Parklet: Construção do lugar

Última atualização: 19 de março de 2024

18 de Junho de 2014






Leia Também

Lincoln Paiva

11 de Maio de 2015

Cidadãos melhores

Lincoln Paiva

20 de Março de 2015

Cidade Feliz

Lincoln Paiva

16 de Janeiro de 2015

Cidades sensíveis

Lincoln Paiva

28 de Setembro de 2014

Cidades e cidadãos

Lincoln Paiva

05 de Agosto de 2014

Urbanismo caminhável

Parklet: Construção do lugar

Para Platão, o lugar era o alimento do ser, fonte inesgotável de debates entre filósofos. Com o tempo, o lugar passou a ser apenas objeto de estudo da geografia. No entanto, após 2.500 anos, o tema volta a chamar a atenção – é crescente o número de pesquisas nos campos da filosofia, ciências sociais e urbanismo tratando o “lugar” como ponto central de convivência humana e do complexo conceito de “placemaking” (construção do lugar) em função da limitação dos espaços públicos nos grandes centros urbanos.

Desde que o Instituto Mobilidade Verde (IMV) começou a realizar experiências sobre a transformação de espaços públicos em lugar, o parklet surgiu como excelente recurso de pesquisa, porque permite ir além da transformação do espaço. Ele traz em seu bojo a reflexão sobre o uso do solo, dado sua materialidade como intervenção urbana e sua capacidade de interferência no local. Para o geógrafo sino-americano Yi-Fu Tuan “a familiaridade com dada porção do espaço, pela experiência, faz torná-la lugar”. Segundo ele, “o espaço é o movimento e o lugar a pausa”.

O Instituto utilizou o parklet como ponto de partida para reflexões acerca das questões urbanas mais pungentes da cidade: a falta de convívio entre pessoas, a relação entre transporte público versus transporte individual versus infraestrutura e as questões sociais relacionadas à pobreza. Todos esses temas vêm à tona quando o que se busca é estabelecer maior equidade na distribuição dos espaços urbanos – cada vez mais limitados pelo crescimento da cidade em contraponto ao mercado imobiliário, regulamentações do plano diretor e a falta de investimentos em sistemas de transportes públicos.

Se o corpo do parklet discute o espaço, podemos inferir que sua alma vai discutir o lugar. O que é um lugar? Para o geógrafo canadense Edward Relph, o lugar não é apenas onde criamos nossas raízes no espaço geográfico, mas onde cada um de nós se relaciona com o mundo e onde o mundo se relaciona conosco.

O parklet é um bom instrumento para discutir o espaço e ainda mais importante para a construção de lugares numa cidade como São Paulo, cada vez mais limitada de áreas públicas

Nossos estudos sobre a experiência com os parklets na cidade de São Paulo mostraram como se dá essa dinâmica de construção de lugares. O processo de pesquisa foi formulado em dois momentos: o primeiro durante quatro dias nas ruas Maria Antônia (Vila Buarque) e Amauri (Itaim Bibi), dois importantes bairros paulistanos.

Foi a primeira vez que uma minipraça ocupava a vaga de dois carros na via pública e, ao contrário do que muitos poderiam imaginar, a ocupação pela população foi instantânea – pesquisas com mil usuários apontavam que tanto motoristas quanto pedestres foram 100% favoráveis à construção dessas diminutas intervenções urbanas na capital paulista.

A segunda etapa do projeto foi realizada durante a 10ª Bienal de Arquitetura de São Paulo, ocasião em que um parklet foi montado na rua Padre João Manuel, na esquina com a avenida Paulista. Nessa etapa, a estrutura ficou exposta durante 30 dias e foi monitorada por pesquisadores do IMV.

Durante o processo, traçamos a cartografia afetiva do espaço, ou seja, como as pessoas se relacionavam com o espaço e entre si. À medida que as pessoas passaram a utilizá-lo com frequência, notamos que estabeleciam relações emocionais com determinados pontos daquela área: determinaram seus próprios locais para ler, conversar, alimentar, brincar, relaxar e namorar – indicadores importantes que estabelecem um caminho para a construção de um lugar, ou seja, a frequência de uso em um ponto delimitado no espaço.

Também percebemos que os parklets têm maiores chances de ocupação efetiva quando há um forte sentido de “lugar” ancorado por preservação histórica, proporcionam um espaço urbano tranquilo, o padrão de desenvolvimento urbano é mais compacto, estão próximos de ampla rede de transporte público bem utilizado e quando se estabelecem em bairros tradicionais, com forte senso de comunidade, e mistos, com diversidade cultural variada. O parklet também é resultado direto de sua segurança e sua conexão com as narrativas locais.

As relações sociais são fundamentais para o convívio em comunidade, assim como o elo afetivo com o espaço é fundamental para a transformação do espaço em lugar. O parklet é um bom instrumento para discutir o espaço e ainda mais importante para a construção de lugares numa cidade como São Paulo, cada vez mais limitada de áreas públicas. No dia 16 de abril, por meio do decreto 55.045, a prefeitura de São Paulo transformou o parklet em instrumento urbanístico da cidade.

Comentários

Deixe sua opinião sobre este assunto.


 

 

Copyright © 2025 ecodesenvolvimento.org | Contate-nos - [email protected]