vegetação e de ar limpo.
Vale do Rio Pituaçu/ Foto: Reprodução/Elba Veiga
EcoD – Como andam as políticas públicas na área? Como está a gestão hídrica?
Maria Elisabete – O Estado tem tido uma atitude de subordinação em relação aos interesses especulativos que resultam na destruição e comprometimento ambiental. Depois de décadas de luta, da incorporação do discurso ambiental por parte do poder público e das empresas, o que assistimos hoje é o predomínio da compreensão de que a legislação ambiental “prejudica” o desenvolvimento. Deixamos de nos perguntar sobre o padrão de desenvolvimento desejável e agimos como se uma única possibilidade fosse possível. É a hegemonia do pensamento único em seu estado puro.
EcoD – O livro, lançado em 2010, já causou algum impacto positivo na sociedade e poder público? Vocês sentem algum retorno desse trabalho?
Maria Elisabete – A realização desse trabalho, com a extensão e profundidade com a qual foi feito só foi possível pela parceria entre a UFBA, Embasa, Sema, Conder e órgãos da Prefeitura. Entretanto, é preciso que o poder público, em suas várias escalas, traduza em ações as recomendações apresentadas no estudo. Não basta a constatação de que temos leis, é preciso que as mesmas sejam cumpridas. Os estudos não bastam. É preciso que eles fundamentem a intervenção do poder público, da empresa e do cidadão.
Cachoeira do Parque São Bartolomeu/ Foto: Reprodução/Elba Veiga
EcoD – Sabemos que o poder público é o principal responsável em criar medidas que alterem o quadro atual dos rios em Salvador, mas o que a população também pode fazer para contribuir com essa melhora?
Maria Elisabete – Cobrar do poder público o combate a degradação, a implementação de políticas e medidas de melhoria da qualidade das águas e do ambiente urbano. Se continuarmos com a atitude passiva de que esses problemas não dizem respeito a cada um de nós, estaremos contribuindo para que a qualidade de vida nas cidades se deteriore cada vez mais. Salvador esta ficando inóspita e árida. Nossos espaços públicos estão se transformando em lugar de passagem, em lócus da violência e da degradação. Não “andamos” pela cidade, “passamos” por ela em busca dos nossos ambientes privados – onde acreditamos estar seguros e protegidos. Essa é uma grande ilusão. Precisamos reinventar nossas cidades e o nosso único caminho é a política, a boa política, que coloca em primeiro plano o interesse coletivo e o interesse difuso, da natureza e das águas.